Desafio Total é um filme de Len Wiseman baseado no conto We Can Remember It for You Wholesale de Phillip K. Dick – autor de outras famosas obras de ficção científica tais como Minority Report ou Blade Runner. Esta é ainda a segunda adaptação cinematográfica da obra – a primeira, em 1990, teve Arnold Schwarzenegger e Sharon Stone como protagonistas.

A história passa-se no ano de 2084 altura em que a Terra – em virtude de um desastre químico – é apenas ocupada em duas regiões: Federação da Bretanha e Colónia (entenda-se por Austrália). Esta última vive em conflito com a outra e tem procurado independência através da organização de um movimento de resistência comandado por Mathias.

No ponto central da trama temos um aparentemente simples operário, Douglas Quaid, casado com Lori, mas que leva uma vida muito rotineira. Nos últimos tempos tem tido um sonho recorrente em que é um espião cuja missão parece muito importante, contudo não consegue perceber o significado do seu sonho. Atraído por um anúncio, recorre a uma agência chamada Recall que tem como objetivo implantar memórias que as pessoas gostariam de ter vivido ou seja: oferece experiências reais, ainda que apenas passadas na mente. Quaid vê isso como a solução de fuga à rotina, só que – quando está prestes a concluir o procedimento – algo corre mal e descobre que é um espião de verdade, cuja memória foi adulterada por razões que desconhece.

Este remake de um já clássico da ficção científica foi uma aposta arriscada. Se o original já foi um sucesso, Wiseman teria de oferecer uma abordagem completamente diferente e ao mesmo tempo fiel (q.b.) e convicente do filme. Afinal não se podia esperar mais do mesmo, ainda que o mesmo já fosse bom. Mas também não era preciso exagerar.

Se há coisa que não consigo esquecer do filme original são as expressões de Schwarzenegger: aquele revirar de olhos quando tirou o chip identificador pelo nariz foi algo que simplesmente me ficou na memória. Para não falar na mulher dos três seios que, neste filme, – um pouco como gratificação ao fãs do original- também foi incluída. De resto é das poucas semelhanças que as duas películas têm.

No que concerne à história, apesar de em geral ser a mesma, existem alguns (muitos) aspetos que foram mudados principalmente nas personagens, para além de neste filme não existir Marte nem Ets. Ao invés, temos robôs e naves espaciais. E é precisamente nos cenários e nos efeitos especiais que a diferença mais se nota e que faz valer o remake. Desde ambientes bem ao estilo de Star Wars, elevadores supersónicos, até transportes sem gravidade, tudo está perfeitamente conectado e credível (falo apenas do cenário entenda-se). Também as cenas de luta e perseguição estão muito bem orquestradas com a banda sonora – uma parceria bem conseguida dos gauleses Hybrid e Harry Gregson-Williams.

Colin Farrell é o protagonista, mas sinceramente, como herói não me convence, prefiro vê-lo em papéis de vilão, penso que lhe assentam bem melhor. Embora nenhuma das interpretações me tenha fascinado, fiquei agradavelmente surpreendida com Kate Beckinsale – a vilã Lori – que é uma das mudanças em relação ao guião original: neste filme recebe um destaque muito maior ao assumir o papel de principal antagonista da história. Já Jessica Biel passa(-me) despercebida, aliás como sempre. Tenho pena é que não tenham aproveitado mais o ator Bill Nighy que nem dez minutos de destaque teve.

E porque um remake não tem de ser fiel ao primeiro temos de relevar as mudanças (para pior) feitas relativamente ao original. Contudo – e a par da boa realização de Wiseman – o argumento podia ter acompanhado um pouco mais: se não soubesse a história original consideraria a trama um pouco confusa e com alguma lacunas de lógica e seguimento narrativo. E, sinceramente, aquelas tiradas filosóficas de Farrell nem são passíveis de ser comentadas.

Para mim faltou um pouco de consistência na história e força interpretativa do protagonista. Um pouco de humor ao estilo do primeiro também teria ajudado. Na realidade, se o roteiro seguisse mais o original e apenas mudasse o cenário e a tecnologia usada, poderia ter resultado bastante melhor, ainda assim vale – como já referi – pelos aspetos técnicos e efeitos visuais.

Enfim sempre que no futuro ouvir o nome Total Recall vou-me lembrar do original e dos olhos de Schwarzenegger a saltarem-lhe das órbitas, enquanto ficava sem ar no solo poroso de Marte. Vá, e talvez também me lembre da cena dos elevadores supersónicos. Mas só talvez.

7/10

Ficha Técnica:

Título Original: Total Recall

Realização: Len Wiseman

Argumento: Kurt Wimmer, Mark Bomback

Elenco: Colin Farrell, Kate Beckinsale, Jessica Biel, Bill Nighy, Bryan Cranston

Género: Ficção Científica

Duração: 118 min