O terceiro e último dia do Mêda+ confirmou o que já todos esperavam: o festival teve um crescimento fulgurante. Se os dois dias precedentes já tinham sido um sucesso tanto em termos de afluência como de prestações musicais, este desenrolou-se de forma vertiginosamente ascendente até ao seu final apoteótico, especialmente para os mais resistentes que ficaram para a after-party (e atenção que não foram poucos).

Com o mau tempo finalmente banido das imediações da Mêda, a piscina foi rainha ao longo de todo o dia, servindo de antídoto contra o calor abrasador que assolou os campistas. Com uma bomba ou um mergulho de elevada nota artística, toda a gente fez questão de visitar este que é um dos grandes trunfos do festival.

Apesar do supermercado mais próximo ainda ser um esticãozito, isso não impediu os campistas de estarem bem apetrechados de comes e bebes (especial ênfase no “bebes”), num clima convidativo de boa disposição, onde reinou sempre a harmonia. De destacar que a descontracção era tanta que fácil seria perder o foco e deixar-se envolver pelos deleites do álcool e pela amena cavaqueira, mas combatendo essa tentação, este escriba dirigiu-se impreterivelmente ao palco para assistir em condições aos concertos que se seguiram.

Nesta que foi uma verdadeira noite dos “émes”, os presentes assistiram primeiro às bandas MulherHomem e Matilha, companheiras de editora (Movimento Alternativo Rock) e de digressão. Os primeiros atacaram o palco com o seu rock sem pudor e de língua afiada, deixando boas impressões no público que vinha chegando ao recinto. Mas a sua performance ao vivo sofre de limitações técnicas, com as vocalizações em eco a tornarem-se cansativas e especialmente com a falta de um baixo. É que se em CD a coisa ainda se consegue desenrascar com a guitarra a fazer um duplo papel, ao vivo a banda soa amputada e fica apenas num limbo de “quase pesado”. No entanto, temas como Inverno Inverso, Se o Sufoco Falasse, o single Pele Casaco e até uma cover de Chiclete (dos Taxi) fazem antever um futuro auspicioso, caso ultrapassem os problemas referidos. A atitude está lá, especialmente quando o vocalista que assina como Manuel Ferreira (muito bem-disposto e comunicativo, diga-se de passagem) se despede agradecendo à organização e dizendo “a música portuguesa não está viva aqui, mas aí” (dirigindo-se ao público).

Já os Matilha protagonizaram um momento alto no festival com o seu rock de cariz melancólico encabeçado pela voz emocional de . Estabelecendo um contraponto interessante com os MulherHomem, os Matilha não têm guitarra eléctrica, mas quando ouvimos Ausentes ou Só Mais Uma Vez, malhas de grande intensidade, ficamos-nos a perguntar “como é que isso é possível”. Tal feito apenas se torna alcançável pelo peso do baixo de Patrão e pela classe das teclas de Indy (que ainda deu uma ajuda na voz secundária), sendo o seu trabalho não apenas um complemento mas sim um peça central nesta máquina oleada que são os Matilha. A banda finalizou a sua actuação em alta com Feto (que conta com uma adaptação de Mário de Sá Carneiro), surpreendida e totalmente rendida ao público que os veio apoiar com as letras na ponta da língua (e um cartaz, até!), chegando este inclusivamente a cantar “fiquem mais um pouco” quando a banda se despediu.

De seguida subiram ao palco os Mão Morta (por si só já uma vitória para organização). A entidade, ou melhor, o monumento do Rock português conhecido por Mão Morta não sabe dar maus concertos e isso ficou mais uma vez provado na Mêda. Dando início com a melodia febril de Tu Disseste e a alucinatória Velocidade Escaldante, os Mão Morta percorreram toda a sua carreira, tocando os clássicos e as músicas mais recentes, incluindo a nova A Ver o Mar. Com um Adolfo Luxúria Canibal igual a si próprio, a jorrar loucura, raiva, prazer, ânsia, enfim, todas as emoções da psíque humana, houve tempo para Destilar Ódio, percorrer as ruas de Barcelona, Fazer de Morto, brincar com Novelos de Paixão, passear o Cão da Morte e celebrar o Anarquista Duval (estas últimas duas com direito a um mosh raivoso). Para encore, nada como rockandrollar em Budapeste e celebrar antecipadamente o 1.º de Novembro. Já devem ter reparado os leitores que este que vos escreve não fez uma grande análise musical, mas quando se trata de Mão Morta não é tanto uma questão de analisar, mas sim de sentir.

Poderia parecer que a festa iria terminar depois do esgotamento emocional que os Mão Morta provocaram, mas a Dupla Mete Cá Sets encarou o desafio de frente e proporcionou aos que ficaram momentos de grande diversão. Munidos de cabeleiras verdes de palhaço e máscaras de Guy Fawkes, a dupla passou Bryan Adams, D’ZRT, O-Zone e Carl Douglas para meter os presentes a cantar e hits da música electrónica de The Bloody Beetroots, Knife Party e Laidback Luke para dançar, assim como um remix algo inusitado da música de abertura do Rei Leão. A festa durou até de madrugada, num clima de enorme celebração que provocou a subida ao palco dos membros do Mêda+ para dançar.

Resumindo e concluindo, o Mêda+ foi uma grande experiência de música e convívio, provando que com esforço e dedicação podem se fazer coisas de qualidade em Portugal, mais especificamente no interior do país. Não nos esqueçamos também de que se trata de um festival totalmente gratuito. Mas para resumir tudo isto, nada como citar a organização “Para além da enorme afluência, há outro ponto bastante positivo nesta terceira edição: o festival começa a ter a sua própria mística. Quem acampou não nos deixa mentir.”

Pois não.

Fotografias: Rita Sousa Vieira