Foi nos passados dias 7 e 8 de Setembro que decorreu o Rock’Art Bairrada 2012, festival que teve lugar em Anadia, cidade da região da Bairrada. Com um cartaz preenchido por bandas portuguesas com nomes como, por exemplo, Memória de Peixe, O Bisonte, More Than A Thousand ou Throes + The Shine, as expectativas de quem por lá estava estavam no topo.

Num ambiente descontraído, iria-se dar início ao festival com as actuações de Devaneio, Asimov e New Kind Of Mambo no palco secundário. Com já algumas horas de atraso, foram os Devaneio que primeiramente subiram ao palco. E subiram para dar um dos piores “concertos” da minha vida. Após o sofrimento, chegaram aos Asimov, duo de rock psicadélico, para rubricarem o concerto do dia no palco secundário. Sempre coesos, com riffs desconcertantes, foram conseguindo captar pouco a pouco a atenção do público, que se estava a demonstrar um pouco pacato até à altura. A missão de fechar o palco secundário no primeiro dia do festival calhou aos New Kind Of Mambo, que o fizeram sempre acartando a herança do Rock’N’Roll às costas, num som potente e bem trabalhado.

Após algumas horas de interrupção, a festa voltaria para nos mostrar o que se iria passar pelo palco principal. A curiosidade em ver todos os nomes era muita, mas incrementava quando se falava, essencialmente, em Memória de Peixe e Throes + The Shine.

Os primeiros a subir ao palco seriam os agradáveis e simpáticos Nice Weather For Ducks, banda vinda de Leiria. Com o seu indie rock enérgico a emergir da sua panóplia instrumental, acabaram por nos tocar temas de Quack, o primeiro longa-duração da banda. Com um público algo interventivo, sempre a dançar ao som dos Ducks, o clímax do concerto deu-se com 2012, a faixa que serviu de desenlace ao concerto.

Seguidamente, chegavam os The Poppers, banda que muito recentemente abriu o concerto de Jack White. Empolgantes e vibrantes, acabaram por incendiar os ânimos da bairrada ao entoar clássicos como Psycho Killer, dos Talking Heads, e My Generation, dos The Who, que acabaram por ser parafraseados em coro pelo público. Num concerto reinado pela boa disposição, houve ainda tempo para um elemento do público subir ao palco para “dar umas guitarradas”, a pedido de Luís Raimundo, o vocalista da banda. Por coincidência (é preferível pensar assim), esse elemento era o guitarrista dos Asimov, banda que tinha tocado durante a tarde no palco secundário. E no fim de contas, os The Poppers deram-nos um belíssimo concerto, dando um excelente presságio para o resto da noite.

Noite que continuaria recheada de boa música: seguiam-se os tão aguardados Memória de Peixe. Os Memória de Peixe são um dos projectos mais interessantes que surgiram nos últimos anos da música portuguesa, primando pela sua originalidade e por alguma inovação. A sua indie pop meio “rockada” confere uma paisagem vívida e concitante à sua sonoridade, fruto de loops de curta-duração que são constantemente aguçados pelas batidas fervilhantes de Oliveira, o baterista da banda. O concerto iniciou-se com temas como 7/4 ou Estrela Morena, desaguando na pujança e brio de Indie Anna Jones, a faixa mais forte e electrizante do registo homónimo da banda. O concerto tinha conseguido pôr toda a gente a mexer, dada a vertente “dançável” dos Memória de Peixe, e parecia ainda muito cedo quando Miguel Nicolau nos anuncia que vão tocar a sua última música. Tocam-nos Fishtank e acabam por rubricar aquilo que era a expectativa do ser que está a escrever isto para o Rock’Art Bairrada 2012: os Memória de Peixe rubricaram o melhor concerto do primeiro dia de festival.

Após o grande concerto da dupla composta por Miguel Nicolau e Nuno Oliveira, chegava ao palco principal toda a vivacidade dos Throes + The Shine. A banda que produz um som absolutamente único (pois, devem ser a única banda do mundo a mesclar o rock e o kuduro), chegou ao palco já com um público cheio de vontade de dançar e de se mexer. Num ambiente reinado pela festa, os The Shine parafraseavam constantemente “Hoje é festa, vamos dançar!”, e o pedido foi imediatamente correspondido, com toda a gente a menear-se incessantemente ao ritmo da batida corrosiva dos Throes e do kuduro multifacetado dos The Shine. Foram claramente a banda que mais conquistou o público e isso era bastante notório pela forma efusiva como o este cantava e dançava as suas músicas. Houve tempo ainda para Batida, a música mais conhecida do grande público, e para os The Shine se despedaçarem em elogios ao público, dada a festa que se estava a fazer: os copos de cerveja saltitavam, inundando o recinto (sim, estou a ser hiperbólico), demonstrando que viver e participar desalmadamente naquela (grande) festa valia muito mais do que um euro de cerveja. Qual desperdício qual quê. Após um concerto vibrante e que “partiu com tudo”, chegava a hora dos Throes + The Shine nos dizerem adeus. Um adeus que tanto custou.

A festa prosseguia ao som de Meneo, e daqui pouco existe para relatar. Pouco mesmo. Quem viu diz que gostou do arrojo que o músico fazia através do seu Game-Boy Colour, e, bem, estranhamente dançou-se bastante. Preciosismos à parte, a festa voltava na noite seguinte, já que tinha acabado de manhã, ao som de O Bisonte, More Than A Thousand, entre outros. Por esta altura era hora de revitalizar o corpo e, essencialmente, a mente.

*Este artigo foi escrito ao abrigo do acordo ortográfico de 1945