A fila que se foi formando à porta da discoteca Lux na passada noite deixou-nos surpreendidos. Agradavelmente surpreendidos. É certo que Tramp, o disco deste ano editado pela Jigjagwar entrará nas listas dos melhores do ano, mas é verdade que discos assim (e concertos assim) nós achamos sempre que são apenas nossos. Foi, por isso, com algum espanto que nos juntámos na peregrinação até ao bar do Lux onde, num clima de intimidade e felicidade, a doce e bela Sharon Van Etten, pela primeira vez em Portugal, se ligou ao público que a recebeu. O disco é fabuloso, mas ao vivo, tocado por ela e mais uma banda de três elementos, as músicas ganham ainda mais fôlego, porque executadas com precisão e paixão.

Mas também ela ficou espantada. Pela quantidade de gente (a sala estava bem composta), pelo calor humano (público e cantora interagiram frequentemente) e por ninguém ter arredado pé, como notou (como se fosse possível). Muitíssimo bem disposta (“eu costumo ser muito séria”, alertou), distribuiu sorrisos, gargalhadas infantis e uma delicadeza raras, mas também uma potente voz e melodias, na sua essência, plenas de raiva, mas com resultados inegavelmente bonitos.

Foi assim desde o princípio, com All I can. Tema escuro, melancólico, doloroso, mesmo desesperado, mas, como  as maiores canções, que nos permitem viver nelas sem imediatamente nos assustarmos. Continuou na mesma toada com Warsaw e Peace Signs retirada de Epic (2010) que conta como veio à tona após uma grande desilusão de amor. A mesma espessura e densidade em Magic Chords, Serpents (primeiro single do disco e plateia rendida) e na abrasiva I’m wrong.

Em tons diferentes surgiram temas como Leonard, em jeito waltz (rebatizado de Leonardo em honra ao elemento da plateia que veio de Itália); Give Out, soando a western (e já na plateia um “cowboy” tinha soltado alguns “yaaaa’s”);  ou One Day, música mais country pop tocada a pedido de um fã.

No encore, após votação de braço no ar, Sharon Van Etten e Companhia, tocaram uma canção mais rock – In Line, dedicada  a Neil Youg e outra mais “mellow” – Love More, perfeito tema de Epic, que a cantora dedicou ao melhor amigo que esteve ao seu lado nos piores momentos.

São desta matéria feitas as canções de Van Etten: melancolia, veracidade, intimidade, emoção, liberdade, agridoce, por vezes etéreas, perfeitas para ouvir neste início de outono português. Saímos de coração cheio e Sharon Van Etten ficou debruçada no palco a distribuir autógrafos e sorrisos.

Consta que terá sido Kip Malone, cabeça dos TV on The Radio a incentivá-la a escrever canções. Colaborou com Antlers e Bon Iver e abriu concertos de Neko Case e The National. E foi o mano gémeo, Aaron Dessner, que lhe produziu o último disco. Também com ela, anda em tour, a multi-instrumentista Heather Broderick, irmã do igualmente adorável Peter Broderick. Com estes nomes na bandeja, o que esperar?