Ao contrário do que se esperava, o segundo dia do Mêda+ começou bem cedo. O cansaço da noite de quinta-feira saiu derrotado na batalha contra a boa disposição e descontração dos festivaleiros. O bis da trovoada ainda assustou mas a noite viria a ser imaculada em todos os sentidos. Às 23 horas, O Bisonte entraram em cena para acabar de vez com o silêncio, que só regressou com os primeiros indícios do sol matinal (e, mesmo assim, não se lhe pode chamar silêncio). 

Atenção: a leitura deste artigo contém material nocivo. Por favor, tenha em consideração que o autor desta reportagem tem muitas horas de dança nas pernas e os sonos trocados. Obrigado.

O espreguiçar foi penoso mas fugaz. A piscina abriu às dez da manhã e encheu num estalar dedos. A água e o cloro foram os elementos mais recomendados para se proceder à reciclagem humana: a sensação foi libertadora, o corpo ficou limpo e o espírito renovado. Estar nas tendas era completamente utópico, não só pelo ar abafado como pelas gargalhadas que passeavam lá fora, de fazer inveja a qualquer um.

Se ainda havia dúvidas acerca da prestabilidade e dinamismo do concelho da Mêda, foram definitivamente dissipadas durante o dia de ontem. Os estômagos vazios já se faziam ouvir mas a solução estava à porta. Diz que ainda é possível comer bem e barato: um hamburguer no prato, com bebida e duas bolas de gelado para adocicar a boca arranja-se a três euros. A Mêda tem-se revelado funcional e, acima de tudo, hospitaleira. Isto porque, quando há problemas de acessibilidade, lá surge uma gentil senhora que se prontifica a dar uma boleia até ao parque de campismo. No final da tarde ainda trovejou mas nada que amedrontasse os mais aficionados. Receou-se a escassez do público que, ainda assim, não se veio a verificar.

O Bisonte tinha aparentemente a difícil tarefa de “pegar o público pelos cornos“. O concerto começou com uma assistência pouco numerosa e bastante dispersa. Contudo, o estilo profano e irreverente protagonizado por Davide Lobão, vocalista, foi extremamente cativante: a pouco e pouco, a plateia foi respondendo aos seus apelos e acabou por se instalar bem perto do palco. Matilha dos Tristes ajudou a uma entrada de rompante que, ironicamente, nos deixou a nós – outra matilha – bastante alegres. A energia, a destemidez, o espalhafato e o serrar presunto foram os ingredientes chave para um espetáculo onde não houve meias medidas. Lá para meio, o vocalista Davide Lobão imiscuiu-se nos abraços que os corpos mais soltos da frente lhe ofereceram. Cantou-se Depois do Adeus (original de Paulo de Carvalho), o que podia ter sido um risco enorme, dada a incompatibilidade entre os estilos dos diferentes artistas. Soou bem e o público deu o seu contributo nas partes que guarda na memória. O concerto encerrou com 3 vivas, talvez o equivalente ao número de pessoas que não estavam mortas de cansaço e com a garganta arranhada. Esta manhã houve alarido no parque de campismo: esteve-se a um passo de chamar os bombeiros para retirar o bisonte que estava na piscina, Davide Lobão. 

Seguiu-se The Doups. Talvez pela fasquia ter subido tanto, talvez pelo cansaço, talvez pelas letras em inglês: o concerto dos The Doups não conseguiu acompanhar a estaleca de Bisonte. Se não vai de uma maneira, vai de outra. Foi esta a lógica imprimida pela banda liderada por João Rodrigues durante a atuação. No plano musical não foram de todo exímios mas não descuraram na parte do show. Consegui que me satisfizessem o pedido para dar publicamente os parabéns a um compincha. A banda convocou alguns festivaleiros a subir ao palco já no desfecho do concerto para juntos entoarem Joyful. Do palco era visível o maior número de assistentes, em comparação com a primeira noite de festival. Apesar de tudo, Now I´m Going foi o tema que reuniu mais consensualidade por parte da plateia.

Com os cabeças de cartaz X-Wife voltou a senda enérgica e envolvente. A banda, que já conta com uma discografia muito significativa, mostrou uma postura firme e capaz, que é perfeitamente encaixável no panorama musical internacional. Num concerto que durou cerca de uma hora e meia, desfilaram alguns dos mais afamados temas, como foi o caso de On the Radio, Keep on Dancing e Across the Water, que suscitaram grandes ovações por parte do público. Já muito se falou da pequenez da Mêda. Mas, ontem, quem lá esteve pode testemunhar uma grandeza assinalável. Os X-Wife convenceram, revelando o refinamento cada vez mais apurado do seu rock eletrónico. Assim como tinha sucedido em Fitacola na quinta-feira, os X-Wife entoaram ainda dois encores, em resposta à galvanização que era bem saliente na maioria do público.

A noite prolongou-se até de manhã ao som do DJ Victor Pirez, para os mais resistentes.

Se continuamos neste andamento, esta noite não vamos caber em nós com tanta satisfação.

Fotografias: Rita Sousa Vieira