Prometeu-se e não se fez. Voltou a prometer-se e ninguém viu nada. Do ridículo ao absurdo, é assim que vai a privatização da RTP, longe de conhecer um desfecho sem ambiguidades. Agora as ideias já são outras: privatizar sem que se privatize. A cepa está mesmo torta e não há como sair dela. Há telenovelas mexicanas que tem muito menos para contar.

Pedro Passos Coelho não foi manso quanto ao seu posicionamento em relação à comunicação social pública: «O Estado não precisa de jornais nem de televisões». Desde aí já se passaram dois anos. Mais recentemente, há coisa de umas semanas, Miguel Relvas, a quem supostamente foi delegada a tarefa de comandar todo o processo, em parceria com o Ministro das Finanças Vitor Gaspar e António Borges, assessor das privatizações, apontou as despesas com a RTP durante o corrente ano como factor mais importante para a desapropriação do canal pelo Estado – segundo o próprio, as mesmas rondavam cerca de 500 milhões de euros.

Aceita-se que se queira cortar na despesa. Aceita-se uma reformulação que permita aos cofres do Estado andarem mais folgados. Até a própria ideia da privatização, apesar de irrisória, já se ia engolindo. Muitos, provavelmente, já estariam a lançar dados ou a consultar bolas de cristal para saber qual seria o próximo sector a ser extraviado. Mas, não chega já? Este Governo, desde que assumiu o poder, abriu uma época de rebaixas e promoções. E, com isto tudo, mais depressa do que contamos, lá vemos a nossa soberania a correr para mãos alheias. É que esperar pelo ano de 2640 ainda é um esticão!

Para não destoar daquilo que tem sido postura fiel do Governo, esta situação carece de transparência e delimitação. Pelo que se sabe, os 500 milhões que Relvas falou estão a léguas de corresponder à realidade. Mais grave, e assumindo que as despesas com a estação pública são de facto insuportáveis, é aquilo que foi noticiado pelo SOL ainda há dois dias: “baixos custos da RTP são trunfo na venda“. Ao que parece, os 306,6 milhões (e não 500) que foram despendidos pela RTP são mais baixos que a média europeia em 59,4%. Vamos lá ver se eu percebi. Ora, gastamos muito dinheiro com a RTP, o melhor é vendermos isto e está a andar. Temos mais com que nos preocupar do que prestar o serviço público que nos compete. Mas, os custos operacionais da RTP são atrativos ao investimento estrangeiro porque na Europa não há mais baixo. Resumindo e concluindo, quer se gaste pouco, quer se gaste muito, o resultado final será sempre o mesmo: vender. Faz sentido.

Para o Governo social-democrata privatizar equivale a vender uma licença. Basicamente, o objetivo é alienar a licença do canal 2, mantendo o canal 1. Se assim for, aquele que permanecer na esfera pública (neste caso o 1) será alvo de restruturação. Por outro lado, há a hipótese de venda da licença da RTP e a consequente fusão da RTP 1 com a RTP 2. Especule-se acerca da segunda possibilidade: a RTP 1 e a RTP 2 são, a nível nacional, os únicos canais que oferecem variedade e qualidade de programação. Claro está que a lógica reinante não é a do lucro desenfreado e da satisfação dos apetites capitalistas. Uma aliança de conteúdos entre os dois canais teria as suas vantagens.

No entanto, esta alienação da licença da 2 resultará na criação de mais um canal comercial. Com o mercado publicitário em recessão, o  resultado desta bagunçada toda vai ser uma crise descomunal junto dos privados estabelecidos, o que resultará facilmente em perda de postos de trabalho e retração do investimento em produção nacional. E, se é para privatizar, que depois não se venha renacionalizar, num processo à la BPN da comunicação social, para impedir o colapso do mercado mediático nacional.

Mesmo desvalorizando, apenas por breves instantes, idiossincracias e convicções ideologico-políticas, o Governo liderado por Passos Coelho nunca ficará bem na fotografia. A sagacidade e escamoteamento têm sido peças fundamentais no xadrez da bancada direitista. Bem ou mal, se é para se fazer alguma coisa que se faça. Mas, de uma vez por todas, que haja clareza em vez de manipulação. Porque tudo isto não passam de manobras de distração. Não fiquemos surpreendidos se, dentro de alguns dias, estas verosimilhanças todas sejam desmentidas em público e substituídas por outras iguais ou piores. As pessoas já não sabem em que hão de acreditar. Também não é de admirar, já que nem o próprio Governo sabe o que está a fazer.