Chegou ao fim o Festival Bons Sons 2012. Com os primeiros dois dias repletos de grandes nomes da música portuguesa, estes últimos dois dias acabaram por ficar um pouco aquém. No cômputo global, contudo, foram quatro dias que muitos guardarão certamente com prazer.

Um cartaz onde não faltou nada, ter-se-ia tornado ainda mais atrativo se a repartição dos artistas tivesse sido mais racional. Ainda assim, Gobi Bear, Birds Are Indie, Maria João & Mário Laginha e Vitorino proporcionaram alguns dos melhores momentos de música dos dias 18 e 19. Num festival onde a amplitude etária é acentuada, é de ressalvar o facto de em praticamente todos os concertos haver público de todos os géneros e feitios. Os números de assistência foram sempre muito positivos. Foi inteligente da parte de quem o planeou evitar que houvesse demasiadas sobreposições de concertos. Era sair de um e ir a correr para o outro.

Quem vem ao Bons Sons está já calejado para degustar concertos de índoles, por vezes, quase opostas. É sempre de admirar ver a malta que costumamos rotular “da pesada” sentada sossegadamente a assistir a coisas como António Zambujo, Aldina Duarte, Filho da Mãe, entre outros. Além disso, ficou também patente a cooperação do público com todos os músicos que atuaram. Sempre compreensivos, entusiásticos e ávidos por mais música, os festivaleiros de Cem Soldos foram, por variadas vezes, responsáveis pelo maior êxito e popularidade das prestações. Alguns artistas não conseguiam esconder o nervoso-miudinho (por vezes, até mais do que isso) no início dos seus concertos e seriam mesmo os incentivos fulgurantes da plateia a dar o empurrão necessário. No fundo, acabou por não se verificar a existência de públicos-alvo dispersos. Ao contrário de outros festivais, a imposição de rótulos não se justificou. Em boa verdade, o que se viu foi um público uniformizado e móvel, que não fez questão de se afirmar como amante de um estilo ou de outro.

Mais do que educado, este público é respeitador. Já se sabe que uns transformam a água em vinho e outros privilegiam a cervejinha mas, mesmo quando as quantidades ingeridas ultrapassaram o recomendado, os passos de dança analfabetos e as interpelações equivocadas nunca excediam o razoável. Um respeito que abrangeu preocupações de caráter mais cívico e ecológico. Salvo raras exceções, como sempre as há, Cem Soldos manteve-se sempre apresentável e operacional para tudo e todos. Para isso, contribuiu também o enorme espírito de entreajuda e irmandade tanto entre residentes e festivaleiros, como entre estes últimos. Sentimo-nos como que em casa, tanto pelos bons-dias que sempre nos davam aqueles que por nós passavam, como pelas fidalguias de que gozámos (cerveja a preço pré-festival e farturas por conta da casa). Já perto de deixarmos a humilde terra, corámos com as palavras de uma senhora que passou: “que sejam muito felizes”.

Nas tardes que passámos a bulir, foi um alívio ter mesmo ali à frente o Palco Acústico, criado especificamente para a apresentação de originais. Uma simples inscrição bastava para subir ao palco e mostrar o talento, ou a animação. Também por isso, a programação cultural em todo o festival foi vasta: vimos instrumentos que desconhecíamos, stand-up, pseudo-bandas, fogo soprado e outras artes circenses, etc. Enfim, tudo coisas que nos afagavam bem a alma. Durante quatro dias, Cem Soldos foi uma autêntica aldeia global, como já havia mencionado no artigo relativo ao primeiro dia. Uma aldeia completamente de braços abertos para receber música, comportou inúmeros palcos, situados em pontos estratégicos, sempre no meio das gentes, das tascas, dos velhotes a jogar à sueca. Vemo-nos daqui a dois anos!