Depois do dilúvio, o Festival Paredes de Coura voltou em grande. À beira do rio Coura ouve-se performance poético-musical, “Quem é o Cesariny?” – pergunta um dos muitos pós-adolescentes que visitaram este ano o festival, e o jazz de Mizi Band. Vêem-se centenas de toalhas estendidas, ressacas disfarçadas, guarda-sóis fornecidos pelo patrocinador oficial, vendedores ambulantes de tudo e mais alguma coisa. No rio há barquinhos de borracha, gaivotas e saltos aventureiros de cima das árvores (apesar da tabuleta que desaconselhava a banhos no rio). A animação é muita.

Sequiosos (passo a expressão, que água houve, e muita) de diversão na praia fluvial, os festivaleiros mantiveram-se até bem tarde pela margem do rio, pelo que, cerca das 17h30, quando, com algum atraso, as portas do recinto abriram, pouca gente entrou.

Foi neste cenário algo desolador que começaram a tocar os Wave Pictures, a banda britânica que já passou por Portugal há dois anos atrás e que na bagagem trazia o seu mais recente disco, Long Black Cars, editado pela Moshi Moshi Records.

No palco principal, Gang Gang Dance não tiveram melhor sorte. Só mais para o fim do concerto o cenário se compôs, mas com a maioria dos presentes a “desconfiar” do experimentalismo da banda de Brooklyn, que mete no mesmo caldeirão ingredientes oriundos dos 5 continentes. Nota curiosa: um  bizarro elemento da banda deambulou pelo palco com uma toalha de praia com a bandeira da Jamaica e um ramo de flores na mão durante todo o concerto. Ninguém percebeu o que fazia.

Não menos bizarros, e aparentemente oriundos de outro planeta, os também americanos Of Montreal pisaram o palco para montarem os seus instrumentos e fazer o soudcheck. Vestidos com toque glam e circense, desfiaram alguns temas clássicos da sua já longa carreira, alternados com músicas novas de Paralytic Stalks, o seu 11.º disco de estúdio, editado este ano. Sem o espectáculo de dançarinos, serpentinas, plumas e confetis com que já os vimos, a banda teve, ainda assim, momentos maiores com temas como Heimdalsgate Like a Promethean Curse, que provoca reação química imediata e The Past Is a Grotesque Animal, um tema portentoso. Kevin Barnes  é simplesmente adorável.

Uma passagem pelo Palco Vodafone FM, entretanto já mais composto, permitiu saborear o country e o folk alternativo de Deer Tick. Uma pequena e entusiasta legião de admiradores que se encontrava na frente do palco provou a sua adoração a John McCauley. Consta que Charlize Theron é também uma fã.

De regresso ao Palco EDP, Paredes de Coura iria receber a sua primeira enchente naquele espaço. A honra foi dada a Erlend Øye (who else?). Depois de ter cantado e encantado com os Kings of Convenience, o ano passado, quer na praia fluvial, quer no anfiteatro natural, Whitest Boy Alive apresentou-se agora no seu projeto de eletrónica algo insípido e vazio. Dreams, lançado já em 2006, pareceu-nos uma boa apresentação mas não teve qualquer continuidade.  Ao vivo, o amigo Erlend (que já tínhamos visto pelo festival no dia anterior) continua a ser o rei da festa, fazendo as suas tropelias ao público: pede que se sentem, que estalem os dedos, que cantem com ele, e faz, com isso, um imenso sucesso. Cerca de 20 mil pessoas, diria, aplaudiram veementemente.

Muito mais introspetivo mas em muito maior qualidade foi o surpreendente concerto de Anna Calvi. Pouco comunicativa para o gosto da maioria do público que por ali ficou à espera de Kasabian, a britânica encantou os ouvidos mais atentos à música na sua componente artística e não apenas espalhafatosa. Dona de uma voz rouca e sensual que condizem fantasticamente com a sua postura femme fatale, apresentou os temas do seu homónimo disco (Suzanne and I e Desire provocaram movimentações na plateia) mas foi nas versões que mais nos derretemos: Surrender de Elvis Presley, a soberba Wolf Like Me de TV On The Radio e Jezebel de Edith Piaf a fazer lembrar o magnífico concerto à guitarra que PJ Harvey deu naquele mesmo palco há uns anos atrás.

Nessa noite encerrava-se o palco principal com a consagração dos Kasabian. Sábios da cartilha pop rock, agarraram o público e fizeram com ele o que quiseram, percorrendo os seus maiores êxitos (quem não cantarolou Shoot The Runner LSF?) e apresentando duas interessantes covers de conterrâneos seus: Everybody’s Got To Learn Sometimes, dos Korgis e She Loves You, dos Beatles.

Entretanto, no Palco Vodafone FM as movimentações para alcançar um bom lugar na tenda eram incompreensíveis. Os Crystal Fighters têm um bom disco – Star of Love de 2010 – e um par de muito bons singles I Love London e Plage mas porque é que a mais de meia hora do concerto começar, a tenda estava já repleta de pós-adolescentes excitados? Dúvidas existenciais à parte, a banda, que tem uma sonoridade baseada no folk basco, deu um concerto eletrizante para gaúdio de todos, que fizeram a desejada festa dos 20 anos de Paredes de Coura, num espaço, uma vez mais, pequeníssimo para a celebração proposta.

Pela noite dentro, In Flagranti e o persistente DJ Nuno Lopes, perturbaram o descanso de quem desejava uma boa noite de sono, antes da viagem no tempo que haveria de ser o concerto de Ornatos Violeta no dia seguinte.