O autor destas linhas é suspeito. Por duas razões. Em primeiro lugar, porque um dos temas que prefere ver abordados em cinema é precisamente a guerra, os grandes conflitos que opuseram nações ao longo da História, e o frágil lugar que o indivíduo ocupa em tal contexto. Invariavelmente, o indivíduo é um ser martirizado, um lutador contra forças que o ultrapassam, uma insignificância perante a inevitabilidade dos acontecimentos, não raras vezes à procura de redenção.

Em segundo lugar, porque este escriba acha que Christian Bale é, a par de Daniel Day-Lewis, o grande ator da atualidade. Bale é um artista fenomenal, um portento da representação, um talento puro – e para tal nem precisaria de voar mascarado sobre Gotham City.

Com Bale como grande força motriz do filme, Zhang Yimou destapa o véu sobre os dias que se seguiram à queda de Nanjing, aquando da segunda guerra sino-japonesa, em 1937. A brutalidade das forças japonesas sobre a população civil da cidade ficou para a História como o “Massacre de Nanjing”, no qual se calcula que cerca de 300.000 pessoas tenham sido selvática e impiedosamente assassinadas pelos militares japoneses em escassas semanas.

Deixando para outro contexto as habituais discussões advindas da seletividade da memória histórica, é justo afirmar que Yimou soube, através da conhecida propensão para a espetacularidade na sua forma de filmar, abrilhantar o sofrimento dos habitantes da cidade às mãos dos invasores e, em especial, do heroísmo de alguns dos soldados chineses. Yimou não desbaratou inutilmente o maior orçamento que até agora teve para realizar, perspetivando de forma equilibrada o que facilmente se poderia tornar num chorrilho de cenas de ação superficiais.

É um olhar interessante sobre o conflito, um dos muitos exemplos de sacrifício e altruísmo que despontam no meio da barbárie. Neste caso, assiste-se ao delapidar de uma relação entre um grupo de órfãs protegidas por uma igreja católica local e um grupo de prostitutas que aí procura refúgio. A metamorfose torna-se a cadência lógica perante a ameaça dos soldados nipónicos às órfãs, e subsequentemente perante a perspetiva de uma violação após um convite para cantar numa festa com oficiais. Num gesto que encarna toda a dimensão humana do filme, as prostitutas fazem-se substituir às meninas e seguem para um destino que sabem ser cruel.

O argumento, não indo além de uma receita há muito conhecida e experimentada, é convincente e tocante, mostrando que mesmo no meio de um indizível pesadelo como foram aquelas semanas, há lugar para a beleza, que teima em sobreviver e fazer sobreviver. É, em suma, um olhar circunspeto sobre o agigantar do gesto humano perante a miserável condição dos seus pares. As Flores da Guerra não é de todo uma obra-prima mas é, no mínimo, um objeto apreciável, portador de uma mensagem de esperança que se não pode ignorar.

7.0/10

Ficha Técnica:

Título original: The Flowers of War

Realizado por: Zhang Yimou

Escrito por: Heng Liu, Geling Yan

Elenco: Christian Bale, Ni Ni, Zhang Xinyi, Huang Tianyuan, Tong Dawei, Atsurô Watabe

Género: Drama/Guerra

Duração: 136 minutos