O primeiro dia oficial do SW TMN 2012 foi rico em boa disposição e entretenimento. Para a noite, ficou reservada uma surpresa. Depois de uma receção ao campista calorosa e sugestiva, Ben Harper e outros tantos tinham a tarefa de empolgar o público e convencê-lo de que vale a pena ficar até ao último dia. Ben Howard abriu oficialmente os quatro dias de música. Pelo Palco TMN passaram também Matisyahu, Fat Freddy´s Drop e Marcelo D2, numa noite onde a variedade estilística imperou. Tivemos direito a reggae, blues, soul ou rap.

Foi por volta das 20h15 que o britânico Ben Howard, com a colaboração preciosa da sua banda, pisou pela primeira vez um palco em território português. Para muitos, provavelmente, este não passaria de um simples concerto de abertura, normalmente reservado para os mais pequenos. Assim mesmo o agoirava a dispersão nada entusiástica que se espelhava na periferia do palco, no início do concerto. Tal não se veio a confirmar. Foi apenas preciso esperar pelo mais conhecido tema, Only Love (o segundo a ser interpretado), para que a moldura humana se compusesse mais. Ben Howard apresentou uma banda com versatilidade e arrojo. Exemplo disso mesmo foi uma baixista que, alternadamente – e com a mesma distinção e intrepidez – tomou as rédeas do violoncelo e da percussão.

Ben Howard precisou apenas de uma hora para dar mostras de um trabalho que, embora prematuro, dá bons indícios para o futuro. Tanto o compositor e cantor inglês como os músicos não perderam o sorriso no rosto que contagiou os mais cépticos. Ben Howard partilhou com a plateia um episódio que vivera durante a tarde do dia de ontem: «Hoje fui nadar na praia e o nadador-salvador repreendeu-me dizendo que aquela zona era interdita», disse em tom brincalhão, enquanto afinava as cordas da guitarra. «Fomos à Austrália a semana passada e choveu o tempo todo. Obrigado por nos darem um pouco de sol», agradeceu, emocionando a plateia. Recorde-se que o projeto do artista inglês só em setembro do ano passado foi brindado com o primeiro e único álbum até à data. A insuficiência de repertório poderia ter sido um obstáculo difícil de ultrapassar, porém, Ben Howard usou sem receio a voz, não se tendo limitado a reproduzir ao vivo o álbum Every Kingdom. Foi digno da aprovação que recebeu do público.

Matisyahu veio trazer um ambiente completamente diferente, com um reggae fortemente impregnado de uma mensagem religiosa, não fosse o seu nome artístico significar em aramaico o “Dom de Deus“. O chão tremeu com a ressonância. No final, Matisyahu abriu o palco para alguns elementos da plateia se juntarem e entoarem One Day.

Seria apenas à meia noite e meia que a plateia do Palco TMN poderia saudar o cabeça de cartaz do dia de ontem, Ben Harper. Ao contrário de Ben Howard, aqui a expetativa era grande. O concerto começou como iria, no fundo, desenrolar-se praticamente até ao fim: Ben Harper, sentado, a solar com a guitarra deitada sobre o colo. Don’t Give Up On Me Now e Rock & Roll is Free foram alguns dos primeiros temas a merecer destaque. No entanto, a dada altura, começava a adivinhar-se um concerto excessivamente sóbrio, sem surpresas e sem lugar ao devaneio. O excesso de solos, praticamente presentes em todas as músicas e, por vezes, com maior duração que as partes cantadas, foi um dos primeiros sinais de que as expetativas outrora engrandecidas, estavam prestes a ser dececionadas. A juntar a isso, não deu para passar despercebida a falta de preparação para o concerto. Não foram raras as vezes que se tornou perceptível a insegurança tanto de Ben Harper como dos instrumentistas, especialmente durante as introduções. Não é de estranhar que assim tenha sido: já havia sido noticiado que o artista americano tinha afirmado só escolher o alinhamento à última da hora. Em geral, o concerto foi bastante morno e tímido, apenas refrescado em dois momentos, um em particular.

O público animou primeiramente com Another Lonely Day, porém, foi com a chegada de Vanessa da Mata que os bocejos começaram a retrair-se. Caso para dizer: só mesmo Vanessa para desbravar esta Mata onde Ben Harper se perdeu monotonamente. Fiquei sem perceber de quem era afinal o concerto… Apesar de tudo, a cumplicidade entre os dois artistas foi notável, bem como o respeito do público português pela cantora brasileira.

Já no final da noite, Marcelo D2 entrou em cena para devolver alguma energia ao recinto. Pelo meio houve beatbox, com especial destaque para Seven Nation Army dos White Stripes. Houve ainda quem sambasse em cima do palco, a convite do rapper brasileiro.

Resta esperar que amanhã Eddie Vedder traga um bom perfume a estas bandas.

Fotografias por Raquel Cordeiro/Sapo On the Hop