A especulação sobre o fim do festival (pelo menos neste formato) pode ter feito os deuses chorar lágrimas em forma de chuva, mostrando-se claramente zangados com quem quer pôr cobro ao festival mais especial do país.

Os relatos eram dramáticos. Pessoas com tendas inundadas, escorregões e bate-cus na lama, objetos de valor danificados, gente a ir embora. A chuva não deu tréguas e ao segundo dia de Paredes de Coura os festivaleiros viram-se forçados a adequar-se às condições adversas.

Obrigatoriamente afastados da praia fluvial – que é também motivo para a vinda a este festival – o dia foi passado na corrida à galocha e ao impermeável (na vila, material esgotado nas lojas, um jipe BMW com portas abertas vendia-os por 15 e 2.5 euros, respetivamente). A originalidade na procura de construir um abrigo para a tenda, manter os pés secos, ou fazer dos sacos de lixo uma capa protetora, mostraram que aqui tudo é diferente.

O conforto musical chegou cerca das sete da tarde com Sun Araw. Vindo do Texas, Cameron Stallones acompanhado de um coro de guitarras e sob trilhos em loop, transmitiu uma sensação subaquática aos corajosos que debaixo de chuva se dirigiram para o recinto.

Com a parte coberta do Palco Vodafone FM já composta (não é que leve muita gente) os Japandroids, com o seu rock musculado tornaram o espaço num sítio mais acolhedor, não só pelo show de riffs de guitarra e bateria potente mas também pela empatia que claramente geraram com o público. Navegando entre o indie garage rock, e a fazer lembrar os No Age que por ali passaram no ano passado, ouviram o público entoar repetidamente o seu nome e demonstraram o desejo e a promessa de voltar em breve. Nós esperamos bem que sim.

Aos primeiros gritos guturais de Marrill Garbus, voz, cérebro e coração de tUnE-yArDs (também elemento dos Sister Suvi) a chuva afastou-se. A sua voz rouca, ukelele e drum machine, acompanhados de baixo e dois saxofonistas, convocaram os presentes para as raízes africanas, alguns dos quais com risquinhos de baton na cara, imitando as pinturas que Marrill costuma fazer para os seus concertos. Protagonizaram um dos momentos mais marcantes do festival.

De seguida, Stephen Malkmus & The Jicks deixaram um gosto amargo. A quantidade de jovens que ainda não era nascida quando Paredes de Coura começou, não abandonou o espaço aconchegado e seco da tenda do Palco Vodafone FM, contribuindo para um ambiente “ninguém quer saber”. Mas havia muito quem queria. Havia muitos para quem este era um dos concertos mais aguardados e a espera revelou-se inglória. As atenções foram divididas com o mau tempo (lá fora S. Pedro voltava à carga arrasando com chuvas torrenciais) num espaço pequeno nas dimensões cobertas para um dia de dilúvio e que a curta distância se torna de pouca visibilidade e atrofiado pelos bares e barracas de comida que se distribuem em seu redor.  Ficará para a história que Stephen Malkmus, nome maior do indie rock de todos os tempos, merecia ter tocado noutro palco, para outras pessoas.

A entrada em palco dos americanos Friends, coqueluche indiezinha atual, que este ano se deram a conhecer com o seu primeiro disco de originais Manifest!, fizeram jus ao nome do disco e manifestaram-se. Samantha Urbani, com um chapéu de polícia, envergou uma t-shirt de apoio às Pussy Riot e assumiu uma postura provocatória que aprisionou os presentes. Mais devido à sua presença do que à música em si, que não passa de engraçada, a simpatia e simplicidade óbvia divertiram.

Last, but not the least chegaram os PAUS para apresentar o que de melhor se tem feito na música portuguesa. A conjugação dos teclados, baixo e bateria dupla (qual yin e yang entre Quim Albergaria e Hélio Morais) os Paus espalharam amor e energia aos resistentes à chuva. São a nossa expurgação. Depois de música e músicos assim, somos todos pessoas melhores. E dormimos todos mais tranquilos, na esperança de ver a chuva terminar.

A noite acabou ao som do DJ Nuno Lopes, que, lamentamos, fica muito melhor no cinema ou na televisão.