Depois de um hiato de 16 anos, os Dead Can Dance, ou melhor dizendo Brendan Perry e Lisa Gerrard, regressam com mais um (in)esperado disco de originais. Anastasis, termo de origem grega que significa “renascimento” ou “ressurreição”, chega-nos através da Pias Records e, musicalmente, vem no seguimento daquilo que Perry e Gerrard têm feito nos últimos tempos a solo, sendo que o primeiro teve a gentileza de passar por terras lusas aquando da digressão de Ark, o seu mais recente trabalho, ainda e sempre com o carimbo da mítica 4AD. Lisa Gerrard, a outra face da banda e uma das eternas musas do universo indie, tem revelado ao mundo uma produção e criatividade notáveis e, entre participações em projetos paralelos e bandas sonoras, os trabalhos desta australiana de 51 anos são sinónimo de um talento inesgotável.

Se antes do lançamento de Anastasis os Dead Can Dance iam deliciando os fãs com os volumes dos já famosos Live Happenings (EPs com atuações ao vivo da banda que podem ser descarregados através do sítio oficial da banda), este novo punhado de oito peças musicais revela-se uma agradável surpresa.

Anastasis começa com Children of the Sun, um misto de ambientes eletrónicos com cordas que e serve de mensagem de boas vindas a mais uma aventura e, desde logo, sente-se a atmosfera única desta banda. Brendan Perry canta: “We are the children of the Sun / Our Journey’s have just began … / There is room for everyone”. Confortavelmente instalados, de ouvidos bem atentos, somos levados para um universo paralelo, um local místico e onírico onde a beleza acolhe-nos de braços abertos.

A seguir, Anabasis, a segunda e belíssima faixa, traz-nos o “lamento” vocal de Lisa Gerrard, um autêntico canto de sereia. A voz de Gerrard surge como um elo de ligação entre o sonho e a realidade, o palpável e o inteligível. O som tem por base ambientes oriundos do Médio Oriente e fragmentos da Índia, muito a fazer lembrar algumas das criações de Spiritchaser, álbum de 1996. Ao terceiro tema, Agape, o céu abre as portas e entramos, de cabeça, no misticismo arabesco das mil e uma noites. O ritmo é contagiante, os sons envolvem-nos.

Amnesia, um tema de ambientes góticos assombrado pela voz de um Brendan Perry cada vez mais seguro da sua função de cantor, ganha contornos épicos com os arranjos orquestrais que remetem para os Dead Can Dance nos anos 80. Kiko, um dos temas mais fortes e escuros de Anastasis, mistura arranjos e texturas electrónicas e reminiscências asiáticas. A voz de Lisa faz o resto.

Opium traz de novo Perry ao microfone e resulta num tema de características new wave que aguça os sentidos. As palavras tomam forma e o cérebro fica inebriado por sons que nos levam a lugares, a sítios, a memórias perdidas ou a sentimentos familiares. Chega agora a vez de Return of She-King, numa toada épica carregada de lembranças fantasmagóricas de um universo medieval, assombrado. O registo vocal de Lisa Gerrad multiplica-se, sobrepõe-se, agarra-nos. Um autêntico hino à beleza que junta, pela primeira vez em Anastasis, as vozes dos dois líderes da banda que sempre se complementaram de uma forma transversal.

Mais uma vez tons orquestrais e eletrónicos convivem em harmonia. All in Good Time, música que encerra o disco, remete-nos para um universo simular ao que acontecia em Into the Labyrinth, de 1993, e a voz masculina do “casal” sobrepõe-se ao ambiente de tendências sónicas e o silêncio aproxima-se devagar, de forma tranquila, naturalmente.

Globalmente, Anastasis, mais de três décadas depois da formação desta dupla de sonho, vem confirmar a genialidade dos Dead Can Dance, uma banda que nada tem a provar mas que faz gala em fazer música inteligente, sagaz, que alimenta espírito e alma. Num ano em que, pela primeira vez, atuam em Portugal (Casa da Música, 24 de outubro), este novo álbum vem aguçar ainda mais a vontade de ver em palco um dos projetos musicais mais inovadores e carismáticos do universo musical.

Nota final: 8,5