Multiplicam-se os filmes sobre o fim do mundo. De entre os mais recentes, lembremo-nos de Melancolia, 4:44 – Último dia na Terra ou Procurem Abrigo, por exemplo. Até que o Fim do Mundo nos Separe traz ao grande ecrã um registo mais leve, mas não menos poderoso, dos últimos dias no planeta.

Uma comédia dramática que resulta (talvez inesperadamente) da melhor maneira possível, com Steve Carell e Keira Knightley ao comando da acção. O aparente tom descontraído em que tudo se passa, depressa ganha contornos mais sérios e comoventes. Primeiro filme realizado por Lorene Scafaria, Até que o Fim do Mundo nos Separe pretende levar-nos a reflectir sobre temas profundos, mas sem mergulharmos no mais profundo dos dramas.

Um asteróide está em rota de colisão com a Terra e a derradeira tentativa para o evitar falhou. A notícia de que o mundo vai acabar em 21 dias leva a mulher de Dodge a deixá-lo de imediato. Ele é um homem que sempre jogou segundo as regras, enquanto a sua vizinha Penny é uma extrovertida mulher que nunca o fez. Contudo, ambos encaram o iminente fim do mundo de forma diferente dos restantes. Dodge recusa-se a juntar aos seus amigos que se comportam de forma cada vez mais impensada, enquanto Penny se concentra nos problemas da sua relação. A partir de uma carta de Olivia, uma ex-namorada de liceu de Dodge, que Penny lhe entrega, ele percebe que deve ir à sua procura antes que seja tarde demais, enquanto Penny toma a decisão de passar os seus últimos dias com a família, em Inglaterra. Aproveitando a ocasião, Dodge promete ajudar a vizinha a chegar até à sua família, se ela providenciar transporte imediato para os dois no seu carro. Juntos, pela estrada fora, as vidas destes improváveis companheiros vão florescer, ao contrário do que está a acontecer com o mundo. 

Uma abordagem diferente de um tema que começa a tornar-se mais banal do que o esperado, certo é que Até que o Fim do Mundo nos Separe traz uma lufada de ar fresco aos filmes sobre o apocalipse. E não se pense que, por se tratar de uma comédia, não se leva o assunto a sério. O importante aqui não é o como vai acabar – o asteróide é logo anunciado na primeira cena do filme – mas sim tudo o que resta nos últimos 21 dias de vida na terra.

As emoções, tudo o que vai na cabeça de alguém ao saber a data da sua morte – chegando aos extremos que se podem imaginar –, o filme de Lorene Scafaria começa por tratar tudo de forma leve e com muito humor. Depressão, suicídio, comportamentos impensados, pilhagens… O clima de anarquia começa a aumentar, o tempo que resta ao planeta escasseia e, ao mesmo tempo, Até que o Fim do Mundo nos Separe muda um pouco de registo, tornando-se mais sóbrio, mais pesado, nunca chegando a exageros, mas a conseguir tocar-nos no coração. 

O filme obriga-nos à reflexão, mesmo que não o queiramos. É inevitável sermos confrontados com as possibilidades que entram em jogo ao iniciar uma contagem decrescente para o fim do mundo. Há os que não aguentam, os que querem aproveitar a vida como nunca, os que querem reconciliar-se com os outros ou os que não perdem a esperança (exemplo muito interessante da empregada de Dodge). E há decisões que têm de ser tomadas, por muito difíceis que possam ser. Até que o Fim do Mundo nos Separe consegue levar os mais sensíveis (e até alguns dos que não o são) às lágrimas, pela forma comovente como aborda as relações e os últimos momentos na Terra. Há que lutar e fazer por corrigir os erros até ao último dia.

O elenco é comandado por duas caras bem conhecidas: Steve Carell e Keira Knightley. Ambos com boas prestações, o destaque vai para Carell que mostra o bom actor que é, e prova que também está à altura de cenas mais dramáticas. Knightley surge como a excêntrica Penny que nos proporciona momentos muito divertidos. O veterano Martin Sheen, apesar de ter uma curta participação, veste a pele de uma importante personagem nesta história e é sempre um prazer vê-lo. De realçar também é a presença de um “actor” de quatro patas, o cão que Penny e Dodge adoptam, apesar do eminente fim do mundo. 

Uma diferente e tocante reflexão sobre o fim dos tempos e as relações humanas, é o que nos traz Até que o Fim do Mundo nos Separe. Um filme surpreendente, que contrabalança uma divertida primeira parte com uma segunda metade mais profunda, mas de onde a plateia nunca sairá deprimida.

7/10

Ficha Técnica:

Titulo Original: Seeking a Friend for the End of the World

Realizador: Lorene Scafaria         

Argumento: Lorene Scafaria

Elenco: Steve Carell, Keira Knightley, Martin Sheen

Género: Comédia, Drama, Romance

Duração: 101 minutos

Crítica escrita por: Inês Moreira Santos

*Por opção da autora, este artigo foi escrito segundo as normas do Acordo Ortográfico de 1945.