Dredd 3D é um filme injustiçado, por dois motivos. Primeiro, fruto da coincidência, a trama do filme é bastante parecida com a obra de Gareth Evans, The Raid. A produção da fita indonésia decorreu no mesmo período de tempo que Dredd 3D. Segundo, não bastava a personagem de banda desenhada ser pouco conhecida em terras lusas, a campanha de publicidade e de marketing fez um trabalho abaixo do péssimo em divulgar o filme. Está, muito provavelmente, condenado a passar despercebido pelo público português. É uma situação infeliz, porque Dredd 3D é a grande estreia da semana e o melhor filme de ação que o cinema independente britânico nos trouxe.

Estamos numa América destruída por uma guerra nuclear. Os EUA tornaram-se um deserto gigantesco, uma terra maldita (Cursed Earth). Mega-City One, uma distópica e gigantesca cidade, concentra em si o (pouco) que resta da civilização. Com uma população de 400 milhões de habitantes, a cidade é assolada pelo desemprego, pela criminalidade e é governada por um regime totalitário, antidemocrático. O que mantém a precária estabilidade desta metrópole e evita o caos e a anarquia são as suas forças policiais: os Juízes (Judges). Estes são uma espécie de super polícias e o sustentáculo da lei, que concentram em si os poderes de policiar, julgar, condenar e até executar os criminosos no mesmo local.

A história gira à volta de Judge Dredd (Karl Urban), o agente da lei mais importante de Mega-City One. Este é encarregado, contra a sua vontade, de levar uma novata, Cassandra Anderson (Olivia Thirbly), a fazer uma patrulha. Uma simples missão transforma-se numa rusga gigantesca, quando Dredd e a parceira são presos em Peach Trees. Obrigados a lutar pela sobrevivência, têm de abrir caminho pelos 200 andares do mega edifício, recheados de membros do gang de Ma-Ma (Lena Headey), uma impiedosa traficante de Slo-Mo, uma droga que altera a perceção do tempo e cuja distribuição cresce a um nível epidémico.

O principal trunfo do filme é o próprio Judge Dredd. Arriscamo-nos a dizer que é dos melhores heróis de ação alguma vez transpostos para o grande ecrã. Um polícia badass, de um carácter tão forte como implacável, profundamente inflexível e monótono, sem ponta de humor e que leva ao limite a máxima “Dura Lex Sed Lex”. A criação de John Wagner e Carlos Ezquerra oscila entre o heroísmo puro e a sátira negra e pronuncia algumas das melhores one-liners ditas nos filmes de ação. Ditas de forma séria, seca e inexpressiva, tornam-se cómicas pelos contextos em que são proferidas (“Lembrem-se, Ma-Ma não é a lei. Eu sou a lei!”).

Os créditos têm que ser dados a Karl Urban (Star Trek; Tron, o Legado). Judge Dredd é extremamente difícil de representar. Para além da complexa caracterização psicológica, a personagem pressupõe sérias limitações físicas para quem a interpreta. O icónico capacete cobre-lhe a cara toda, só deixando o queixo e a boca à mostra, enquanto a armadura limita-lhe os movimentos. Contudo, o ator neozelandês, recorrendo só à sua voz rouca (a lembrar Clint Eastwood) e a uma linguagem corporal limitada, dá-nos Dredd tal como ele é. É garantido que nunca mais se lembrarão da desastrosa interpretação de Sylvester Stallone em a Lei de Dredd.

Pode parecer difícil de acreditar, mas Dredd 3D foi feito com um orçamento muito baixo – para uma adaptação de BD. E são admiráveis os resultados alcançados. A começar pela Mega-City One. Podemos dizer que o futuro que se prevê aqui é do mais pessimista que há.

Resultado das filmagens em Joanesburgo, África do Sul, e de um exímio trabalho de pós produção, Mega-City One é o derradeiro pesadelo civilizacional pós-apocalíptico. Uma autêntica floresta de betão, sem nenhuma réstia da natureza, com trânsito excessivo, onde um espírito consumista exagerado é notório nos cartazes afixados e nos seus residentes. A arquitetura dos edifícios é excessiva, claustrofóbica e muito desumanizante.

A ação não tem a extravagância e a exuberância da maioria dos blockbusters, inspirados em BD. Mas onde parece haver um ponto fraco, há um dos pontos mais fortes do filme. Apesar de haver partes claramente exageradas, aposta-se mais no realismo, na violência e na mente estratega do anti-herói. Mas o melhor do filme, sem dúvida, são as cenas de Slo-Mo (literalmente). Acreditem, vale a pena pagar mais para o ver em 3D. Dredd pode não vir a ser um grande sucesso financeiro, mas é responsável por trazer as melhores cenas de câmara lenta da história do cinema de ação.

Dredd 3D não se torna um dos melhores do ano por se circunscrever a um filme de ação. Há muito material desaproveitado e muito talento que não brilha como devia. Há temas que não são abordados de maneira mais ambiciosa e há uma gritante falta de aproveitamento do elenco, sobretudo de Lena Headey. Ma-Ma não só é uma vilã pouco desenvolvida, como não tem “tempo de antena” suficiente para provocar alguma reação no público. É de lamentar, porque quem vê a atriz a interpretar a odiosa Cersei Lannister, na série Game of Thrones, tem perfeita noção do potencial que foi desperdiçado.

Esperemos que nas sequelas – cenário deixado em aberto – haja um maior orçamento. Não só dava para colmatar as lacunas deste primeiro episódio, como poderiam competir, mano a mano, com os “gigantes” de Hollywood.

7.7/10

Ficha Técnica:

Titulo Original: Dredd 3d

Realizador: Pete Travis

Argumento: Alex Garland

Elenco: Karl Urban, Olivia Thirbly, Lena Headey, Deobia Oparei, Langley Kirkwood

Género: Ação, Aventura, Ficção Científica

Duração: 95 minutos