Os The Ramblers são uma banda de Blues Rock lisboeta, formada em fevereiro de 2007. O nome tem origem na música dos Rolling Stones, Midnight Rambler, e tem sido sob este nome que a banda se tem apresentado desde o início. O grupo revela-se no panorama musical como uma banda de blues rock com toques de funk e soul. Deste modo as suas influências surgem, muito naturalmente, da música das décadas de 50, 60 e 70 – os tempos áureos do Rock. A banda é composta por Rosie na voz, Lou no baixo, Richards na guitarra e Ferro na bateria. Em setembro chega às lojas o seu novo EP: YER VINYL, cujo single, Lemonate, já circula. Estivemos à conversa com a banda e revelamos-te tudo.

Os The Ramblers surgem em 2007. De quem partiu a ideia para criar a banda?

Podemos dizer que partiu da Rosie, do Richards e do Lou. O Lou e o Richards eram da mesma turma no secundário e o Lou tinha andado no básico com a Rosie. Em 2006 cada um tocava um instrumento (ou cantava no caso da Rosie) e por isso tornou-se óbvio. O Ferro entrou já em 2007, com 14 aninhos, era o “menino prodígio” da bateria da escola de música onde o Richards também estudava. Marcamos 2007 como início pois é a data do nosso primeiro concerto, mas a ideia começou em 2006.

O vosso nome tem origem numa música dos Rolling Stones. Numa entrevista recente afirmaram que escolheram o nome porque os definia enquanto banda. O que mudou desde então?

Muito, mas também quase nada. Passamos a explicar: O nosso horizonte musical é muito mais vasto neste momento (até porque tínhamos 16 anos quando começámos). Na altura era muito limitado a Rock 60’s e 70’s. Logo que começámos a tocar juntos descobrimos obviamente o Blues, pois é dele que vinham as nossas bandas favoritas e é também dele que vem quase tudo. Aliás, se não soubermos tocar Blues não vale a pena tentar nenhum tipo de música popular nos últimos 50 anos, pois vamos fazê-lo mal. Com o tempo descobrimos o Funk, a Soul, e camionetes e baldes cheios de world music de diversas fontes. No entanto, se pensarmos bem, as bandas de rock dos anos 60 e 70, quer fossem os Cream, Doors, Stones, Led Zeppelin, Janis Joplin, Jethro Tull ou até os The Who, mais não faziam do que juntar todos os géneros que os rodeavam e lhes despertavam interesse, e nós ao ouvi-los fomos dando apelidos: Blues Rock, Rock Psicadélico e sabe-se lá mais o quê. Logo, é isso que sempre quisemos fazer: ser uma banda de rock, com uma origem muito bluesy, mas que misture tudo o que está à nossa volta de que gostamos, tal como as bandas que idolatrávamos na altura. Por isso, não mudou assim tanto!

Ainda se lembram do vosso primeiro concerto? Muitos nervos?

Lembramos pois! Foi um evento da Revista Cais, chamado Pão por Todos. Colocaram uma tenda enorme na Alameda [D. Afonso Henriques] em Lisboa, junto ao Técnico e, juramos que é verdade, cabiam lá entre 1000 e 2000 pessoas. Nós oferecemo-nos para tocar, por telefone, e no alto da nossa seriedade dissemos que tínhamos imensa experiência. Quando nos aceitaram pedimos todos os amps e a bateria emprestados ao dono do estúdio onde ensaiávamos há uns meses (Guitar Clinic, nas Olaias, passando a publicidade). E, Deus o abençoe, ele conduziu a carrinha dele, nas calmas a fumar umas cenas, com o material atado a sair pela bagageira até à Alameda (ninguém tinha idade para ter carta entre nós) e emprestou-nos tudo, a sala de ensaio ficou vazia! Apareceu uma multidão de pessoas e muita malta da nossa idade de uma escola secundária de artes ali ao pé – António Arroio – cheia de miúdos como nós que na altura amavam quem quer que seja que tocasse uns acordes de Led Zeppelin ou o Johnny B. Goode e ainda por cima a Rosie tinha andado lá um ano.

Tocámos mesmo na hora em que estava tudo a sair, ao final da tarde. No final havia pessoas fora da tenda, que era transparente, a ver o concerto porque já não cabiam lá dentro. E durante dois anos foi o maior público para quem tocámos! Claro que não foi um Woodstock, no meio de muita gente que estava de passagem para receber bolinhos, pão e chocolate quente oferecidos pela Cais, mas a verdade é que algumas paravam para ouvir. Desde que respeitemos as pessoas, às vezes é preciso a lata de tentar. Se não tivéssemos tido a lata de pedir o material emprestado ao dono do estúdio – que na altura não conhecíamos assim tão bem, chegávamos, pagávamos a sala de ensaio e tocávamos – e a lata de nos auto propor ao concerto se calhar nem tínhamos feito mais nada desde 2007!

Apesar de ter passado algum tempo há uma questão que é incontornável: vocês abriram o concerto do B.B King. Podem-nos explicar como isso aconteceu?

Isso aconteceu mesmo? Ainda hoje não acreditamos… Na verdade, podemos voltar à pergunta anterior: vale a pena tentar. Soubemos que o B.B King vinha cá tocar a Portugal, a Sabrosa, como qualquer outra pessoa, provavelmente pela net ou pela TV. Claro que nessa altura já tínhamos um currículozinho pequeno de experiência em bares em vários sítios e até em algumas festas, um EP lançado por uma netlabel e já tínhamos até ido à RTP2. Além disso éramos na altura, tanto quanto sabíamos, a única banda de miúdos da nossa idade (19 na altura) a tocar Blues em Portugal que aparecia nos bares e nalguns blogs, sites de música. Porque não tentar, se o B.B King sempre foi um dos nossos ídolos?

Infelizmente para todas as bandas, neste tipo de eventos raramente respondem a mails, chamadas, faxes ou pombos correio, mas nós tivemos sorte. A organização do concerto foi feita pela Rota dos Vinhos do Porto, mas nós decidimos contactar a Câmara Municipal de Sabrosa por mail. Explicámos que éramos fans do Rei e dissemos o equivalente em linguagem formal, humilde e bem educada a “por amor de Deus, deixem-nos ir, nós montamos o palco e limpamos os destroços”. Uma semana depois ligou-nos um senhor da Câmara Municipal de Sabrosa a dizer que estavam interessados e a perguntar-nos o que queríamos para lá ir abrir o concerto. Nós ficámos parvos. Pedimos sítio para dormir e comida! Sabíamos que não éramos ninguém e era o B.B King a tocar e nós íamos abrir, queríamos lá bem saber. Fomos super bem tratados, tivemos uma escola centenária (que já não é usada, é apenas monumento) à nossa disposição para dormir e passar o fim de semana (a escola inteira!), fomos a provas de Vinhos (ui ui) visitámos o Concelho todo… Repetíamos tudo outra vez!

O facto de serem uma banda praticamente desconhecida na altura e terem tido essa possibilidade ajudou-vos de alguma forma a conquistar mais público?

Bem, sem dúvida que tocar para tanta gente (a organização falou em 20 000 pessoas) promove e ajuda a crescer. Ainda encontramos muita gente que nos fala de quão surpreendida ficou connosco. Ao mesmo tempo é uma “carta” gigante no currículo de uma banda que tem o Blues como base. A SIC e a RTP mencionaram numa curta notícia (e também mais não se pedia de um telejornal) e apareceu uma página no Jornal de Notícias e outra no Diário de Notícias, onde mencionaram o nosso nome e a abertura do concerto.

Agora a parte má. Em termos de cobertura mediática, fora telejornais e os dois jornais mencionados, o evento foi quase negligenciado pelos meios ligados à música (não estamos a falar de nós, estamos a falar do B.B King, o Rei do Blues e Embaixador Oficial da Música Norte Americana, que é uma das grandes influências de 90% dos grandes guitarristas dos últimos 50 anos). As grandes revistas de música de renome por cá negligenciaram por completo, os programas de tv sobre música nem deram por isso e não existem críticas ao concerto redigidas por jornalistas profissionais (Os telejornais e os jornais fizeram apenas uma reportagem do acontecimento, como é natural). A verdade é que abrir para o B.B King seria talvez um passo gigante na carreira da banda em qualquer outro país. Mas, sinceramente, para nós não podia ter sido melhor, e o resto que se…

As vossas influências musicais não são comuns nos jovens de hoje em dia. Como adquiriram esse gosto?

Nunca sabemos bem essa resposta… Falando pelo Richards, Rosie e Lou – quando éramos miúdos ouvíamos o mesmo que os outros putos fixes. Como sempre, no início dos anos 2000, o que era fixe eram as bandas da década anterior – Na altura o que estava a bater era Limp Bizkit, Korn, etc. Depois havia a malta dos Nirvana ou Pearl Jam. Isso durou-nos pouco, quisemos perceber o que havia por trás disso. E por trás do que estava por trás. Os pais ajudaram, os profs de música também no caso do Ferro e do Richards. Mas, com toda a sinceridade, o que nos “arruma” mesmo e nos deixa de queixo caído é o poder de uma banda ao vivo. E aí entra muito mais do que a música. As estrelas e o carácter dos perfomers de Blues deram origem às estrelas de Rock. Seja o “macaco” do Mick Jagger ou a calma do Bob Dylan, a verdade é que esse carácter perdeu-se (não nos músicos, mas no que chega às massas) na última década principalmente na grande maioria dos géneros. Há quantos anos não aparece uma estrela de Rock a sério? A Lady Gaga tem uma atitude mais rockeira do que a maioria do rock que aparece nos média. Artistas como o Jack White vão dando ar fresco, mas custa muito a encontrar a atitude e carácter de palco de outros tempos. E quando começámos o cenário estava a viver uma “Nova invasão britânica”, com os Franz Ferdinand e assim. Mas isso evoluiu para ondas que não gostamos muito. Há muito artista bom em palco e muito bom músico, mas chega-nos cada vez menos quem combine as duas coisas.

Dado que a vossa sonoridade aproxima-se muito da música americana – inclusive os vossos nomes artísticos – a internacionalização é um objetivo?

Sem qualquer dúvida. Não querendo ser melhores que ninguém, porque não somos, não há muitas bandas como a nossa por aí, mesmo lá fora. Possível? Vamos ver. Ainda há coisas para fazer, objetivos para cumprir e muito para aprender. Para já é divulgar o EP “por essa estrada fora”.

Quantos aos nomes, vêm do secundário. Queríamos ser estrelas de rock e Mafalda, Ricardo e Luís eram nomes fraquinhos para isso. O Ferro sempre fez o que lhe apetece e nós vamos deixando porque ele é a nossa mascote e por isso ficou Ferro. Mas volta não volta chamamos-lhe Ricky Ironman e ele passa-se! A última vez que fomos tocar ao Casino Lisboa foi esse o nome que meteram no site e a reação dele valeu a pena. Temos de “vender” a experiência completa daquilo que tocamos e representamos, e os nomes fazem parte disso. Além disso, de facto, algumas pessoas tratam-nos por esses nomes!

Em setembro sai YER VINYL : o vosso segundo EP, o primeiro com editora. Como o definiriam?

O Yer Vinyl é uma combinação fantástica entre o nosso trabalho, composição e técnica com a visão do nosso produtor, o Budda da Mobydick Records (guitarrista dos Budda Power Blues, Mundo Cão, Monstro Mau ou Trio Pagú). Em conjunto procurámos o que havia no nosso repertório que se encaixasse num trabalho de cinco faixas que pudesse mostrar a banda como é, mas ao mesmo tempo mostrar algo de novo. Por isso vamos do Rock ao Country e passamos pelo Funk, Blues… É um EP que funciona essencialmente como showcase, mostra o sumo da banda em poucos minutos, mas ao mesmo tempo é um trabalho completo que pode ser ouvido e curtido de uma ponta à outra. E podem curtir com o nosso EP à vontade, que ele é todo liberal e cenas.

Vocês construíram o vosso próprio percurso e, sem grandes ajudas, estão a conseguir marcar uma posição no mundo da música. O esforço compensou?

Estamos? Oh yeah! Obrigado. O esforço compensa sempre. A maioria das bandas acaba por falhar porque para uma coisa boa vêm 1000 dificuldades. E não é conversa da treta de quem está a lançar um disco e tal, é a verdade. E acreditem, na nossa “carreira” (dizer a palavra carreira lembra-nos sempre o Serafim Saudade, mas à falta de melhor palavra…) nunca veio um acontecimento grande e importante, daqueles que nos promovem e nos dão gozo que não trouxesse arrastado um problema talvez de igual dimensão. E como se não bastasse o estado viciado do mercado da música em Portugal, em que nos chegam sempre as mesmas bandas produzidas pelas mesmas editoras e os mesmos estúdios e a passar nas mesmas rádios, ainda temos as relações pessoais de quem passa muito tempo junto para gerir.

Experimentem ouvir-nos a discutir e chamar nomes uns aos outros no ensaio e depois verem como nos amamos em palco. É digno de uma telenovela. É preciso, acima de tudo, ter objetivos com a banda. Isso puxa. Aprender uma cover no início, compor a primeira música, dar o primeiro concerto, gravar as primeiras músicas até chegar a “ter uma editora” ou “entrar em digressão”. Tem de haver um objetivo se quisermos mesmo fazer da música o nosso futuro, se não vamos ficando à deriva. É difícil e pode dar para o torto a qualquer momento. But hey, we’re kicking ass right now.

Com quem gostariam de colaborar no futuro?

Descartando a vontade óbvia de colaborar com qualquer um dos nossos ídolos, gostávamos imenso de fazer algo em conjunto com os Lobo Homem Lobo. Às vezes alguns de nós aparecem nos concertos uns dos outros e tocamos algumas músicas em conjunto, mas gostávamos mesmo de fazer algo com as duas bandas. E com os Kwantta também.

No nosso concerto no Musicbox em que comemorámos o quinto aniversário da banda e convidámos algumas bandas fizemos uma Jam no final com 3 bateristas na mesma bateria, a guitarra dos Lobo Homem Lobo e os Sopros dos Kwantta e foi qualquer coisa. Por outro lado, temos uma vontade crescente de experimentar outros sons, world music. Música cigana, música portuguesa… A nossa música Lucky Sour Cream foi uma experiência desse género com instrumentos tocados por nós e cantada a várias vozes pela Rosie, mas seria interessante fazer algo assim com outros músicos.

No próximo mês vão avançar com uma digressão de promoção ao vosso EP. Podem avançar algumas datas?

Ui. De setembro à primeira semana de novembro não temos um fim de semana livre e depois disso logo se vê! Vamos fazer FNACs do Norte a Sul, de Braga ao Algarve (ficam a faltar as Ilhas!) e em cada cidade vamos fazer também nesses fins de semana concertos em bares, festivais ou salas de espetáculos. Já há muitas datas no nosso facebook.   Começamos pelo concerto de lançamento do EP no Ritz Clube em Lisboa no dia 5 de setembro, e depois seguimos logo para Norte, Porto e Gaia, nos dias 6, 7 e 8!

Como definem atualmente a música em Portugal?

Depende. Estamos a falar da indústria e do mercado ou dos músicos? Em músicos estamos tão bem servidos como qualquer outro país. Nós damos especial valor a performers ao vivo e a bandas e artistas que sejam de facto boas em palco. Além das bandas da Mobydick Records, tentamos juntar-nos com bandas de que gostamos e ajudar-nos mutuamente no que podemos, colaborar quando é possível. Nem sempre é, mas já nos juntámos algumas vezes com os Kwantta ou os Lobo Homem Lobo que são, na nossa opinião, duas das melhores bandas ao vivo que já vimos em Portugal. Acreditem, entrar em palco a seguir a elas exige “cojones”. E há imensos artistas que admiramos por aí, a Da Chick é fantástica e está-se a sair muito bem, também já deu uma perninha num concerto nosso. Claro que a música conta muito e a qualidade da mesma, nem tanto o género, mas tudo o que seja bandas ou artistas com atitude de palco é a nossa cena. E há muitas por aí e outras a começar, ainda a semana passada o Richards e o Lou foram dar uns toques a um concerto organizado pelos Blue Drones que são novíssimos (mais do que nós éramos quando começámos) e têm uma atitude brutal.

Quanto à indústria da música? Está na miséria, mas há de melhorar. As pessoas têm a noção de que aparecem algumas bandas novas, através daquelas editoras ou daquelas rádios, mas nada é novo. Não desprezando a qualidade de nenhuma banda, 90% do que nos aparece vem das mesmas pessoas, dos mesmos meios e mesmas editoras, estúdios e rádios. É um circuito bem fechado e que muitas vezes privilegia muitas coisas antes da música ou da qualidade em palco dos artistas. Mas nem tudo é mau nesse campo. A muito custo e trabalho, acreditamos! Plataformas como o Offbeatz ou o Palco Principal fazem um trabalho fantástico na promoção de novas bandas e daquilo que é, de facto, a nova música portuguesa. E há editoras, como a Mobydick, que não têm restrições comerciais e fazem boa música, custe o que custar e doa a quem doer.

Depois há a questão do mercado. “Não há mercado para isto, não há mercado para aquilo”. Há mercado para tudo. Não há mercado para Blues, Funk ou Soul? O que raio anda a Aurea a fazer? O John Mayer ao vivo ou a Amy Winehouse (andava, coitada)? É uma questão da forma como as editoras estão interessadas em trabalhar e com quem. Se entrares numa loja de guitarras continuas a ouvir os miúdos a tocar Jimi Hendrix ou Cream. Sim, também tocam indie ou Metal ou o que quiserem chamar, o que lhes apeteça. Há espaço para tudo, e há muito, mas muito mercado. Um país com tanto festival de Verão não tem mercado? Não nos gozem. Há é muito pouca flexibilidade e vontade de pôr isto noutro rumo com artistas que valham a pena. E há demasiados círculos fechados de influência. E sim, somos um bocado conspirativos. E há mensagens secretas se rodarem os nossos discos ao contrário, tentem, a sério. Na, estamos a brincar… Ou não. Tirem as dúvidas, apareçam nos concertos e comprem o EP!

 

*Entrevista cedida pelo blog Made In Portugal