Após um período de pausa de cerca de 4 meses, o Gira o Disco está hoje de regresso com o prazer de homenagear o legado de mais um influente vulto na história da música mundial, uma das bandas mais emblemáticas do movimento pós-punk: os Joy Division.

Algo curioso e notável, sobretudo para os aficcionados do vanguardismo musical do séc. XX, é o facto de tudo ter começado depois de um concerto dos Sex Pistols. Foi lá que Ian Curtis, um rapaz tímido e um notável fã da cena punk emergente e de músicos como David Bowie e Iggy Pop, conheceu Bernard SummerPeter Hook e Terry Mason. Estes três eram amigos de infância.

Após rumarem ao extinto Free Trade Hall, a 20 de Julho de 1976, para assistirem ao 2º concerto da banda punk londrina, Summer e Hook reconheceram o facto de ela “arrasar com o mito de um músico ter de ser um ícone pop e uma espécie de deus que tem de ser adorado”, e acharam isso fabuloso. Fortemente inspirados pelo espectáculo dos Pistols, os dois decidiram formar uma banda com Terry Mason. Com Summer na guitarra, Hook no baixo e Mason na bateria, já só faltava alguém para vocalista. Embora inicialmente tenham convidado Martin Gretsy, colega de escola, para o lugar em falta, foi depois da resposta de Ian Curtis a um anúncio colocado na Virgin Records que a banda passa pela 1ª vez a completa. Gretsy havia recusado o convite.

Ian Curtis, líder e vocalista dos Joy Division

Nasce então a banda em 1976 em Manchester, embora não ainda sob o nome de Joy Division. Até achar um nome definitivo, o conjunto adoptou dois títulos que acabaram por ser temporários. Logo de início era conhecido, por um breve período de tempo, por Stiff Kittens, nome sugerido a Curtis pelo manager dos Buzzcocks, sendo que foi por este título que a banda foi contratada para o seu 1º concerto e pelo qual foi denominada nos cartazes que anunciavam o espectáculo, ainda que sem o seu consentimento. Na verdade, o conjunto odiava a denominação por achar que suava a um nome de apenas mais uma banda punk vulgar. Quando subiram ao palco apresentaram-se ao público como Warsaw, deitando por terra a ideia de alguma vez terem usado o nome Stiff Kittens. Sendo assim, o 1º nome oficial do grupo foi Warsaw, título inspirado no tema Warszawa de David Bowie. Porém, pelo facto de na época existir uma banda punk britânica chamada Warsaw Pakt, decidiram mudar o nome pela última vez, passando definitivamente a Joy Division, uma alusão ao livro The House Of Dolls de Karol Cetinsky. Na narrativa, era o nome de uma casa onde as mulheres judias eram mantidas prisioneiras e oferecidas sexualmente aos oficiais nazis durante a 2ª guerra mundial.

A banda sofreu desde cedo várias mudanças na sua formação até à definitiva e aquela que cravou o seu nome na história da música mundial. Gozando de uma prematura exposição global quando críticas ao 1º concerto, ocorrido a 22 de Maio de 1977, foram escritos e publicados pela revista britânica NME, na noite da actuação Tabac Tony toma a posição de baterista do grupo depois de dois dias antes ter-se juntado a ele, sendo que Mason tinha passado a manager. Em Junho do mesmo ano, Tony deixa a banda e é substituído por Steve Brotherdale. Ainda que o seu estilo na bateria fosse apreciado pelo grupo, Brotherdale nunca cultivou uma boa relação com os restantes membros devido à  sua personalidade problemática e agressiva, provocando uma inclusão na banda de apenas 2 meses e levando à sua rápida expulsão. É imediatamente substituído por Stephen Morris, um moço excêntrico que havia sido já colega de escola de CurtisMorris passa a baterista do grupo, na altura ainda existindo como Warsaw, após ter sido o único correspondente a um anúncio colocado numa loja de música em Manchester, o que acabou por se revelar favorável para a banda, pois finalmente passaria a gozar de uma formação estável e duradoura, aquela que conduziria o grupo à boca do mundo.

Joy Division em concerto. Da esquerda para a direita: Bernard Summer (guitarra), Ian Curtis (voz), Stephen Morris (bateria) e Peter Hook (baixo)

Já sob o nome de Joy Division, seguiu-se um ano marcado por concertos e estreias que fizeram com que a banda começasse a cultivar um sentimento de devoção à sua volta. Não demorou muito até isso acontecer. Mantendo-se fiel ao espírito e ao coração das suas raízes, o grupo saiu-se feliz na criação de um contorno que lhe possibilitou alcançar a vanguarda do movimento pós-punk, que assim crescia a passos largos. Aliás, o precoce sucesso dos Joy Division adivinhava um pioneirismo na disseminação desse estilo musical proveniente da explosão do punk rock.

Embora no início a banda se enquadrasse um pouco distante do pós-punk que a notabilizou com um primeiro trabalho de estúdio mais direccionado para o punk rock, depressa acaba por desenvolver uma sonoridade diferente. Os Joy Division estreiam-se em estúdio em Junho de 1978 com o lançamento do EP An Ideal For Living, uma obra bem recebida mas controversa devido a suspeitas da banda se inspirar no fascismo. A escolha da ilustração de um membro da Juventude Hitleriana a tocar tambor acompanhada da explicação da origem do nome da banda como capa não foi vista com bons olhos e chegou para causar polémica. Contudo, a importância dada ao assunto por parte do grupo não pareceu ser muita e, em vez disso, continuava empenhada na divulgação da sua música.

Capa de An Ideal For Living (1978)

Em Setembro do mesmo ano, o conjunto faz a sua 1ª aparição televisiva no noticiário Granada Reports da ITV e pouco tempo depois assinam contrato com a gravadora independente Factory Records, responsável pelos maiores êxitos da banda e onde gravariam os seus dois álbuns.  Muito por influência do recém-contratado produtor Martin Hannett, é por esta altura que começam a surgir novidades no género sonoro do grupo: a introdução de sons e efeitos electrónicos nas suas músicas, sendo o resultado uma mistura do som frenético das guitarras eléctricas e da bateria com o som electrizante da caixa de ritmos e do sintetizador. Uma inovadora sonoridade experimental, o promissor pós-punk dos Joy Division que, embora no início tenha desgostado os ouvidos de Summer e Hook, contou desde logo com a aprovação de Curtis. Nada mais era do que a reprodução de uma sonoridade electrónica de tal modo feliz ao ponto de hoje a banda ser tida como uma referência da new wave da 1ª metade da década de 80.

Pouco tempo depois ainda no mesmo ano, a 27 de Dezembro de 1978, Curtis sofre o seu 1º ataque epiléptico, pelo menos tornado público, quando regressava a casa depois de um concerto no bar londrino Hope and Anchor e é levado para o hospital.

Após o lançamento de A Factory Sample, uma colectânea da editora de onde saíram os sucessos Digital e Glass, os Joy Division lançam o seu álbum de estreia, Unknown Pleasures, em Abril de 1979. Primeiramente alvo de grande tumulto  no ceio do público e da crítica devido ao seu registo sonoro algo sombrio e às letras intimistas, é deste disco que saem as célebres ShadowplayDisorder e She’s Lost Control.

httpv://www.youtube.com/watch?v=fhCLalLXHP4

Disorder, de Unknown Pleasures (1979)

httpv://www.youtube.com/watch?v=7PtvIr2oiaE

She’s Lost Control, de Unknown Pleasures (1979)

No mesmo ano, os Joy Division estampam a capa da edição de 11 Agosto da revista New Musical Express (NME), seguindo o percurso de nomes seus compatriotas como Sex PistolsSiouxie and the Banshees The Clash, que já tinham também sido capa de edições anteriores. Mais tarde, em Novembro, a banda lança o seu 1º single, Transmission, tema mundialmente popularizado após a actuação da banda no programa de televisão Something Else da BBC2 na emissão de 15 de Setembro.

Joy Division na capa da NME (11 de Agosto de 1979)

httpv://www.youtube.com/watch?v=rYaN2w6rcgk

Transmission (1979)

No ano de 1980 começam a surgir os problemas de Ian Curtis associados à sua vida pessoal, o agravamento da saúde do músico com a complicação da sua epilepsia e o divórcio conturbado da sua esposa. Problemas que terão tido forte influência para o seu posterior desaparecimento.

Em Abril do mesmo ano, os Joy Division lançam os singles Komakino, um trabalho limitado a 1000 cópias e distribuído em algumas lojas de discos locais, e Love Will Tear Us Apart, um single cuja letra aborda claramente os problemas conjugais de Curtis com a sua esposa e os motivos que terão conduzido ao seu súbito suicídio.

httpv://www.youtube.com/watch?v=qHYOXyy1ToI

Love Will Tear Us Apart (1980)

O último concerto da banda aconteceria no dia 2 de Maio na Universidade de Birmingham, actuação que contou com a 1ª e última performance do tema Ceremony, pelos Joy Division. Uma curiosidade notável para os mais interessados é o facto da última música a ser tocada ter sido a Digital, tema originalmente lançado em 1981 no disco de compilações Still.

A 18 de Maio de 1980, Ian Curtis comete suicídio. O líder e vocalista dos Joy Division morre enforcado dias antes do início da digressão da banda pelos Estados Unidos. Variadas são as especulações e teorias em torno das verdadeiras razões que terão levado ao desaparecimento prematuro do músico, em muito alimentadas pelos seus pontos de vista e preferências pessoais.

Em Julho, postumamente à morte Ian Curtis, a banda  lança o seu 2º álbum de estúdio, Closer,  de onde saem êxitos como a Isolation e a Heart And Soul. Um disco gravado sobre uma abóbada de estuque composta exclusivamente com o objectivo de atingir a ressonância de uma capela é hoje considerado um dos mais importantes álbuns do movimento pós-punk. Em Setembro são também lançados os singles Atmosphere e She’s Lost Control, este último relançado num registo mais ritmado.

httpv://www.youtube.com/watch?v=-bkcPS3GHQY

Isolation, de Closer (1980)

Em 2007, o Festival de Cannes estreia Control, um filme britânico dirigido por Anton Corbijn e protagonizado por Sam Riley, que conta a história de Curtis e o percurso para o sucesso dos Joy Division.

A forte influência do grupo no rock mundial é hoje uma realidade inegável. O inconfundível estilo musical dos Joy Division, a voz soturna de Ian Curtis acompanhada do instrumental sombrio e das composições algo intimistas, é bastante reconhecido e apesar da sua curta carreira, a banda revela-se hoje uma fonte de inspiração de grande alcance. John Bush do Allmusic, um site de música online, afirmou que “os Joy Division tornaram-se a 1ª banda do movimento pós-punk por enfatizar não a raiva e energia, mas sim o humor e a expressão, abrindo caminho para a ascensão da música alternativa melancólica nos anos 80“. Prova desse importante legado são bandas actuais altamente bem sucedidas na cena alternativa como Bauhaus, Interpol, Red Hot Chili Peppers ou Bloc Party.