Celebrou-se esta semana o 25.º aniversário da edição do álbum Appetite For Destruction, ex libris do rock de finais da década de 80, época em que havia algum decadentismo entre a música de dança e o hair metal pós-Kiss e Aerosmith. A chegada dos Guns N’ Roses foi o fôlego que veio trazer a atitude rock’n’roll, punk e hard rock para a linha da frente. Sexo, drogas e rock’n’roll.

O disco abre a rasgar com a Welcome To The Jungle, com Axl Rose. Um extraterrestre que nunca tenha ouvido esta canção vai reparar em duas coisas:
1 – Ao fim de 30 segundos a cabeça começa a abanar sozinha e o corpo começa a dançar como se de um ritual de acasalamento se tratasse.
2 – O humano que está a cantar tem uma voz incrível.

A It’s So Easy reflete o estilo de vida que a banda tinha na altura, e gerou polémica, tanto por versos como “I drink and drive/ Everything’s in sight”, como pelo videoclip sugestivo (o primeiro da banda) que foi imediatamente censurado, e que até na internet é difícil de encontrar.

Nightrain é uma referência a um vinho americano industrial, baratíssimo e com 18% de álcool. A quem quiser experimentar uma sensação parecida nos dias de hoje, [des]aconselha-se vivamente o vodka de marca branca nos supermercados low-cost. Sobre a parte musical, continua com riffs de guitarra muito imponentes. É um hino para o ato de dar milho aos pombos.

A quarta faixa é a Out Ta Get Me, e continua no estilo do rock à antiga. Funcionava como uma espécie de canção anárquica de intervenção contra a polícia, instigada injustamente pela grande onda de haters que a banda tinha.

A Mr. Brownstone segue na onda das anteriores. Brownstone significa precisamente heroína no calão norte-americano, e a letra trata de contar a história de como lutaram contra os seus vícios e sobre as amizades que se perderam à mercê da droga: “I used ta do a little but a little wouldn’t do/ So the little got more and more”; “Now I get up around whenever/ I used ta get up on time/ But that old man he’s a real muthafucker/ Gonna kick him on down the line”.

Paradise City, a canção que se pode cantar sozinho no metro sem ser olhado de lado (por pessoas com menos de 50 anos, pelo menos). É sobre o deslumbramento de alguém do campo que chega à grande cidade, neste caso Los Angeles. Mas podia ser Lisboa.

http://www.youtube.com/watch?v=Rbm6GXllBiw

Não há muito que se diga sobre a My Michelle. Fala, em poucas palavras, sobre a história decadente, mas verídica, de uma amiga de longa data da banda, Michelle Young.

A faixa Think About You é uma mensagem de rock’n’roll muito direto, e fala sobre a satisfação de uma paixão, com analogias aos vícios da droga.

E agora surge Sweet Child O’ Mine, mais um clássico intemporal. Curiosamente, foi escrita na brincadeira, da noite para o dia, numa questão de minutos. Mais uma vez, os bons músicos, a qualidade da produção, e a sinceridade na letra e na maneira de cantar transformaram esta canção de 3 acordes num sucesso à escala mundial.

You’re Crazy era só mais uma música, mas durante um incidente com uma agressora num concerto, Axl Rose mudou espontaneamente a letra, juntando-lhe uma dose exagerada de “you’re fucking crazy” na última metade da faixa.

Anything Goes já remonta ao tempo de Hollywood Rose, um grupo composto por Axl Rose e outros músicos da fase pré-Guns N’ Roses, que chegou a gravar uma maquete, e a quem mais tarde se juntou Slash, para fechar a formação histórica da banda. Pelo alinhamento dos Hollywood Rose passaram também Izzy Stradlin, Chris Weber, Steven Adler, e Tracii Guns. A mensagem que transmite é a máxima de “no amor e no sexo vale tudo”.

O álbum termina com a Rocket Queen. Foi inspirada em Monique Lewis (ou Barbie von Grief), a dona do rosto feminino tatuado no braço de Axl Rose. Depois de terminada a canção, Axl queria gravar um ato sexual, e a oportunidade acabou por surgir: Adriana Smith, ex-namorada de Steven Adler (à época, baterista da banda), que estava embriagada e já tinha tido romances ocasionais com Axl. Gravaram meia hora de coito, no meio do embaraço de técnicos e outros membros da banda, até conseguirem obter gemidos legítimos de prazer. O álbum termina assim com um verdadeiro clímax.

No geral, é um clássico tão importante hoje como em 1987. Distingue-se da música mais atual pelo significado muito genuíno tanto na escrita das letras como das próprias músicas. A única coisa negativa é o facto de a fórmula hard-rock à anos 70 ser repetida exaustivamente. Ironicamente, e por ser o que o público precisava, por um lado foi isso que levou o disco ao sucesso; mas, por outro lado, foi o repetir dessa fórmula nos trabalhos seguintes que levou ao colapso da banda em inícios da década de 90.

Nota final: 9,5

Há duas opções para quem quiser ouvir os criadores deste álbum nos dias de hoje:
Guns N’ Roses, a banda decadente de Axl Rose e alguns músicos de encomenda. O álbum mais recente Chinese Democracy é uma espécie de metal/hard-rock moderno sem grande conteúdo e com uma voz muito menos interessante, principalmente ao vivo.
Velvet Revolver, o grupo dos antigos membros do período histórico dos Guns N’ Roses (Matt Sorum, Duff McKagan e Slash), que mistura o rock’n’roll à antiga com o rock mais moderno.