Quando começamos a perder a esperança no cinema moderno, quando apenas os filmes antigos nos satisfazem a sede pela sétima arte, eis que, do nada (ou mais propriamente da Bélgica), surge Sr. Ninguém – que acaba por provar que o mundo do cinema não está senil nem tão pouco extinto. Em vez de continuar com a moda dos remakes, os cineastas deviam olhar para este filme como uma fonte de inspiração, não para seguir os mesmos moldes, mas para fazer diferente: sim, porque é sempre possível fazer diferente, criar algo de raiz; ou não fosse o ser humano o animal mais dotado de criatividade do que qualquer outro.

Tudo começou numa ideia. Um simples pensamento que resultou numa curta-metragem. Uma criança tinha de tomar uma decisão: tinha de escolher entre o pai e a mãe. Mas quais seriam as consequências dessa decisão? Como seria a sua vida com cada um deles?

Jaco Von Dormael, o realizador, não se contentou com apenas essas duas possibilidades. Para ele, não era apenas uma escolha, mas sim uma multiplicidade de caminhos que daí poderiam advir e modificar quer a vida da criança, quer a de dezenas de outras pessoas. Deste modo o realizador desenvolve a premissa inicial da difícil escolha da criança de nove anos. Contudo, antes dessa decisão, somos confrontados com as várias vidas que Nemo Nobody pode viver mediante o rumo que decidir tomar. Por mais complicado que tudo pudesse parecer (e era), o realizador não desistiu da sua ideia, nem quando via os anos passarem e filmes semelhantes a estrear enquanto o dele continuava no papel. Deste modo, em 2009 – depois de mais de oito anos a trabalhar na sua concepção – apresenta uma obra prima, com direito a uma standing ovation no Festival de Veneza.

Seria injusto tentar fazer um resumo de Sr. Ninguém, porque nunca conseguiria dignificar a grandeza e a opulência de toda a sua história. Resumir significa ocultar as partes menos importantes e focar-se no essencial, contudo aqui não há partes menos importantes, Sr. Ninguém funciona como um todo harmonioso e digno de figurar entre os melhores filmes que já vi. Na trama nada é deixado ao acaso: todas as cenas têm um significado, interligando-se de maneira sublime com todas as partes da narração, mantendo um ritmo adequado e coerente com as mudanças temporais da ação.  O que não é assim tão simples, uma vez que o filme acaba por apresentar várias histórias paralelas, ainda que com o mesmo protagonista.

Jaco Von Dormael fez magia: não só o argumento é de génio, como a realização, a montagem e banda sonora são de louvar. A narração não-linear, as transições de cena, a simbologia da água como momento de passagem, os inúmeros planos em perfil, evidenciando a possibilidade de outro rumo, bem como as cores que servem de ambiência a diferentes partes da história, são pequenos toques que enchem de simbologia e significado a trama. Sem nunca esquecer, claro, o momento de despedida entre os adolescentes Nemo e Anna que foi, sem nenhuma dúvida, uma das sequências mais belas jamais conseguidas em cinema.

Aqui não destaco nenhum ator em específico (embora o Jared Leto seja sempre uma boa surpresa nas telas). O filme funciona de tal forma, que o vemos como um todo: não há más interpretações, porque não existem maus papéis – o argumento é tão bom que não dá espaço para falhas. Destaco sim, mais uma vez, a sensibilidade, imaginação e mestria do realizador e argumentista Jaco Von Dormael: um génio na verdadeira aceção da palavra. Quase que temos a sensação de que todas as técnicas e cenários cinematográficos foram aqui explorados: desde ambientes futuristas com visitas a Marte, momentos de pura ficção científica, até algumas (leves) lembranças de Benjamim Button. É mesmo caso para dizer: Avé Jaco.

No final de mais de duas horas simplesmente viciantes de Sr. Ninguém, saímos com a sensação de termos levados três pares de estalos na cara e, ainda, com uma balde de água fria pelo corpo abaixo. São as dúvidas de uma criança que nos levam a pensar na vida de outra forma e a questionar as nossas escolhas. Porque será que não nos conseguimos ver a nós mesmos, será que existimos de verdade? Será que tudo não passa de fantasia? E se for? Mesmo que seja tudo imaginado isso não significa que não seja real, pelo menos para nós. No fundo, tudo não passa de uma questão de escolhas.

9/10

Ficha Técnica:

Título Original: Mr. Nobody

Realizador: Jaco Von Dormael

Argumento: Jaco Von Dormael

Elenco: Diane Kruger, Jared Letto, Linh Dan Pham, Sarah Polley

Género: Drama, ficção científica

Duração: 141 minutos