Encadeada pelo O Sole Mio que ecoou pelo campismo, pela voz dum inspirado metaleiro, a noite do primeiro dia cessou, provando que o heavy metal ainda é feito de eruditos e virtuosos. Características ainda pubescentes na estirpe do dia 2. Curiosa a quantidade de pais que acompanharam os filhos para ver a banda anarquista, militante e ateísta, Arch Enemy, cabeças de cartaz da segunda noite do Vagos Open Air.

O festival arrancou com Mindlock, que aqueceram os músculos do público com o thrash/death incansável de Enemy of Silence. Serviram como chamariz para os que aguardavam na tenda pelos “chinesinhos”, termo carinhosamente usado para a surpresa do festival: Chthonic, banda de death / black metal de Taiwan. A sua peculiar fusão de instrumentos da música taiwanesa com metal ficou bem patente e equilibrada num concerto enérgico, robusto e de comportamento rock star, que surpreendeu e convenceu os presentes.

Seguiram-se os Textures, banda referência dos Países Baixos, que se afundaram na sua própria teia de poliritmos e cadências elípticas, aborrecidas e desinteressantes. Apoiadas por momentos melódicos algo desconexos, passaram a soar à sineta para o jantar.

Excelente aperitivo foram os Coroner, banda camaleónica no seu thrash metal. Experimentais ou progressivos, cerebrais ou musculados, foram um constante desafio para os ouvidos atentos às mudanças rítmicas e aos ambientes longos e de cadência viciante. Com o público de apetite bem esfomeado e depois de um sound check longo e penoso, chegou o verdadeiro festim: Overkill.

Os norte-americanos cantam o que de melhor há no metal: união e festa. E este concerto nada mais foi do que somente isto: celebração. Eléctricos, contagiaram com o seu ritmo desenfreado e sarcástico. Blitz Ellsworth é um excelente anfitrião que não perde uma para atacar a molenguice da plateia e proclamar a energia dos seus 53 anos. Temas como Elimination, Come and Get It ou In Union We Stand, foram cantados em uníssono; Old School, a exultação do que é o Vagos Open Air  e a cover dos The Subhumans Fuck You, um escape vociferado a bons pulmões. Um brinde a vós.

A noite terminou com os superstars Arch Enemy. Ao despertar dos ecrãs gigantes, logo subiram às cavalitas os adolescentes e começaram as corridas desenfreadas para chegar ao mosh pit. Respeitados pelos mais velhos, idolatrados pelos mais novos, os Arch Enemy têm vindo a explorar até à exaustão a fórmula do álbum Anthems of Rebellion. Mas isso não lhes retira o mérito da quase perfeição em palco. Mesmo numa noite heróica do baterista, atuou com a mão fraturada,  e com os guitarristas em modo automático (os arranques para os solos foram algo periclitantes), a banda sueca é uma máquina oleada e Angela Gossow uma excelente performer, com a sua atuação detalhadamente pautada.

Ravenous, Dead Eyes See No Future e We Will Rise foram autênticos hinos da rebelião numa noite de alegria e transpiração.

Num ano em que dobrou a presença de estrangeiros no recinto e nas acreditações de imprensa, o Vagos Open Air manteve a exigência e aumentou a qualidade para os campistas. Um festival sem prepotências, modesto e coeso. Saciante para as cerca de 5000 pessoas presentes.