Ele há qualquer coisa…” em Miguel Araújo Jorge. A melodiosa voz, as letras poderosas, o instrumental perfeito. E uma capacidade magnífica de cativar quem o ouve, com toda a sua franqueza e humildade. Meses após o lançamento do seu primeiro álbum a solo, anda agora a passear pelas FNACs do país e a espalhar a sua magia em acústico, de “banquinho e violão”. O melhor fim de tarde de verão.

Pouco passava das 18 horas quando Miguel Araújo – como a crítica o conhece – subiu ao pequeno palco do café da FNAC Chiado. Já o tinha pisado para ajustar o som da voz e da guitarra, mas só agora se ouvem aplausos e uma sala a encher, a conta-gotas. Uns verdadeiramente interessados no artista, outros a aproveitar, simplesmente, a cultura gratuita que Lisboa oferece; outros ainda a ler o jornal e a tomar café, como se nada fosse. Uma senhora perguntou-me, mais tarde, se ele não tinha sido dos Gato Fedorento. Pois, não.

Aos poucos, no entanto, todos se foram interessando pela simplicidade que emanava do palco. Miguel Araújo vagueou por temas que o grande público não conhece tão bem – ou desconhece, pura e simplesmente, dado que apenas Os Maridos das Outras tem recebido a merecida consideração. Estes pequenos concertos, intimistas, servem sobretudo para dar a conhecer um álbum, o que acaba por ser um ponto muito positivo neste caso, quando se tem tanto para dar.

Da primeira canção que escreveu na vida, a bela Desdita – que tem tanto de Rui Veloso na letra e naquela harmónica –, à Canção do Ciclo Preparatório, que o faz suspirar por Patrícia, passando pela sátira aos revivalistas dos anos 80 com Fizz Limão. (Realmente, Olá… se atentarem na letra vão perceber que não é a melhor publicidade.) Vai dançando pelas notas, num acústico que cai muito bem nas canções. E aquele banco demasiado giratório não é suficiente para o desconcentrar.

Meia hora de showcase, preenchida com nove canções escritas por si. Não faltou a desconhecida, mas não menos magnífica, Sete Passos (Carolina), “e eu parado numa esquina a contar os passos dela”. Nem uma que ficou fora do álbum e que compôs para Os da Cidade, também com uma versão de Luísa Sobral, presente na assistência nesta tarde de domingo: O Pica do Sete, que não existe no Porto nem em lugar nenhum, mas que fez um coração voltar a sonhar. Todos os que ouvem a canção, arriscaria dizer.

Curioso é que nunca pensamos nele apenas como cantor, pois é esta sua veia artística de compositor de canções que mais salta à vista. E uma das primeiras músicas que trouxeram o seu nome à ribalta foi mesmo Reader’s Digest, interpretada pelo fadista António Zambujo, que Miguel Araújo optou por incluir também em Cinco Dias e Meio. Mulheres já foram pedidas em casamento ao som do seu “ter mulher fiel, filhos, fado, anel, e lua de mel em França” (facto!). Maravilhoso.

httpv://youtu.be/awtfDHi00NM

O Capitão Fantástico, herói da sua mãe, que foi à Lua mas não achou grande piada, é também o nosso Miguel, que encanta com a voz e as suas Matérias do Coração, cujo botão não consegue desligar – e, para nós, ainda bem que assim é. Muito coração naquelas canções, muita alma. E um uníssono final em Os Maridos das Outras, a compensar o silêncio mantido pelo público ao longo do pequeno concerto.

Miguel Araújo não é de muitas falas, escolhe bem as palavras e delicia com o humor simples que transmite. Nas canções, porém, a palavra é a sua arma e a voz é apenas uma forma de a exprimir. Já o tínhamos descoberto n’Os Azeitonas, a solo torna-se ainda mais especial. De olhos fechados, imerso nas suas canções, a ligação com o público é inexplicável. É Miguel Araújo Jorge, decorem o nome dele. Das FNACs para o mundo.