Foi com a presença do realizador e dos actores que o mais recente filme de Manoel de Oliveira fez a sua pré-estreia, mais uma a ter lugar em Guimarães, Capital Europeia da Cultura (CEC). No grande auditório do Centro Cultural de Vila Flor (CCVF) ninguém levou a mal o atraso de Oliveira. A sala dedicou-lhe um sentido e prolongado aplauso, misto de admiração e reconhecimento ao já centenário cineasta, o decano dos grandes mestres do cinema.

Dissipadas, com dificuldade, as palmas, Oliveira dirigiu-se à plateia para, com a habitual descontracção e simpatia, retribuir o calor honorífico com que Guimarães o recebera. Homem já tão tarimbado de homenagens, impressiona em Oliveira a sua genuinidade enquanto homem e enquanto ser criativo, que teima em não distinguir.

Peça homónima da autoria de Raúl Brandão, vimaranense adoptivo (sobre quem a CEC já encomendara um documentário), O Gebo e a Sombra é aqui recuperada por Oliveira para o séc. XXI, tendo sido considerada uma obra-prima pelo último Festival de Veneza.

Obra portadora de uma vincada carga questionadora, O Gebo e a Sombra descortina a amoralidade enquanto lema de vida de João, filho de Gebo, por contraste com a honestidade e sentido de dever que alicerçam a vida deste. João, marido de Sofia, optou por caminhos obscuros, pela desonestidade e deslealdade. Por outras palavras, incorpora os imutáveis males do mundo, e é a sombra da sua família. Uma sombra que vem desafiando o sentido do dever de Gebo, e que sem escrúpulos o rouba na primeira oportunidade. João é também filho de Doroteia, a quem Gebo vem escondendo a verdade sobre o seu filho, procurando poupá-la a sofrimentos maiores. A verdade é aqui um veneno, capaz de arruinar toda a esperança de Doroteia, que é afinal o que a mantém viva. Sofia, essa, está vergada a uma intensa espera, restando-lhe o sonho e uma vaga e indefinida esperança.

A peça de Brandão, escrita no início do séc. XX, é frutífera em problemáticas intemporais, e talvez daí o olhar familiar que lhe dedicamos tantas décadas depois. Tal como diz Oliveira, “o filme é um espelho da sociedade actual”, e levanta questões no interior de todos nós: seríamos capazes de nos manter fiéis aos nossos princípios, se surgisse a oportunidade de voltar as circunstâncias da vida a nosso favor, mesmo se tal implicasse sofrimento a terceiros? Esta peça de Raúl Brandão, agora trazida à cena por Oliveira, é uma preciosa denúncia da frivolidade da vida e das relações humanas, da fragilidade da verdade contra a mentira.

Afinal, o dever e a moral existem ou não? Ou serão eles os únicos sustentáculos que permitem e acomodam as abundantes ilicitudes e iniquidades que neste mundo se vão cometendo?

8.0/10

Ficha Técnica:

Título original: O Gebo e a Sombra

Realizado por: Manoel de Oliveira

Argumento: Manoel de Oliveira, a partir da peça de Raúl Brandão

Elenco: Jeanne Moreau, Claudia Cardinale, Michael Lonsdale, Ricardo Trêpa, Leonor Silveira, Luís Miguel Sintra

Género: Drama

Duração: 95 minutos

*Por opção do autor, este artigo foi escrito segundo as normas do Acordo Ortográfico de 1945.