Desde 2007 que pensávamos que Bourne havia sido encerrado na gaveta, restando apenas os DVD’s para matar saudades. Contudo, a esperança renovou-se quando – em 2009 – se começou a sondar a possibilidade de um quarto filme: reuniram-se produtores e equipa técnica para decidir o futuro. Infelizmente Paul Greengrass declinou a hipótese de realizar um novo filme da saga e, com ele, também Matt Damon ficou de fora. Ficou a pergunta: Como fazer um novo filme de Bourne sem o Bourne original? A resposta chegou aos cinemas portugueses na quinta-feira.

O Legado de Bourne situa-se mais ou menos na época do último filme da trilogia: The Bourne Ultimatum. Sob o mote de “nunca houve só um” acompanhamos a história de outro espião integrado num outro programa. Com a Treadstone ( que saudades de ouvir isto!) e a Blackbriar expostas por Jason Bourne e os principais nomes da CIA sob investigação, é necessário encobrir um outro programa clandestino: Operação Outcome que, através de comprimidos, produz alterações na capacidade física e mental de quem os toma. O novo antagonista, Eric Byer, decide então eliminar todos os que tenham conhecimento do programa incluindo espiões e os cientistas que administram os medicamentos.

E é durante esta operação que conhecemos os dois heróis da trama: Aaron Cross – que sobrevive a uma explosão no Alaska e a um ataque de um lobo – e a Drª Marta Shearing que escapa a duas tentativas de assassinato. Juntos irão para as Filipinas – local onde se fabricam os medicamentos – em busca dos comprimidos azuis. Naturalmente serão perseguidos pela equipa de Byer, que a todo o custo vai tentar eliminar os únicos sobreviventes da Operação Outcome.

São duas horas de filme em que cada vez que se fala no nome de Jason Bourne ficamos com uma esperança patética de ver de novo Matt Damon. Não há como evitar: a alma da saga de Bourne é o próprio Bourne e um filme sem ele é simplesmente desapontante.

Em primeiro lugar, o guião é muito fraco: quase que nem damos por ele, podemos perfeitamente ver o filme inteiro sem tomar atenção às legendas. O que não seria de esperar já que Tony Gilroy – o argumentista e realizador – também já tinha escrito os restantes filmes de Bourne. Com oportunidade de redimir-se na realização, Gilroy também foi mediano; mas talvez porque os fãs da saga estavam habituados à componente estética de Greengrass: perseguições com recurso à “câmara na mão”, explosões e cenas de luta fantásticas, enfim o realizador deixou uma fasquia muito alta para o seu sucessor. Este, um pouco mais reservado, fez um filme “mais limpo”, mais certinho, o que desilude. Contudo a cena do lobo e a perseguição final nas Filipinas quer no telhado – à semelhança do último Bourne – quer na mota são bastante bem conseguidas, constituindo o clímax do filme.

Relativamente aos atores: é claro que Jeremy Renner não é nenhum Matt Damon e seria injusto fazer comparações pois ficaria a perder. Contudo fez uma interpretação bastante satisfatória, imprimindo à personagem uma certa “fragilidade humana” que Bourne não tinha o que nos faz identificar um pouco mais com este protagonista. Rachel Weisz está impecável, como sempre aliás. Não desfazendo Julia Stiles nem Franka Potente, creio que Weisz é a protagonista feminina mais bem conseguida dos quatro filmes e também a que tem mais visibilidade. Já Edward Norton, o Eric Bryer, não acrescentou nada ao filme a não ser o seu nome nos créditos. A personagem é vítima do argumento e, obviamente, não tendo tanto destaque como os protagonistas, pouco é notado. O que é injusto dado ao prestígio de Norton que já mostrou muitas vezes o seu valor enquanto ator principal, não merecendo um papel como este. De resto o filme é claramente apenas Renner e Weisz.

Como fã da saga não posso evitar as comparações aos filmes anteriores e confirmar tudo aquilo que sempre pensei: Bourne é Matt Damon e Paul Greengrass. E Bourne acabou; não valia a pena estragar uma das trilogias mais bem conseguidas das últimas décadas.

Contudo, pondo de lado o meu lado nostálgico e centrando-me apenas neste filme como individual, não é dos piores que aí andam: entretém, mas não fascina; tem atores de qualidade, mas um argumento pobre. Não é Bourne. Ponto.

6/10

Ficha Técnica:

Título Original: The Bourne Legacy

Realizador: Tony Gilroy

Argumento: Tony Gilroy

Elenco:  Edward Norton, Jeremy Renner, Joan Allen, Rachel Weisz, Scott Glenn

Género: Ação, Aventura

Duração: 135 minutos