Escrever sobre o quinto e último dia do Festival Paredes de Coura é uma missão hercúlea. Não é falar de música; é falar de sentimentos, de emoções, de memórias.  Ao fim de mais de dez anos o impensável aconteceu e os Ornatos Violeta dilaceraram milhares de corações. Foi tão bom de ouvir.

Há 20 anos atrás, quando o Festival arrancou, os Ornatos Violetabem antes do Cão” como frisou o próprio Manuel Cruz, andavam ainda a fazer temas de toada punk, como A metros de Si ou noise, como Dias de Fé, temas que tocaram no segundo encore. Por essa altura, mal sabiam que haveriam de gravar dois dos discos mais marcantes da história da música portuguesa – Cão! (1997) e O Monstro Precisa de Amigos (1999). Também não sabiam, que em 2012, marcariam a festa do 20.º aniversário do Festival, protagonizando uma das maiores enchentes de sempre, com um público visivelmente intergeracional.

No local onde começa o declive do anfiteatro natural de Paredes de Coura e onde temos a segurança e o grau de visibilidade perfeito, metemos conversa com os rapazes courenses ao nosso nosso lado. Paulo e Tiago nasceram no mesmo ano do Festival e são super fãs dos Ornatos Violeta, que se separaram quando estes tinham apenas 7 anos. “Então mas como chegaram a eles?“, perguntámos. “Começámos a ouvir os Ornatos Violeta na série Uma Aventura, antes do Filipe Pinto cantar Ornatos nos Ídolos“. Percebemos que, tal como foram conhecer os Doors ou os Pearl Jam, estes jovens da “geração digital” ouviram repetidamente os dois únicos discos de estúdio dos Ornatos Violeta – curiosamente os dois únicos discos que possuem em formato físico.

Manel Cruz (voz e guitarra), Nuno Prata (baixo), Peixe (guitarra), Kinörm (bateria) e Elísio Donas (teclados) não deixaram espaço para os corações se recuperarem música após música. Tocaram com alma e coração, mas com a eficiência de quem tivesse estado ainda agora num qualquer canto de Coimbra, por exemplo, onde os vimos vezes sem conta, quando sofríamos da primeira grande “dor de corno“. Manel Cruz, timbre perfeito, quente, ligeiro sotaque “tripeiro”, tímido no contato, embasbacado com a moldura humana, cantou e encantou e no finalzinho até tirou a camisola. Repetiu várias vezes “Muito bom!“. Pensámos: “Muito bom é um croissant com chocolate. Isto é demais!“.

Durante o concerto em que a banda tocou e cantou O Monstro de fio a pavio, os nossos amigos courenses absorveram, quase estáticos, o momento que “pensámos que nunca iria acontecer“. Uns metros abaixo, bem colados à grade, outros jovens da sua geração, optavam pelo mosh e crowdsurfing em temas como Chaga ou Dia Mau (estragando, como viemos a saber, o concerto a muitos presentes). Toda a gente se arrepiou em Coisas e Notícias do Fundo e quando chegou o “Fim da Canção” ninguém parou de aplaudir pedindo por mais.

Desfazendo-se em agradecimentos a banda tocou inéditos e raridades incluídos na caixa editada em finais de 2011. Devagar, Como Afundar e Há-de Encarnar (inéditos apresentados ao vivo após a gravação de O Monstro Precisa de Amigos) e Tempo de Nascer. Não quisemos ver o fim chegar e em êxtase, numa fúria de troca de SMS com o passado e com o coração pequenino, tão pequenino, encolhido perante a magnitude daquele concerto, rumámos ao Palco Vodafone FM onde os Chromatics com a sua eletrónica indie apresentaram Kill For Love, o seu quatro álbum de originais, o 2º editado pela Italians Do It Better. Logo de seguida (e antes do DJ Nuno Lopes voltar a rasgar-nos os ouvidos) Sunta Tempton brindou-nos com a melhor setlist de DJ do festival, percorrendo clássicos da indie e brit pop que fizeram as delícias dos presentes.

Uma nota ainda para os projetos portugueses que atuaram nessa noite em Paredes de Coura: Ladrões do Tempo, Best Youth, Capitão Fausto e os enormes Dead Combo. Que tremendo concerto de aquecimento para Ornatos Violeta deram Tó Trips e Pedro Gonçalves, desta feita acompanhados na bateria por Alexandre Frazão, que deu nova vida ao western nostálgico dos autores de Lisboa Mulata. Tarefa difícil, enquanto todos esperavam o grande momento do festival, mas cumpriram-na com brio e sucesso. Alguém dizia “Como é que eu fui pensar que Dead Combo não ia funcionar aqui?“.

Nesse dia passaram ainda pelo palco os Memoryhouse que levaram a dream pop xoninhas desde Toronto até ao Minho. No Palco EDP, The Go! Team esforçaram-se e suaram as estopinhas  mas poucas vezes conseguiram conquistar a audiência.  “Nós não vimos cá muitas vezes, mostrem o que têm para dar” disse Ninja, a rapper/instrutora de aeróbica em grande forma, mas nem assim a multidão de Paredes de Coura levantou o pé do chão com a mistura enérgica de rock, eletrónica e beats de hip hop da banda britânica. No palco secundário, a tenda foi pequena para acolher o pós-rock dos irlandeses God is an Austronaut. Mas àquela hora todo o recinto era já pequeno para aguentar a excitação que pairava sobre todos nós.

Encerraram-se assim os festejos da 20.ª edição do Festival de Paredes de Coura (última neste formato?). Com sabor a português, sabor a norte e ouvidos colados em Outubro, nos Coliseus de Lisboa e Porto, onde teremos oportunidade de amar outra vez os Ornatos Violeta.