O Coração da Tempestade é um filme australiano de Fred Schepisi – realizador conhecido pelas suas adaptações cinematográficas de obras literárias; entre elas estão Last Orders, Evil Angels ou Plenty ambos protagonizados por Meryl Streep. Este drama marca ainda o regresso do australiano aos filmes depois de nove anos a trabalhar entre minisséries e vídeos musicais.

A história gira em torno de Elizabeth Hunter – uma mulher idosa que vive ostensivamente no luxo, rodeada de empregados, mas sozinha. Tem dois filhos: Basil – um lascivo ator de teatro – e Dorothy – uma mulher de meia idade divorciada de um príncipe francês – que vivem longe, mas que regressam quando sabem que o seu estado de saúde piorou. A relação com a mãe não é de afeto: ambos sentem-se pressionados na sua presença e tentam a todo o custo disfarçar o seu mal-estar. Numa primeira análise temos a impressão de tratar-se de um caso puramente de interesses: os filhos desejam a rápida morte da mãe para poderem ficar com a herança. E, na verdade, há esse objetivo sim. Contudo, por detrás, da aparente frieza dos irmãos, existem duas crianças assustadas e carentes. No desenrolar da ação, conseguimos descortinar um passado de luxúria e libertinagem por parte de Elizabeth que, importando-se apenas consigo mesma, relegou os filhos para último plano. É através de vários flashbacks da própria que vamos conhecendo as razões que a levaram a uma velhice solitária.

Fazem ainda parte do enredo: duas enfermeiras que tratam da matriarca, Mary e Flora – interpretada pela filha do realizador, Alexandra – que chega a envolver-se com Basil na esperança de ficar grávida; Lotte a governanta judia e Wyburd responsável pelos negócios da família, ex-amante de Elizabeth e, talvez a personagem mais honesta do filme – quem vir uma das cenas finais perceberá a que me refiro.

Desta feita o realizador brinda-nos com um argumento de Judy Morris – uma das co-escritoras de Happy Feet – baseado no livro homónimo de Patrick White, o único australiano a vencer um prémio nobel da literatura. Se as expetativas já estavam altas pelo regresso de Schepisi aos filmes, elevaram-se ainda mais quando se soube qual o livro que ele iria adaptar, principalmente pelo autor ser conhecido pela sua escrita complexa e exaustivamente descritiva: foi a primeira tentativa de passar esta obra de White para os ecrãs e todos estavam curiosos para saber se seria bem sucedida. E foi.

Em termos visuais O Coração da Tempestade é esteticamente agradável: com paisagens bucólicas, uma ambiência luxuosa e rica em pormenores e um guarda roupa bem representativo do estilo burguês da época – aliás guarda roupa esse que ganhou um AACT Award.

As cenas são bem interpoladas com flashbacks, sem nunca perderem o fio condutor. Também os close ups de certos objetos e detalhes, são um ponto importante na construção da narrativa e conferem uma certa profundidade emocional ao espetador em relação ao que se passa na tela. Em termos de fotografia, o filme segue os planos tradicionais, mas contém um jogo de luz /sombra interessante, principalmente nas cenas em que Elizabeth está na cama doente.

Esta é uma obra que nos prende; conquista-nos lentamente, cena a cena, para no fim nos surpreender e arrepiar. É um filme sobre a importância dos nossos atos e consequências que deles podem advir no futuro. É também uma história de redenção, sobretudo para o filho, interpretado por Geoffrey Rush que nos surpreende e arrebata na cena final com um monólogo muito bem conseguido; de descoberta do perdão, por parte da filha, – Judy Davis faz aqui talvez a melhor interpretação de todo o filme – de compreendermos que não se pode apagar o passado, por mais que se tente esconde-lo ou evitá-lo, não se pode negar as origens: os laços familiares permanecerão aonde quer que os nossos caminhos nos levem. Laços esses que nem a morte pode separar.

8/10

Ficha técnica:

Título Original: The Eye of the Storm

Realizador: Fred Schepisi

Argumento: Judy Morris

História: Patrick White

Elenco: Geoffrey Rush, Charlotte Rampling, Judy Davis, Colin Friels, Dustin Claire

Género: Drama

Duração: 120 minutos