O SW TMN 2012 prossegue e o terceiro dia já ficou para trás. O que não ficará certamente para trás são as recordações de uma noite que é séria candidata a melhor noite do festival. Neste dia 3 de agosto, o Espalha Factos marcou também presença no Palco Groovebox para assistir aos portugueses Best Youth. A noite foi uma escalada íngreme que passou, entre outros, por Richie Campbell, James Morrison e o tão aguardado Eddie Vedder. 

Os Best Youth subiram ao palco por volta das 21 horas, naquela que seria a sua estreia em festivais de música e – adiante-se já – uma estreia com sinal positivo. A vocalista Catarina Salinas esteve em destaque, ao tirar proveito do seu timbre raro e encantador. Durante a sua performance, o trio português demonstrou engenho e inovação, recorrendo variadas vezes a loops instrumentais e vocais. Consciente de que grande parte do público presente poderia não estar familiarizado com os temas, a jovem vocalista, de forma inteligente, procurou apresentá-los, sempre que achou pertinente. Honey Trap foi uma das músicas que mais agitou o Palco Groovebox, com uma audiência que se mostrou naturalmente resguardada e expectante, porém, sempre bastante recetiva e acolhedora. Para fechar, a banda interpretou Hang Out, um tema convidativo e que deixou alguma tristeza por não o poder partilhar com a minha cara metade. Foi um início de noite agradável.

Richie Campbell, que interpreta a conhecida That’s how we roll, foi outro português a passar pelo terceiro dia do Sudoeste TMN, desta vez no Palco TMN. O artista de reggae trouxe uma convidada especial, vinda diretamente da Jamaica.

Mais tarde, a dez minutos das onze da noite, o britânico James Morrison voltou a pisar um palco português, isto depois de recentemente ter atuado nos coliseus de Lisboa e Porto (a 27 e 28 de Março, respetivamente). Beautiful Lie foi o tema eleito para a abertura do concerto. Como já é habitual, James Morrison contou com a ajuda de duas backvocals. Não foi preciso ir mais longe que a segunda música para que se percebessem as primeiras gotas de suor a correr pela testa do cantor. In My Dreams foi interpretada em jeito de homenagem a todos aqueles que já sentiram o sabor amargo da perda de alguém próximo. You Give Me Something, I Won’t Let You Go e Broken Strings foram as principais culpadas pelo entusiasmo do público. Mal esta última começou a soar, de um lado e de outro podia ver-se a correria desenfreada das falanges femininas.

Ainda assim, a dada altura, sem querer acreditar no que eu próprio estava a “desejar”, dei por mim a perguntar-me onde estaria o raio dos cartazes e histerismos tão vulgares neste tipo de concertos. Encontrei resposta momentos mais tarde. E este foi, de facto, um ponto a favor de James Morrison. É que, ao contrário do ambiente intimista e casaleiro embebido no concerto do Coliseu dos Recreios, na noite de ontem o cenário foi construído em contornos bastante mais festivos, havendo espaço para maior descontração por parte da multidão. Esta foi inúmeras vezes convidada a ripostar às vogais que James Morrison harmoniosamente ia soltando de improviso. Em You give me something, os gentis namorados fizeram o favor de ceder caprichosamente os ombros às suas amadas. A voz multifacetada de James Morrison esteve perto de ser abafada pelo cântico uníssono da plateia.

«Continuem a acreditar que este é um mundo maravilhoso», foi o apelo deixado pelo britânico, que terminou assim a sua prestação com Wonderful World. Apesar de ter tido o discernimento de adaptar o estilo da sua performance a um concerto de festival, James Morrison acabou por ser um tudo-nada repetitivo, não só nalguns gestos (como foi o caso do levantar da t-shirt na despedida do público) como também no alinhamento reproduzido. Fora essa sensação de réplica em relação aos concertos dos coliseus, foi um concerto que decorreu dentro da normalidade, longe de ser exorbitante mas suficiente para preparar a plateia para o que viria de seguida.

Eddie Vedder viria a entrar em palco, grandemente ovacionado, minutos depois da meia noite e meia. Desde cedo se tornou perceptível que seria sob o signo do acústico e da singeleza que o concerto se desenrolaria. Eddie Vedder não precisou de mais que um pequeno estrado, em forma quadrangular, para protagonizar um espetáculo que atingiu as duas horas. Para melhor sintonizar o leitor com a atmosfera que pairou sobre o recinto do SW TMN durante este período, passo a vestir a pele de Eddie Vedder, que teve a humildade e generosidade de trazer para o palco algumas folhas A4 para ir comunicando em português com os presentes. «Estou muito feliz de estar de volta a Portugal. Nunca toquei para tanta gente sozinho. Convosco aqui não me sinto só». A abertura do concerto foi feita com dois dos temas do mais recente álbum do artista americano, Ukelele songs.

Depois disso, o ukelele foi pousado e substituído pela guitarra acústica. Elderly Woman Behind the Counter in a Small Town e I Am Mine, dos Pearl Jam, foram algumas das interpretações que antecederam a troca pela guitarra elétrica. «Desculpem-me por, por vezes, ter de falar em inglês. O meu português é uma bela merda». É verdade que muito do seu discurso foi previamente definido, mas é de assinalar o seu esforço para que se falasse apenas uma língua.

Durante o espetáculo, o vinho alentejano da Cartuxa foi uma das companhias preferidas do vocalista dos Pearl Jam. Propôs, inclusive, vários brindes. Pena que não tivéssemos também uma garrafinha connosco. Além dos instrumentos já mencionados (ukulele, guitarra acústica e elétrica), houve também oportunidade para assistir Eddie Vedder tocar harmónica e utilizar a pedaleira que tinha junto a si. Just Breathe veio trazer um ar ainda mais fresco e respirável, tendo sido fielmente entoada pela grande maioria da plateia. Chorou-se baba e ranho e houve entrelaçar de mãos.

«Isto são as canções do Into the Wild». Entre outras, destacou-se Guaranteed, uma das principais faixas do filme cuja banda-sonora é da responsabilidade de Eddie Vedder. Immortality e Better Man fizeram também parte do repertório “emprestado” dos Pearl Jam, sendo que esta última foi tocada com uma versão modificada mas nem por isso menos aclamada. Fez uma pausa para nos contar uma história que passou. «Certo indivíduo disse-me que eu não existia depois de lhe ter oferecido uma harmónica. Ultimamente tenho pensado acerca disso, acho que ele tem razão: será que isto é tudo um sonho? Muitas vezes, as coisas que vivo não me parecem reais. Estar aqui com vocês nesta noite, isso dá-me a certeza de que eu de facto existo».

Depois de uma despedida notavelmente teatralizada, Eddie Vedder regressou ao palco para o primeiro encore da noite. Ainda sozinho, trouxe-nos Last Kiss. Isto porque, depois disto, chamaria ao palco o seu convidado especial, com o qual já tinha também tocado no fim da tarde de ontem. «Quero apresentar-vos o meu grande amigo e colega de estrada Sr. Glen Hansard». Lado a lado, tocaram e cantaram Society, Sleepless nights ou Falling Slowly (de Glen Hansard). Num momento a roçar o épico, Eddie Vedder fez malabarismo com loops infinitos, onde, sem acompanhamento de qualquer instrumento, provou a sua excelência vocal, sem desafinar uma única vez. Tudo parecia apontar para o final do concerto. Mas não.

Ainda havia genica para mais. «Vou amanhã para casa. Esta é uma despedida da tour». E que despedida! Com a ajuda do precioso papel, Eddie Vedder fez alguns agradecimentos e reuniu mais alguns aplausos. Keep on Rocking in a Free World, original de Neil Young, seria mesmo a última música do concerto. Apesar de uma falha técnica da parte das mesas de som – que ainda assustou – Eddie Vedder conseguiu terminar com chave de ouro, e com alguns cambaleios (esta nossa uva!).

Depois da monotonia em Ben Harper, assistimos a um desfile autêntico de talento e maturidade, proporcionado por um verdadeiro senhor da música. Eddie Vedder foi perspicaz ao protagonizar um concerto bem doseado, onde não caiu na mesmice e onde coube um alinhamento abrangente. Qualidade para dar e Vedder.

Fotografias por Raquel Cordeiro e Daniel Lopes / SAPO