Nova-Iorque. Um apartamento. Um casal: ela pintora, ele ex-ator. Ela crente na filosofia budista; ele crente nas palavras ambientalistas de Al Gore. Têm um presente em comum, mas sem perspetivas de futuro: vivem o seu último dia na Terra. Em breve todo o planeta será destruído, sem hipótese de fuga. A trama de 4:44 Último dia na Terra gira em torno deste casal, Cisco e Skye, e na forma como lidam com as últimas horas da sua vida.

Enquanto ela vai pintando ao som de oradores das filosofias budistas, alheia e aparentemente despreocupada, ele tenta comunicar com a filha que está longe ao mesmo tempo que vai falando com os seus amigos, numa espécie de despedida coletiva. Aliás, a personagem de Cisco é a que mais sofre com a iminente devastação, sendo que Skye não parece acreditar muito nessa possibilidade.

No exterior, o dia começa por ser calmo; mas à medida que as horas passam o caos aumenta: pessoas suicidam-se, refugiam-se na religião, saem para as ruas desesperados e  outros preferem ficar com aqueles que amam.

Ao longo do filme vão-se percebendo as diferenças entre o casal, não apenas de maturidade, mas também de crenças e ideais, mas que no fim são esquecidos em prol de um acontecimento maior, o qual querem passar juntos.

O núcleo da trama é composto, essencialmente por Cisco e Skye, mas existem outras personagens que interagem com ambos. Destaque para a cena em que um entregador estrangeiro entra no apartamento com uma encomenda de comida chinesa e pede para usar o Skype. Assistimos a uma emocionada despedida entre a sua numerosa família e ele próprio que, por estar longe, irá morrer sozinho.
As últimas sequências do filme são compostas por excertos de imagens reais de todo o mundo e do início da destruição da Terra. Tudo termina com o casal deitado sobre a obra na qual Skye esteve a trabalhar o dia inteiro; cada um acreditando num destino diferente.

Infelizmente o assunto do fim do mundo é tão fantástico que já se tornou cliché e este filme não acrescenta nada de novo ao tema. O argumento não só é fraco como prejudica os personagens: os atores Willem Defoe e Shanyn Leigh pouco puderam fazer para o tornar interessante. Contudo se, no geral, o filme “vê-se” é exclusivamente por causa deles. Relativamente à realização denota-se iluminação de fraca qualidade e alguns planos, francamente amadores ( a não ser que fosse esse o objetivo), porém há cenas perfeitamente bem filmadas.

Não se pode evitar a comparação ao Melancolia: ambos sobre o mesmo tema, com um núcleo de personagens muito escasso e com diálogos mais ou menos confusos. Contudo a nível de execução o filme de Lars Von Trier distancia-se pela inteligência da direção de fotografia e mestria nas interpretações de Kirsten Dunst, Kiefer Sutherland e Charlotte Gainsbourg. Há ainda uma subtileza neste filme que não se encontra em Abel Ferrara: que retrata os acontecimentos e as relações humanas de forma crua e dura, roçando por vezes a completa falta de razão. O que por um lado é bom, pois dá uma ideia da reação do ser humano na hora de enfrentar a morte. A cena em que Cisco observa as diferentes atitudes das pessoas em seu redor é um exemplo perfeito disso.

No geral, 4:44 Último dia na Terra é um filme com um tema apelativo, atores de qualidade, mas uma abordagem francamente desinteressante.

5/10

Ficha técnica:

Título Original: 4:44 Last Day on Earth

Realizador: Abel Ferrara

Argumento: Abel Ferrara

Elenco: Willem Dafoe, Shanyn Leigh, Natasha Lyone, Paul Hipp, Dierdra McDowell, Triana Jackson, Trung Nguyen

Género: Drama, Fantasia, Ficção Científica

Duração: 85 minutos