TOI, MOI, LES AUTRES – 5/10

Exibido na passada segunda-feira na Festa do Cinema Francês, Toi, moi, les autres é um “Bollywood à francesa” que acaba por se revelar um depósito de clichés. Não passamos da batida fórmula “menino rico e menina pobre apaixonam-se”, na qual dois mundos diferentes chocam e onde os impeditivos à relação são os mais esperados possíveis – sim, há uma noiva rica que quer destruir tudo e pais conservadores que não aguentam a vergonha social. Em resumo: nos primeiros minutos do filme já sabemos que eles vão acabar juntos e felizes.

Depois é toda a propagação de um conjunto de estereótipos que não fazem sentido: a comunidade do gueto que é violenta, um homossexual que quer virar estrela da Broadway, uma alta sociedade degradada pelas tentações da juventude e do dinheiro… a lista é grande e despojada de sentido. Efeito cómico de tudo isto? Sim, até em demasia.

Da parte musical, valha-nos o facto de a banda sonora ser constituída por músicas francesas até bastante conhecidas do grande público, relativamente bem encaixadas com o enredo.

Nem tudo é mau, mas nada é sublime nesta comédia musical com assinatura de Audrey Estrougo. Como ponto a destacar surge a temática da emigração ilegal, com a história de uma mãe e uma filha que o sistema judicial separa. É dos poucos momentos do filme em que nos sentimos agarrados e somos tentados a sentir um arrepio na espinha perante o que vemos. Tudo o resto é fórmula gasta.

JE NE SUIS PAS MORT – 8,5/10

Terça-feira marcou a inauguração da secção Maria de Medeiros, actriz que surge como a madrinha desta edição e que acaba por “representar as ligações culturais existentes entre Portugal e França”. Para tal, escolheu Je ne suis pas Mort de Mehdi Ben Attia, filme que teve a sua estreia pública no festival, já que ainda nem estreou em França.

Eu não estou morto – é nisto que Richard tem de fazer a sua esposa acreditar quando, após a sua morte física, surge no corpo de Yacine. Será mesmo Richard ou terá Yacine, um ambicioso aluno seu, desenvolvido esta artimanha para ocupar o lugar do seu professor após a sua morte?

A resposta não está no filme, pelo menos tomando a forma de certeza. E é nisto que reside a beleza da nova película de Mehdi Ben Attia, que assina também este argumento. Fica-se em dúvida, pensa-se se tal será possível, tenta-se traçar um perfil para o espaço mental desta personagem dúbia que é Yacine/Richard. Distúrbio de identidade de Yacine, ocupação de outro corpo por parte da mente de Richard ou tantas outras hipóteses para tentar explicar a situação.

E é isso que o cinema deveria fazer ao seu espectador: torná-lo activo na construção da história, dar-lhe as rédeas da interpretação, fazê-lo questionar o seu lugar e a própria acção que se lhe apresenta.

O próprio final faz esse jogo quando vemos esta personagem a tomar um rumo que julgamos ser o definido. Mas não o é. É o jogo constante entre o ser e o não ser.

* Este texto foi escrito, por opção do autor, ao abrigo do antigo Acordo Ortográfico.