Não acreditemos em tudo o que nos querem fazer crer. Sim, vivemos uma conjuntura de que não nos podemos gabar; sim, já não dependemos só de esforços caseiros para sair dessa mesma conjuntura; mas, naquilo que ainda não nos cortaram as pernas, estamos aí para as curvas. Falo do panorama cultural português. Falo da tradição e do património histórico. Enfim, falo das feiras regionais em Portugal.

E, quando digo que não nos cortaram as pernas, acabo naturalmente por roçar a ingenuidade, ou não tivéssemos também preterido um ministério tão importante como o da Cultura. Falo no plural por culpa do sentimento de pertença.

A erradicação de alguns dos direitos das gentes pelo menos ainda não atingiu esta área. Já temos vindo a observar a forte jovialidade que os festivais de música tem emprestado ao país, até porque continuamos a revelar proatividade e desembaraço para acarretar desafios de grande porte. Passou-se isso na EXPO’98, no EURO’04, na cerimónia das Sete Maravilhas do Mundo. Nestes casos, trata-se, como se sabe, de recetividade ao exterior e de acolhimento de projetos em que nos assumimos como anfitriães. Contudo, outros eventos se realizam no sentido de promover o país, sem terem que se atravessar fronteiras.

Temos os exemplos mais notáveis da Expofacic e da Feira de S. Mateus. Autênticas desecandeadoras de uma azáfama que é tão necessária ao sujeito comum, estas feiras, respetivamente realizadas em Cantanhede e Viseu, devolvem às zonas menos citadinas do país a visibilidade e o fôlego de que estas cada vez menos beneficiam. Uma feira como a de S. Mateus, que se prolonga por 45 dias, é uma arma extremamente eficaz na reafirmação das práticas, das vivências e da identidade histórico-cultural da cidade de Viseu. São 619 anos (este ano é o 620.º) de uma narração que, mesmo logrando da inovação constante, se mantém fiel ao que representava nos primórdios: “a paz e a concórdia, o convívio, o comércio, o encontro com gentes de diferentes culturas e gerações, as histórias, a música e o espetáculo, as danças e os cantares” são um legado da ancestralidade que, felizmente, não aparenta estar em vias de extinção.

A Exposição-Feira Agrícola, Comercial e Industrial de Cantanhede (Expofacic) remonta ao ano de 1991 e assume-se como um arraial onde não há pratos do dia, já que a versatilidade é palavra de ordem. A vigésima segunda edição, já realizada este ano, contou com um cartaz variadíssimo que deu também lugar a artistas estrangeiros.

Tanto uma como outra, estas feiras não vêem a sua serventia restringida apenas a um ou outro elemento cultural. A divulgação da música faz-se diligentemente, virando-se atenções para autores lançados, como também para outros alvos do anonimato. Bem sabemos que o turismo é uma das nossas maiores fontes de receitas. Todos os verões somos “invadidos” por milhares de turistas vindos de todo o mundo. E isto tudo só porque temos uma coisa que muitos têm em falta, horas de sol.

Assim, e sabendo que podemos contar com a presença da estrangeirada toda, há que se preparar um dispositivo vasto e apelativo de difusão da cultura nacional. Não podemos somente contabilizar as exportações de um ponto de vista económico. Este tipo de iniciativas, exporta, pelas bocas de quem por cá passa, quantidades incríveis de prestígio e fascínio. A longo prazo, este tipo de mercadorias espirituais pode traduzir-se em prosperidade, ao atrair capital financeiro e humano. Quem fala na música, fala nos produtos regionais que, invariavelmente, são também uma das atrações deste tipo de certames. O bom português sabe, com grande convicção, que na gastronomia ninguém nos bate.

Mais do que dias de descontração e festarola, estas feiras são janelas de oportunidades inequívocas. Como já antes mencionado, está em jogo toda uma redinamização da alma do interior e da ruralidade, também fruto da descentralização da atividade cultural e artística. O fenómeno português da bicefalia que confere hegemonia às cidades de Lisboa e Porto, é aqui desafiado, ainda que tenuemente, por uma lógica centrífuga que outorga a outras zonas maior atratividade e, consequentemente, maior investimento de agentes económicos provenientes de outros pontos do território.

Além destas duas feiras, temos ainda outros exemplos de sucesso como o caso da EXPOH, levada a cabo em Oliveira do Hospital, e a Ovibeja. Conceitos bastante distintos, mas nem por isso divergentes. Independentemente do produto a que se queira dar destaque, o importante é que continuemos a assistir a iniciativas deste foro, que sirvam para combater o isolamento e incitar a miscigenação.

Num país que, ao contrário do que se diz, tem vários recursos à sua disposição, especialmente humanos, importa criar os meios para colmatar as baixas densidades populacionais e depauperamento das áreas menos urbanizadas, por exemplo através da execução de eventos  ligados ao desporto, incitando à mobilização das camadas mais jovens, ou à introdução e incrementação de infra-estruturas tecnológicas.

Haja alguma coisa que nos regozije!