O MOTELx regressou para pôr a capital a tremer com os seus mais de 60 filmes, entre longas e curtas metragens. Esta quarta-feira, o dia de abertura, o festival não poupou ninguém: [REC]3: Genesis fez as honras da casa. The Raid: Redemption, Urban Explorer, The Butterfly Room, Crawl, Vampire, The King of Pigs, Deep Red (do convidado de honra Dario Argento) e Excision marcaram igualmente presença neste primeiro dia no Cinema São Jorge.

Vampire – 7/10

Na sala 3, a tarde começou animada com Crawl, que merecerá análise nos próximos dias. Seguidamente, a co-produção Japão/Canadá Vampire trouxe consigo uma nova perspectiva de filmes de vampiros, longe dos dentes afiados que habitualmente se associa ao género. Um realizador japonês à frente de um elenco americano resulta numa fusão de qualidade. A sensibilidade japonesa aliada a um ou outro estereótipo mais americanizado, mas com uma aura muito própria.

Simon é um jovem professor de biologia de liceu, dedicado a cuidar da mãe doente. Aparenta ser como qualquer outro rapaz da sua idade, contudo, as jovens suicidas que conhece online, em fóruns e salas de chat, são a chave para saciar a sua sede de sangue.

Shunji Iwai é o realizador, aclamado por filmes como Love Letter ou All About Lily Chou Chou, que pega num ícone clássico do género de terror e aborda-o de forma mais profunda. O vampiro Simon é encarnado pelo canadiano Kevin Zegers (um dos protagonistas de Frozen, no MOTELx 2011), que nos oferece aqui uma prestação superior ao filme da última edição, onde, inesperadamente, criamos uma espécie de empatia com o protagonista. A banda sonora, sempre presente, também da autoria do realizador, assim como a fotografia, são outros pontos fortes de Vampire. Uma óptima surpresa na primeira tarde de festival.

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[REC]3: Genesis – 8/10

[REC]3: Genesis, o terceiro filme da saga REC, realizado por Paco Plaza, foi a longa-metragem escolhida para abrir a 6ª edição do MOTELx. Na sessão de abertura estiveram presentes os membros do júri Paulo Furtado e Filipe MeloJerónimo Rocha da empresa Take it Easy, que falou em nome da equipa sobre a curta-metragem de apresentação do festival e o representante da EGEAC e da Câmara Municipal de Lisboa, os principais parceiros do festival.

O terceiro filme de REC continua a surpreender pela positiva. Neste caso o cenário é outro, mas os arrepios ainda se sentem à flor da pele. O público é convidado a acompanhar as festividades de um casamento espanhol muito tradicional. Os noivos Koldo e Clara celebram o seu matrimónio numa cerimónia religiosa e toda a sua família está presente. Mas como sempre a felicidade não dura por muito tempo. No copo de água, um vírus começa a infectar os convidados, que se transformam em zombies sedentos de sangue. Se não fosse pelo tio, talvez a festa tivesse acabado em beleza.

É de louvar a mestria do realizador Paco Plaza, que volta com um novo REC estruturado com grande astúcia. O toque cómico e sugestivo que continuamente assalta a história contrasta com o desenvolvimento sangrento e explícito de algumas cenas. A introdução bem doseada de clichés relativos à cultura espanhola, atribuem um tom mais humorístico e descontraído, ao mesmo tempo que aproximam o público às personagens da trama.

Outro fator de grande inteligência foi a alusão ao livro do Génesis, que inclusive dá título à longa-metragem. Observa-se as permanentes referências bíblicas, às passagens do antigo testamento, à figura heróica do guerreiro S. Jorge, interpretado por Koldo, e aos demónios ou zombies, que são as almas dementes condenadas ao exílio do inferno por terem negado a luz divina. O padre é, mais uma vez, nomeado para a posição de exorcista, que anuncia a danação do mundo, e através da palavra de Deus consegue paralisar os zombies que matam em nome do espírito maligno.

Em certos momentos também se deteta alguma inspiração proveniente de contos infantis na imagem de Koldo e Clara , o cavaleiro de espada em punho que tenta salvar a princesa vestida de branco, neste caso não tão indefesa como nas histórias. Até podemos ir mais longe na análise e encontrar as personagens da literatura espanhola como D. Quixote e Sancho Pança refletidas no noivo Koldo e no seu fiel amigo Atún, que se vestem com armaduras antigas para combater o mal.

O principal motor deste filme é a constante passagem de planos subjetivos a planos gerais e distantes. Estas mudanças repentinas que transportam o espectador para o interior e exterior da cena, tornam esta longa-metragem muito interessante e particular. Por vezes, o olhar do espectador imiscui-se com a objetiva da câmara, tornando-se uma personagem que participa na ação da história. Por outro, a câmara desliga-se e o espectador volta à sua posição de observador contemplativo, afastado da ação e incapaz de colaborar na história.

Os momentos de tensão são construídos através dos cenários bizarros como os túneis de esgoto e as florestas, os efeitos de luz, em que as sombras e os contrastes luminosos têm um grande papel para o suspense e, claro, o efeito surpresa em que o pânico se instala ao surgirem zombies de todas as esquinas. Obviamente a parte sangrenta ao estilo gore não poderia faltar na reta final, de modo a justificar o build up bem produzido durante o filme. Uma conclusão épica, quase ao estilo de Kill Bill, em que a mulher vingadora surge como uma máquina de matar. Quem está à espera de um final feliz não se iluda, nem sempre os casamentos acabam bem e este aqui não foi exceção.

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Para hoje, quinta-feira, destaque para o tailandês Laddaland, Red State, Sleep Tight ou The Tall Man, entre muitos outros títulos.

*Artigo de Inês Moreira Santos e Sara Alves