Se a noite já estava mais quente do que havia sido usual nos últimos dias, era porque adivinhava já o que se ia passar das nove à meia-noite, ali, em Lisboa, no Coliseu dos Recreios.
Membros do staff, todos vestidos de preto, exceptuando suspensórios e gravata azuis,  ainda pulavam aqui e a ali, a afinar instrumentos, a calibrar holofotes ou a puxar o lustre às guitarras, e já se conseguia sentir a tensão. Calor, maioritariamente, alguns nervos, ansiedade q.b., também. No fim, Jack White, e a sua banda masculina, tinha à sua frente uma Lisboa completamente encostada às cordas, a escorrer suor. Se o sorriso aberto de White no fim do concerto significa que ficou satisfeito com a nossa prestação enquanto público, as cicatrizes de guerra que o concerto deixou, tanto corporais como espirituais, também são uma demonstração da mais plena e sofrida satisfação.

As duas primeiras canções – faziam-se apostas sobre qual seria a primeira, se uma ou outra – são o contraste mais patente (talvez propositado) daquilo que o Jack já fez, mas é fantástico como Dead Leaves and the Dirty Ground e Sixteen Saltines acabam por se dissolver na homogeneidade que White consegue dar às canções agora que as toca ao vivo, com uma banda adaptada às canções do seu álbum em nome próprio.

Para a sua visita a Portugal depois uma passagem por cá em 2007, com os The White Stripes, Jack trouxe o seu novo esquema de cores, preto e azul, onde até os apliques dos microfones têm que ser dessas cores, e os The Buzzards, nome dado à sua banda masculina. Destacam-se Daru Jones, selvagem e incansável, na bateria – que está à direita de White e não renegada para o fundo do palco – e Isaiah “Ikey” Owens, mais conhecido pelo seu trabalho nos The Mars Volta, nas teclas, com uns maneirismos muito singulares a lembrar o Ray Charles, paz à sua alma.

Como já é costume, apesar de a maior parte do alinhamento já estar bem assente, setlist não existe. Todo aquele concerto foi uma locomotiva sem travões. O primeiro coro da noite aconteceu durante a country-esca Hotel Yorba, seguindo-se Love Interruption, o melodramático primeiro single de Blunderbuss. A partir daí não houve como parar. Desdobrando-se entre as canções de Blunderbuss e as dos seus outros projectos, Top Yourself dos The Raconteurs e Cut Like a Buffalo dos The Dead Weather, sentando-se ao piano para Weep Themselves to Sleep e I Guess I Should Go To Sleep, entre improvisos e desvios, curvas e contra-curvas, nada nem ninguém se perdeu durante momento que fosse. Misturou a Cannon, das mais velhinhas dos The White Stripes, com uma versão mutante de Ball and Biscuit e fez frente (costas-com-costas) ao seu teclista, em Trash Tongue Talker.

Veio a inevitável We’re Going To Be Friends, para acalmar as hostes e devolver algum fôlego ao público, a canção que mais agridoce de todas, porque deixa muitas saudades da desaparecida Meg White. A primeira parte do concerto acabou com mais duas dos Stripes: Same Boy You’ve Always Known e Hardest Button to Button, esta última muito mais cheia de pujança e de dinâmica, porque, queiramos ou não, há vida para além de Meg.

O palco ficou vazio mas as luzes não se apagaram, a música ambiente não tocou e a melodia da Seven Nation Army começou a ser entoada por todo o público, como chamamento. Eventualmente, White voltou. Ele, que tinha entrado de casaco e passado para camisa negra de gola para cima, vinha agora de t-shirt. Cá se fazem, cá se pagam.

Depois de Steady, As She Goes, Freedom At 21 e Blue Blood Blues chegou, imponente, Seven Nation Army e foi aí que se sentiu em pleno a força de um Coliseu dos Recreios ensandecido por um Jack White mestre de cerimónias – houve crowdsurfing e ouvi relatos de um mosh-pit. Saiu sorridente e de mão no peito, em leves vénias. Ele que volte com quem vier, nas cores que quiser, mas que não demore mais cinco anos.

Fotografias: Jo McCaughey.