Em 2003, teve início uma das séries adolescentes de maior sucesso feitas na televisão portuguesa. Nove anos passados, houve a vontade de a transpor para o cinema e assim surge Morangos com Açúcar – O Filme. Por um lado, a longa-metragem poderia vir a compensar o declínio de qualidade que a série televisiva veio a desenvolver nos últimos anos, com a recuperação dos actores que marcaram as primeiras temporadas, trazendo uma espécie de nostalgia e alguma originalidade ao grande ecrã; por outro, o resultado poderia ser, nada mais, nada menos, que mais um banal episódio, só que, desta vez, visto numa sala de cinema. Infelizmente, a segunda opção é que vingou.

Inspirada pela brasileira Malhação, a série portuguesa começou por seguir o mesmo formato: o dia a dia de uma escola e seus alunos, as suas relações e famílias. Temporadas depois, o formato alterou-se para uma espécie de Glee à portuguesa onde a componente artística ganhou maior relevo. O certo é que a qualidade dos actores foi decrescendo à medida que o tempo passou e longe ficaram os famosos Pipo e Joana, que marcaram a adolescência dos actuais jovens adultos que acompanharam as suas aventuras.

Exclusivamente habituado à realização televisiva, Hugo de Sousa é o realizador deste Morangos com Açúcar – O Filme, que poderia, realmente ser o episódio derradeiro da série… na televisão. Como filme, muito falta para chegar ao bom, ou mesmo alcançar a barreira do razoável. A nostalgia – a possibilidade que se poderia avizinhar mais positiva – ficou bem aquém das expectativas. O filme está concebido para agradar apenas aos jovens fãs da temporada que actualmente está no ar (ou uma ou duas atrás) na estação de Queluz.

É entre a praia, a piscina, o parque de campismo e o campo de férias, que a acção de Morangos com Açúcar – O filme se passa. Amigos de longa data reencontram-se e novas amizades acontecem. Margarida, Rui, Leo e Mariana juntam-se aos colegas e vão enfrentar dificuldades nas suas relações amorosas. Há muitas caras que regressam e um evento que ninguém quer perder: o festival de bandas, que está prestes a acontecer. É num ambiente de festa, sempre a celebrar o Verão, onde música não falta, que tudo acontece.

A história não sai do que já é hábito: amizades, amores e desamores. Não vale a pena esperar mais do que isso. Os diálogos também não trazem nada de novo, com os habituais “Que fixe!”, “Estás-te a passar?” e afins a dominar o vocabulário. Os protagonistas, Margarida e Rui/ Leo e Mariana, poderão ter sido uma aposta razoável para este filme, deixando de lado as personagens mais recentes, que, apesar de marcarem igualmente presença, não tornam tão dolorosa a visualização da longa-metagem.

Morangos com Açúcar – O Filme pretendia ser um culminar da série e uma espécie de reencontro das várias gerações “morangos”. Mas tantos anos passados, seria realmente difícil reunir todas as personagens mais relevantes e, mais ainda, talvez essa não fosse a melhor opção. O certo é que, ainda assim, houve a preocupação de tentar juntar uma série de personagens do máximo de temporadas possíveis, umas mais memoráveis que outras. Resultado: a certo momento torna-se impossível não ficarmos perdidos no meio de tanta gente.

A tentativa de recordar todas as temporadas da série com diversas participações especiais também não corre muito bem. À excepção de Becas, que surge com algum destaque como monitora do campo de férias, Pipo, Simão, Tiago, André (os protagonistas masculinos das primeiras quatro temporadas) não aparecem na tela nem sequer dois minutos. Outro exemplo é o surgimento de Lourenço, personagem interpretada por Tiago Carreira também num dos primeiros anos da série, que muito pouca gente irá reconhecer. Alguém que nunca tenha visto a série não conseguirá acompanhar tantas personagens e relações mal explicadas. É complicado compreender como é que personagens de anos tão diferentes se conhecem.

A componente musical que tem vingado nos últimos anos na série televisiva está bem marcada no filme. São vários os temas cantados pelas personagens que pretendem expressar sentimentos em diversos momentos. A par disso, o concurso de bandas reforça o lado musical de Morangos com Açúcar – O filme, onde surge uma das bandas criadas na série: 4taste. O filme continua a seguir a linha Glee ou High School Musical já experimentada na série.

Os actores são, em geral, de fraca qualidade. A excepção vai talvez para Sara Matos, que veste a pele de Margarida, que consegue conferir alguma naturalidade à sua personagem. Também Ricardo Sá consegue oferecer alguma animação com a sua caricata personagem, Leo. O grande destaque negativo vai para Mafalda Portela, que interpreta Tatiana. Nota-se demasiado o esforço que a jovem faz para dizer qualquer frase que seja.

Com uma imagem “limpa”, tal como se o estivéssemos a ver numa televisão gigante, Morangos com Açúcar – O filme  não devia ter sido levado para o grande ecrã. Não temos mais do que um episódio televisivo, como tantos outros, não temos boas personagens, nem bons actores, nem uma única boa história. Sim, pode ser interessante voltar a ver algumas das mais antigas personagens, mas colocar “tudo no mesmo saco” não era a solução. A longa-metragem de Hugo de Sousa é feita para um único público-alvo, as crianças e jovens que idolatram a série.

3/10

Ficha Técnica:

Titulo Original: Morangos com Açúcar – O Filme

Realizador: Hugo de Sousa

Argumento: Diogo Tomás

Elenco: Sara Matos, Lourenço Ortigão, Ricardo Sá, Lia Carvalho, Gabriela Barros, Mafalda Portela, Sara Prata, David Carreira

Género: Comédia, Musical, Romance

Duração: 97 minutos

Crítica escrita por: Inês Moreira Santos

*Por opção da autora, este artigo foi escrito segundo as normas do Acordo Ortográfico de 1945.