Em Cem Soldos, os bons sons já se ouviram e a mini-globalização já se espalhou pelos quatro cantos da aldeia. O calor tórrido foi inevitável, já que estamos num espaço Sem Toldos. Neste primeiro dia do Festival Bons Sons 2012, coube a Nuno Prata a inauguração do Palco Giacometti e a abertura do festival. Para dia de abertura, este foi um dia recheado de boa música, protagonizada por alguns grandes nomes do circuito português.  

A insolência ténue de Nuno Prata foi sonorizada pela guitarra sempre compassada e a sua voz indiscretamente discreta. Percebe-se sem equívoco a intenção astuciosa de ferir, de desmascarar e escrutinar a putrefação vigente à sua volta. Digo à sua volta pois, a postura que apresenta é de quem pouco se quer imiscuir nos ultramares da sociedade que observa, descreve e conhece como a palma das mãos, porém, que se recusa a experimentar. Sujeito alienado, de chinelo no pé e t-shirt sem qualquer estampagem, Nuno Prata não nos entra casa adentro mas faz-nos cócegas na consciência e a vontade descontrolada de rir parte, isso sim, daquilo que – quando damos por nós – estamos a reparar que  há algures cá dentro, em recônditos locais que mais nos convém disfarçar que acarretar. Registo constante e harmonias convergentes, porque o que mais importa é a apreensão da mensagem. Despediu-se com cavaquinho e desgostoso por não poder ficar por cá.

Capitão Fausto chegou e esforçou-se por merecer a continência. O recinto do Palco Eira ficou bem composto para dançar a mocidade e a descontração. Não foram poucos os presentes que mostraram dominar com facilidade algumas das letras que mais ficam no ouvido, como são os casos de Música Fria, Teresa e Supernova. Talvez porque estão despertos para o perigo da repetibilidade e da monotonia provenientes dos riffs mecânicos das guitarras e do dance exaustivo da bateria, os Capitão Fausto deram também lugar à experimentação. Anunciaram para breve a gravação do novo álbum e deixaram-nos com um cheirinho. Adivinha-se algo mais mesurado e com silêncios à mistura.

Sem as mães cá para nos recomendar que levássemos agasalho, fomos, desprotegidos, interpretar (ou tentar) a vagabundagem do verdadeiro Filho da Mãe. Um irresignável órfão desta progenitura que é comum a todos (a nação), Rui Carvalho teve mudez suficiente para falar quanto bastasse. As imaginárias barreiras que se erguem perante um formato 100% instrumental foram ultrapassadas com distinção. Num estilo que, lá no fundo, está de mãos dadas com o que já testemunhámos de Nuno Prata, a destreza e agilidade são condições indispensáveis para albergar com uma só mão largos centímetros de braço de guitarra. Filho da Mãe tem de facto umas grandes e afiadas unhas, em ambos os sentidos. Precisa de umas, por um lado, para fazer soar com sucesso as sequências de arpejos arrepiantes e impossíveis de acompanhar a olho nu. Por outro, esperemos que não lime ou sequer corte aquelas unhas que, com Moscatel à mistura, lhe permitiram apelar ao descontentamento da plateia para com as incidências lá fora, nesse universo da demagogia e da inabilidade. Certamente houve quem saísse deste concerto com a leve perceção de ser ignorante com uma guitarra nas mãos: que me atirem a primeira pedra.

A Naifa era um dos concertos mais aguardados do dia. No final, percebeu-se bem porquê. Cem Soldos vestiu de preto para navegar pelos labirintos saudosistas que a tão querida guitarra portuguesa motejou, com o complemento da voz sublime de Maria Antónia Mendes. Poderia escorrer mais tinta sobre este assunto mas, prefiro escusar-me de qualquer risco de incompetência e deixar-vos com as palavras de quem sabe o que diz.