Em apenas três dias a Baixa do Porto contou com Netsky, Borgore e XXYXX; e com uma manifestação, um Vicious Hip-Hop e um D’Bandada programados para o mesmo dia, o movimento da baixa já prometia a priori, e bastante.

Bem ao jeito do que se viu nos dois primeiros eventos da Optimus, as multidões começavam a concentração bem cedo e nem às cinco da tarde houve quem se livrasse de ficar à porta. Os palcos continuam iguais: delgados e exíguos; e se isso significa maior concentração humana, podemos sublinhar o mesmo no que toca ao som. E que o diga quem esteve no pequeno, mas formoso, Café au Lait, onde os Black Bombaim arrebataram o público com um som progressivo, a pescar influências ao mais produndo do doom, do sludge e do stoner, numa fusão normalmente chamada de psicodélico. Senhoras e senhores, temos música!

 

A matinée continuava no n.º46 das Galerias de Paris, agora com Blac Koyote. Assumindo uma feição electrónica, José Alberto Gomes conseguiu um bom som-ambiente. O público foi-se renovando, mas a sala esteve sempre cheia, um pouco como as Galerias, cujo frenesim dita o compasso de bastantes noites. Sem direito a intervalo, para desgosto de quem ainda estava à porta do Café au Lait chega a vez dos Sensible Soccers, a mais recente revelação da música portuguesa. Numa questão de meses, o grupo cresceu a passos largos no panorama nacional e conheceu palcos maiores. Todo e qualquer som chega-nos misturado, filtrado e adulterado; um minimalismo agradável e melódico. Uma aposta bem justificada, numa banda que colheu fortes aplausos durante e após o concerto.

Desta vez não havia portas, nem lotação ou quaisquer privilégios para as pulseiras. O coreto da Cordoaria, perante um dos locais mais movimentados das noites portuenses – especialmente às quartas -, apresentava às massas os The Poppers. Corria Abril quando os lisboetas fizeram estremecer a Pensão Amor, no Cais do Sodré, e desta vez também não vieram ao Porto fazer a festa por menos. Transpiravam energia, rock n’ roll e palavrões, o público respondia com saltos e aplausos. Em simultâneo, o Salão Veneza, barbearia da Rua de Elísio de Melo, tinha Samuel Úria em destaque. Uma guitarra acústica lá dentro e umas colunas cá fora. O resultado: Samuel parecia estar exposto perante umas duas centenas de curiosos, enquanto tocava e promovia o seu próximo concerto da noite – valeu a pena pela originalidade.

Continuando na senda dos grandes palcos, passámos pelo varandim da Torre dos Clérigos. Com um olho na renovada Praça de Lisboa e outro em Capicua, fomos ouvindo o rap que tem captado mais e mais atenção. O beat era profundo e as letras traziam aquilo em que o hip-hop sempre foi exímio, a luta. Os caps iam gingando ao ritmo do scratch, sim, o man do momento já aqui está. Trouxe Abril e o palco encheu-se de força; Chullage fala com voz de profeta e são muitos os que hoje seguem a sua foice. Cortando as raízes do capitalismo com uma poesia violenta e moendo a troika que nos acorrenta, mobilizou as hostes numa luta cada vez mais constante e crescente.

Por esta altura os Leões albergavam uma multidão que muito dificilmente será avistada nos próximos tempos. De carro qualquer viagem se assemelhava a um inferno na terra, o D’Bandada tinha tornado a baixa casi-exclusivamente pedonal e a noite ia a meio. Vai uma bilharada no Ceuta ou um panike no 77? Claro, e porquê não? O D’Bandada é mesmo isto, é nomadismo, é correr a baixa de lés-a-lés e a fazer da música um almoço em Ayamonte: sai uma rodada de tapas!

Chegamos ao Plano B para ver a última banda do dia antes de embarcar na Gare Porto. Agora é ALTO! certo? Errado, o cartaz engana, no palco estão os gaiatos dos Killimanjaro. E que som têm, com aquele rock que é impossível desdenhar levaram o Plano à mosh, uma atrás da outra, e por aí adiante. A surpresa do dia, apenas por não constarem no cartaz, porque já este verão os Killimanjaro tinham provado que eram capazes de pisar qualquer palco.

Corria a notícia de que já não havia minis no 77 – para os mais incautos, é o local onde se vendem mais minis no país inteiro há três anos consecutivos -, que tipo de hecatombe poderia provocar tamanha catástrofe? O Optimus D’Bandada estava cada vez melhor e só faltava um local: a Gare Porto.

Chegava a hora de dois dos nomes mais aguardados da noite, pelo menos para os sortudos que empunhavam a devida pulseira. Perante uma multidão numa velha garagem do Porto, DJ Ride era o primeiro dos mais esperados. Apoiado no vjying, o scratching de Ride, na sua faceta de Pixel Thrasher, foi o prefácio perfeito para o final de noite. Stereossauro sobe ao palco e estamos perante a dupla campeã do Mundo de scratching. Com a aposta inicial a recair sobre o trap e o hip-hop, com artistas como UZ – nova revelação da internet -, Wacka Flocka Flame e Snoop Dogg, o dubstep chegou a seu tempo, apresentando nomes como Doctor P e Skrillex. Perto do final era o hip-hop português a merecer destaque, e tanto os sons de Valete como os de Sam the Kid geraram grandes ovações. Os Beatbombers passaram um set soberbo e abanaram tanto a garagem que por várias vezes caiu poeira do tecto.

O D’Bandada cresceu e tornou-se mais ambicioso. A aposta em concertos em espaços públicos virou o centro do Porto do avesso, e fez-nos acreditar que esta era mesmo a vertente mais adequada ao conceito do evento. No final da noite não restavam dúvidas, o D’Bandada foi um dos pontos altos do calendário cultural de 2012 e agora só lhe cabe sonhar mais alto para futuras edições.

Reportagem de Francisco Morgado Gomes

Fotos de Luís Costa