Mesmo tendo em conta o isolamento e pequenez deste município, é de valorizar as condições do parque de campismo, com piscina, zona relvada, duches de água quente (coisa rara em festivais), campo de voleibol, courts de ténis e circuito de minigolfe. Já na véspera do festival, na noite de quarta-feira, os primeiros festivaleiros começaram a compor uma moldura humana que se completaria ao longo do dia de ontem.

De manhã o calor apertava e montar a tenda foi uma tarefa extenuante (especialmente quando esta tem mais de 20 anos). O processo de instalação decorreu com fluidez, apenas dificultado pela distância dos supermercados periféricos e pelo temporal que se abateu nesta pacata localidade.

No entanto, a chuva não foi antónimo da diversão. Os festivaleiros mostraram resistência e agiram como se estivesse um céu limpo. A água da piscina continuou movimentada, as bolas de futebol continuaram a rolar entre pés descalços, as cartas continuaram a ser batidas e não recolhidas e os namoricos não dispersaram.

Outro ponto positivo: não foi preciso ir buscar gelo para deixar as cervejas fresquinhas porque este já estava a cair do céu. Na Mêda valoriza-se muito o conforto dos visitantes.

Voltemo-nos agora para o recinto. Ao contrário do que estava programado, foram os Glockenwise a inaugurar o palco (sem chuva, finalmente). A cada vez mais badalada banda barcelense tem vindo a somar pontos na cena nacional, com presenças em festivais como o Super Bock Super Rock e o Milhões de Festa. A sua atuação não foi por aí além, mas também não comprometeu, entretendo os presentes com o seu indie propulsionado por ritmos punk, irreverente mas também algo repetitivo.

Bardamu Girls, Local Song for Local People e Stay Irresponsible foram alguns dos temas debitados frente a uma plateia ainda algo despida, o que se refletiu também na timidez comunicativa do vocalista, que, contudo, não deixou de agradecer à organização pela oportunidade de promover o nome da banda.

Seguiram se A Cepa Torta. A banda medense estava a jogar em casa e isso viu-se na forma entusiástica como abordou o seu tempo de antena. Complementando um número esparso de originais com versões de bandas como Dire Straits, Led Zeppelin e Talking Heads com uma sonoridade muito própria da banda, os Cepa Torta assinaram uma boa prestação, pontuada com Em Quanto e a mais negra Dias de Raiva.

A terceira e última banda a tocar no palco do Mêda + foi a entidade do punk nacional denominada de Fitacola. A veterana banda arrancou fulminantemente com Só Uma Vez, um hino anti-conformista. O à-vontade de vocalista de Fitacola deixou bem patente a experiência da banda conimbricense. Os anos passam mas a jovialidade permanece. Seguiram-se outros clássicos como Desafio Principal e Mundo Ideal assim como os singles mais recentes Outros Dias e Sobrevivência.

O clima foi de festa, existindo uma clara consonância: de um lado as saudades do público pelas atuações da banda; do outro a gratidão por parte dos membros da banda pela forma eufórica e calorosa como foram recebidos. Tamanha sintonia só poderia desembocar num encore composto por Cai Neve em Nova Iorque (uma versão do original de José Cid), o que fez todo o sentido depois de um dia em que caiu granizo na Mêda.

Aqueles que tiveram persistência para permanecer no recinto após os concertos, foram agraciados por um desfile de clássicos do rock proporcionados pelo duo Los Ramonas, também composto por prata da casa. De realçar, em jeito de remate, que nada disto seria possível se a organização deste festival gratuito não fosse tão dedicada e capaz, especialmente face às condições adversas que surgiram.

Texto por António Moura dos Santos e Rui Ramalho

Fotografias por Rita Sousa Vieira