Os Murdering Tripping Blues lançaram recentemente o álbum 1st Time In Color, um disco composto por temas gravados ao vivo e que tem o objetivo de captar a força da música do trio português em cima do palco.

EF – Estiveram recentemente na Holanda, onde atuaram ao vivo, como é que foi essa experiência de tocar lá fora?

Henry Leone Johnson – Foi muito boa. Já tinhamos estado em Espanha e esse era o sítio mais longe onde tinhamos ido tocar. Mas agora na Holanda temos os nossos discos lá à venda, também na Alemanha e no chamado Benelux, e então fomos lá promover os álbuns. Tocámos em dois festivais e correu bastante bem. Não éramos cabeças de cartaz e o público demorou um bocado a entrar no nosso espetáculo, mas depois foi bom e foi sempre a abrir. Tivemos essa experiência de tocar num país talvez mais frio que os latinos e as pessoas receberam-nos bem.

EF – Agora com concertos lá fora e o lançamento dos álbuns no estrangeiro, é vosso objetivo tornar a banda mais internacional?

Henry – Nunca vimos as coisas só como território nacional, porque estamos na Europa e pensamos no estrangeiro também. É claro que somos portugueses, começámos primeiro aqui e tinhamos de ver se a banda funcionava bem ao vivo. Fomos tocando cá, ficámos mais consolidados musicalmente e já há alguns anos que temos vindo a arranjar contactos lá fora. Agora estão a surgir os frutos desse trabalho e dessa procura de contactos no estrangeiro, principalmente no território europeu.

EF – Agora estão de volta a Portugal para um concerto no Ritz Clube, em Lisboa, onde tudo começou. Como é que é a história dos Murdering Tripping Blues?

Henry – Em 2005 fiz uma maquete com um amigo meu, mas depois estive fora e quando voltei decidi pegar nesse projeto e com o Johnny Dynamite (bateria) começámos a ensaiar. Encaixámo-nos bem, guitarra e bateria, lançamos essa maquete, o EP Blah Blah Bang, fomos tocando ao vivo, atraíndo mais a atenção das pessoas e surgiram mais concertos. Depois editámos o primeiro álbum, Knocking at the Backdoor Music, já com a Mallory Left Eye nos teclados.

Mallory Left Eye – E foi nessa altura do primeiro álbum de originais que fomos também a Espanha.

Henry – Sim convidaram-nos para tocar num festival e fomos lá. Mas sim, foi em Lisboa que tudo começou. Na altura quando tinha essa primeira maquete deixei um anúncio num site de música à procura de um baterista e o Johnny Dynamite respondeu. Encontrámo-nos e o primeiro ensaio até foi aqui no Bairro Alto, num estúdio havia lá. Nesse sentido sim, foi mesmo no centro de Lisboa que tudo começou.

EF – O vosso mais recente álbum, 1st Time In Color, tem temas tocados ao vivo. Como é que foi fazer essa passagem de um disco de estúdio para a gravação de um concerto ao vivo?

Mallory – Nós procuramos sempre gravar os concertos até para ouvir o que fazemos e avaliar a atuação, até porque nos ajuda a crescer. Esse disco tem temas do concerto que gravámos em Paredes de Coura e mais uma faixa bónus gravada também ao vivo. Anteriormente já tinhamos gravado um outro concerto, mas gostámos mais do de Paredes e decidimos fazer o disco porque tinhamos de ter o projeto para a apresentação da caixa com os outros dois álbuns.

Henry – No disco ao vivo nós quisemos transmitir a experiência do concerto, pois acaba por ser sempre diferente. No estúdio já acaba por ser ao vivo, mas não há pessoas a manifestarem-se e então a experiência ao vivo é diferente porque nós também reagimos ao público. Desse modo queríamos «imortalizar» isso  num disco e Paredes de Coura pareceu-nos o concerto ideal no sítio ideal.

EF – No processo criativo da vossa música, a guitarra é o ponto de partida para a composição ou isso pode vir também das letras ou de um ritmo de bateria?

Henry – No início, 100% da composição da nossa música vinha da guitarra. Depois com o primeiro disco começámos a introduzir o teclado, mas muitas das músicas já estavam feitas. Com o Share the Fire, último disco de originais, é que o teclado já fez parte da composição. Geralmente a ideia dos temas vem de mim e já tenho em mente e imagino os outros intrumentos quando começo a compor na guitarra. Na maioria dos músicas faço uma maquete que gravo em casa, mas há outras que surgem no estúdio ou a partir de um ritmo de bateria ou do teclado.

Mallory – No Share the Fire já foi tudo mais misturado e diferente. Alguns temas partiram da letra e outros foram mesmo trabalhados e compostos dentro do estúdio. Depois vamos explorando as músicas e mudando-as no estúdio. Ao vivo acabamos também por alterar os nossos temas e ficam sempre um pouco diferentes de concerto para concerto.

EF – O vosso estilo é muito de Rock ‘n’ Roll e Blues, mas mais rápido e eletrificante. Onde é que vão buscar as influências e como é que descrevem o vosso som?

Henry – Acho que o estilo foi mudando um pouco ao longo dos discos, mas tem esse lado forte dos Blues que eu gosto de ouvir e que influenciou o rock que fomos ouvindo ao longo dos tempos. É inevitavel ter Blues se tens uma banda de rock. Depois há essas referências e todos nós também gostamos de coisas diferentes e que vai também para outras áreas como o metal ou o jazz, coisas que não são reconheciveis no som que nós fazemos mas que dá identidade à banda. Na composição, muitas das coisas partem de mim e eu ouço coisas diretamente mais influenciadas pelo Blues, Rock ‘n’ Roll, coisas de décadas mais antigas e é claro que isso sobressai nas nossas músicas. Mas nós não vivemos nessas épocas e essas influências mais norte-americanas são também mais no sentido dos ensinamentos da ambiência e do próprio sentimento. Não de um modo lamechas, mas sim uma negritude, não do lado gótico nem do tom de pele mas de ambientes e cores mais negros e alternativos.

EF – Em termos de guitarras e amplificadores, quais são as vossas preferências e se há uma tentativa de conseguir um certo som ou atingir um determinado tom?

Henry – Quando compomos ou experimentamos as músicas não pensamos dessa forma, mas no fundo estamos limitados, não no mau sentido, ao material que temos. Se temos amplificadores de uma certa marca e pedais com efeitos e guitarras diferentes, essa é uma escolha consciente e que nos limita de forma positiva. Sabemos que temos o nosso material e não escolhemos introduzir mais pedais ou efeitos porque é como se tivessemos a atirar para todos os lados, a introduzir muitas coisas e começamos a perder a nossa identidade. Tentamos não alterar muito e não mexer demasidado no nosso som porque sentimos que podemos estar a ornamentar demasiado as músicas e isso estragava um pouco as coisas.

EF – Já estão a preparar um novo álbum, têm músicas novas, quais os planos para o futuro?

Henry – Vamos lançar um novo disco de originais, no qual já estamos a trabalhar e também a preparar o caminho para quando sair tenha mais força tanto cá como lá fora. Um novo álbum acaba sempre por ser diferente, mas não muito, porque tem a nossa identidade. Nós aprendemos muito com os dois discos anteriores. O primeiro foi mais preso às nossas influências musicais e no segundo já quisémos experimentar novas coisas e fizémos isso mesmo. Agora no terceiro vai ser um mix dos dois. Se no segundo fugimos um bocado do formato canção para experimentar mais coisas, agora neste vamos voltar a esse formato canção mas introduzindo o que aprendemos dessas experiências, por isso talvez seja canções mais experimentais.

Fotografia: Andreia Martins