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Ruby com algumas faíscas

Jonathan Dayton e Valerie Faris passaram da MTV para os vídeos e documentários musicais e, depois de fundarem a Bob Industries, dedicaram-se a anúncios publicitários ao mesmo tempo que produziam  longas-metragens. Em 2006, realizaram Little Miss Sunshine (Uma Família à Beira de um Ataque de Nervos), uma fabulosa comédia vencedora de dois Óscares. Assim sendo, não é de estranhar que as expectativas envolvendo esta segunda longa-metragem do casal norte-americano fossem altas.

Ruby Sparks, título original traduzido para Ruby Sparks – Uma Mulher de Sonho (o problema das traduções pouco felizes), centra-se na história de Calvin, escritor que enfrenta as amarguras do bloqueio criativo e dá vida, literalmente, a uma personagem feminina que se apaixona por ele, Ruby Sparks.

No que diz respeito à interpretação, Paul Dano (o adolescente de Little Miss Sunshine) é Calvin, o escritor com necessidade de crescer a nível emocional e que vai vivendo à boleia do seu único e bem sucedido livro, lançado anos atrás.  Zoe Kazan dá vida a Ruby Sparks, para além de ser da sua autoria o argumento. Surge sob a forma de uma indie girl ruiva e de expressivos olhos azuis, num estilo semelhante a, por exemplo, Zooey Deschanel como Summer em 500 Days of Summer.  Zoe tem por isso um duplo papel de responsabilidade: além de interpretar (e bem) a personagem, traz-nos diálogos bem escritos, com passagens bem sucedidas da comédia ao drama e coerência ao longo de todo o filme. Ruby é em tudo perfeita – 26 anos, pintora (ou aspirante a), sexy, divertida e emocionalmente disponível. O que a torna perfeita é essencialmente um facto: ter sido criada por Calvin.

Apesar de partir desta premissa, Ruby Sparks afasta-se do rumo previsível que poderia tomar,  à medida que as divergências entre Calvin e Ruby surgem, quando têm que lidar com assuntos reais e com particularidades das relações amorosas; aí ele usa o poder que tem sob a sua criação para mudá-la conforme os seus desejos. É nesse momento que o tom de comédia (hilariante a cena em que Ruby aparece out of thin air e também quando Harry, irmão de Calvin, a conhece) se desvanece dando lugar a um estilo mais dramático, à medida que a situação começa a escapar ao controlo do escritor.

Essencialmente, Ruby Sparks procura mostrar-nos o poder da imaginação e a capacidade de criação mas também tenta passar a ideia de que a essência do amor não reside nos interesses em comum mas sim em aceitar o outro como ele é, aprendendo a gostar dos seus defeitos – e já o próprio psiquiatra de Calvin lhe havia dito isto, usando o cão como metáfora. O filme procura explorar certos pontos concretos das relações amorosas tais como o controlo que uma pessoa detém sobre a outra e as repentinas mudanças de humor.

E o que torna o  filme bom são também são as pequenas ‘faíscas’ que fazem a diferença, traços de criatividade que culminam num final doce, em que ficção e realidade se misturam.

7.5/10

Ficha Técnica:

Titulo Original: Ruby Sparks

Realizador: Jonathan Dayton e Valerie Faris

Argumento: Zoe Kazan

Elenco: Paul Dano, Zoe Kazan, Chris Messina, Annette Bening, Antonio Banderas

Género: Comédia, Romance

Duração: 104 minutos

*Por opção da autora, este artigo foi escrito segundo as normas do Acordo Ortográfico de 1945.

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