A recente apresentação conjunta do Plano Nacional de Cinema (PNC) pela Secretaria de Estado da Cultura e pelo Ministério da Educação e Ciência é uma excelente notícia. Antes de mais, é positivo ver que a acção governamental em Portugal é capaz de esforços concertados entre os seus responsáveis e capaz ainda de fornecer à sociedade civil políticas evolutivas, neste caso, entrecruzando as áreas da cultura e da educação.

Seria já previsível que os cortes nestas duas áreas fossem motivo para descredibilizar a medida mesmo antes da sua aplicação prática e, obviamente, antes de quaisquer resultados que dela possam advir poderem ser sujeitos a uma justa avaliação. Mas não se pode nem deve confundir a coisas. O momento delicado que o país vive e a (compreensível) onda de contestação que o assola não devem ser portadores de um espírito crítico injustificadamente cego e parcial.

António Pedro Vansconcelos (APV) teceu, na sua coluna de opinião no Público, críticas duríssimas a esta iniciativa. Li e reli o seu artigo um pouco surpreendido e perplexo. APV não foi construtivo na sua abordagem à questão. Justificou a sua animosidade contra a medida com os cortes de que a produção cinematográfica em Portugal tem sido alvo. Mas os dinheiros que o Estado não quer (não pode) gastar momentaneamente com o cinema não invalidam nem esvaziam a intenção do governo em dotar o percurso escolar do aluno com o contacto com essa forma de expressão artística ímpar que é a sétima arte.

Não quero crer que APV (cito-o como exemplo) ou outros não sejam capazes de olhar imparcialmente para o que está em causa. A falta de formação cultural foi sempre uma grave lacuna do sistema de ensino português. A falta de inculcação de sensibilidade artística e cultural por parte das escolas portugueses é um problema que urge resolver ou, pelo menos, atenuar. Ampliar a formação escolar dos alunos portugueses com filmes marcantes e portadores de mensagens valorativas, intemporais e universais, promovendo-os tanto a si como a própria evolução histórica do cinema enquanto arte é algo de manifestamente positivo e uma medida que só pode merecer o nosso aplauso.

Esta chamada de atenção para esta manifestação que é o cinema afigura-se como fundamental, sobretudo em tempos de incerteza, pautados pela ausência de referências e quadros de valores. As artes e a cultura podem atenuar esta ausência. E este PNC é, mau grado todas as insuficiências que possam surgir, um passo em frente nesse sentido.

Não vejo como uma iniciativa destas possa ser negativa. Não sendo o panorama ideal, não deixa de ser um bocadinho reconfortante saber que apesar da estagnação da produção cinematográfica em Portugal, a promoção e divulgação do cinema não foi colocada na gaveta. Nestas como noutras coisas, é preciso ser sério: é tão importante produzir novos filmes como apostar na promoção da sua riquíssima história, ainda por cima como componente educativa.

*Por opção do autor, este artigo foi escrito segundo as normas do Acordo Ortográfico de 1945.