No terceiro dia do MOTELx, estiveram em destaque as longas-metragens da Secção Quarto perdido: O Território e O Estado das Coisas, sessão de homenagem a Raoul Ruiz com a presença de Paulo Branco e a grande estreia de Livid de Julien Maury, um dos maiores herdeiros do mestre Dario Argento, convidado para esta edição do festival. Para arrepiar a tarde de sexta-feira foram exibidos Ghost Story of Yotsuya e Revenge: A Love Story, obras da cinematografia asiática.

Revenge: A Love Story – 8.5/10

A maior surpresa do festival até agora surgiu na sessão das 14h30 da sala Manoel de Oliveira. Pouca gente a assistir a uma longa-metragem que merecia casa cheia. O título resume bem o filme a que se assiste: uma vingança, uma história de amor. O filme de Hong Kong, realizado de forma genial por Ching-Po Wong é, provavelmente, um dos melhores deste MOTELx. Revenge: A Love Story, bem ao estilo asiático, oferece-nos uma perturbadora história de vingança, onde, à semelhança de, por exemplo, I Saw the Devil, se poderá ter dúvidas sobre de que lado está o bem (será que ele existe?).

Um assassino em série mata polícias e as suas respetivas mulheres grávidas, com as quais demonstra particular sadismo. Chan Kit é capturado pelas autoridades, mas será mesmo ele quem tem cometido tais crimes? E que motivos poderiam desencadear tal violência? Revenge: A Love Story é filme violento e cruel, onde impera um realismo negro de arrepiar, tendo sido classificado para M/18 em Hong Kong.

Dividido em cinco capítulos a que acresce um capítulo final, tudo nos é contado no devido momento. Um flashback, que acontece por volta da metade do filme, responde-nos a muitas questões e, de repente, tudo faz sentido. Juno Mak encarna (e muito bem) o excelente protagonista desta trama, e foi ele quem deu também a ideia para o argumento, cheio de detalhes muito interessantes, e com um final imprevisível.

Un Jour Sang – 5.5/10

Um homem e uma mulher, cada um na sua casa. O som que ouvimos, contudo, não corresponde às imagens que estamos a ver. Sabemos o que acontecerá entre aquelas duas personagens sem o vermos, apenas escutamos e sentiremos quase como se assistíssemos a tudo. A curta Un Jour Sang tem alguma originalidade nesta combinação som/imagem, mas não deslumbra.

Ghost Story of Yotsuya – 6/10

Dentro da retrospetiva Japão Retro está Ghost Story of Yotsuya, um clássico do cinema de terror japonês, realizado, em 1959, por Nobuo Nakagawa. É um filme que deve ser visto, e pensado, tendo em conta a época em que se insere. Uma história de terror e samurais.

Iemon é um samurai que faz tudo para alcançar o que ambiciona, mesmo que tenha de descer o mais baixo possível, matando, sem remorsos, todos os que se revelarem um obstáculo no seu caminho. Contudo, os fantasmas das suas vítimas vão querer vingança e não o deixarão em paz. Baseado num conto japonês, o amor e traição, a par da vingança estão bem presentes em Ghost Story of Yotsuya.

Não há grandes desempenhos, e poderão haver momentos um pouco hilariantes aos olhos atuais, mas o certo é que este é um filme de grande dimensão se pensarmos na época em que surgiu. A própria caracterização e efeitos especiais conseguem fazer arrepiar. Este sábado conta com mais um filme de Nakagawa, The Living Koheiji, na sala 3, às 14h45.

O Estado das Coisas – 8/10

O filme, realizado por Wim Wenders e produzido por Paulo Branco, é uma das longas-metragens a integrar a secção Quarto Perdido, dedicado aos tesouros de cinema de Género feito em Portugal. Depois de visualizar a obra O Território, o realizador alemão quis utilizar a mesma equipa técnica e o cenário de Sintra para criar uma longa-metragem que documenta e homenageia o filme de Raoul Ruiz.

Estado das Coisas retrata a vida de uma equipa de cinema , que filma The Survivors, um remake do filme de serie B intitulado The Day the World Ended  de Roger Cornam. Mas o repentino desaparecimento do produtor Gordon, desencadeia uma busca incessante liderada pelo realizador Fritz, que desespera por não ter orçamento para terminar o filme.

Este filme é uma autêntica reflexão sobre a sétima arte e a necessidade de criação artística muitas vezes limitada pela falta de recursos. É um filme dentro de um filme que narra a persistência em singrar no mundo cinematográfico. A vida não seria a mesma sem histórias, por isso o sonho resiste às dificuldades. A obra Wim Wenders acabou por ofuscar a sua inspiração, ganhando um Leão de Ouro no Festival de Veneza.

Hoje a não perder no MOTELx Suspiria, a obra-prima do incontornável Dario Argento, que estará presente na sessão, Red Tears de Tsujimoto e Midnight Son, uma nova versão vampírica trazida pela mão de Scott Leberecht, um dos mentores de The Blair Witch Project.

*Artigo de Inês Moreira Santos e Sara Alves