No passado dia 12 de julho, a Rádio Comercial alcançou a liderança de audiências no âmbito da rádio nacional. Ao atingir os 14,1% de AAV (Audiência Acumulada de Véspera), a estação com 33 anos de vida trocou o anterior segundo posto pelo trono onde a RFM estava inertemente sentada. Esta conquista ganha ainda mais relevo quando confrontados os resultados com o período homólogo (julho de 2011): o crescimento foi de 31,8%. Fala-se de “marca histórica“. Em desabono da verdade, posso dizer que a surpresa era tanta que não pude contê-la dentro de mim, a minha alma ficou parva com tanta admiração.

A RFM, tradicional líder de audiência e há mais de dez anos detentora do título, perdeu o lugar. Registando a perda de um ponto percentual relativamente ao ano transato, não conseguiu conter a subida de 3,4 pontos percentuais protagonizada pela Rádio Comercial. De um lado, uma fórmula muito testada e aparentemente imbatível, do outro o atrevimento de uma equipa arrojada e que oferece inovação.

Em primeiro lugar, atente-se no prisma do entretenimento, onde a RFM peca por insuficiência, não renal, mas estratégica, ao contrário da Comercial que se sustenta em alicerces viris como Nuno Markl, Ricardo Araújo Pereira, e não só. Neste ponto, a programação da Rádio Comercial está bem munida de quantidade e de qualidade. As Manhãs da Comercial estão repletas de bom humor, a somar ao sentido crítico inerente. A Caderneta de Cromos por Nuno Markl e a Mixórdia de Temáticas, por Ricardo Araújo Pereira, em especial esta última, têm sido as grandes promotoras de manhãs onde impera o alheamento ao stress do trânsito, à correria dos afazeres, às vicissitudes da desconhecida crise. Durante os períodos matutinos, a subtileza da sátira é complementada com o essencial da informação. Ainda no mesmo território, é de salientar a intervenção igualmente mordaz de Vasco Palmeirim. As letras por este compostas e adaptadas a músicas reconhecidas pelos ouvintes em geral já não são uma novidade: desde aquela direcionada a Cavaco Silva (a propósito das suas reformas magras), passando pela ridícula promoção do primeiro de maio no Pingo Doce e terminando mais recentemente na controvérsia do caso do Dr. Miguel Relvas. Uma salva de “palmeirins” a isto.

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Continuando a enumeração, note-se a mobilidade evidenciada pela Rádio Comercial durante este verão, ao marcar presença em festivais como o EDP Cool Jazz, o Optimus Alive, o Marés Vivas TMN e o ainda porvir Sudoeste TMN. Como é óbvio, para quem não pode andar por estes cortejos, ter uma rádio que os traga até si sem qualquer custo é extremamente convidativo. Isto, a juntar ao forte recurso às redes sociais, vem carimbar naturalmente uma proximidade efetiva entre rádio e ouvintes. Por outro lado, a capacidade para entretenimento supramencionada proporciona igualmente uma proximidade – menos explícita é verdade – que se vai conseguindo pela concórdia entre locutores e ouvintes acerca das matérias exploradas.

Outros factores a considerar podem passar pela integração da Rádio Comercial com os outros média da Media Capital, onde, no plano televisivo temos a TVI no topo das audiências, apesar da concorrência da SIC. Esta vitória é também uma vitória do grupo Media Capital, que há não muito tempo arrecadou três prémios Meios e Publicidades 2012. O painel variado e ilustre de locutores é um sinal mais do lado da Comercial. Diferentes pessoas trazem diferentes perspectivas, talentos e ideias, o que enriquece a programação. Relativamente à música passada na duas rádios (Comercial e RFM), talvez ainda possamos reconhecer uma ligeira vantagem à RFM, que apresenta um inventário mais abrangente, porém, por vezes mais “rudimentar“. Assim o é também nos restantes parâmetros. Apesar de fundada mais recentemente, a RFM tem vindo a revelar uma enorme incapacidade para acompanhar o estilo modernizado e interativo preconizado pela Rádio Comercial. Meu querido Oceano Pacífico… não fosses tu e o cenário seria ainda mais negro.

Agora, tudo isto pode não ter valor qualquer. Há sempre o reverso da moeda. E as conclusões estarão sempre dependentes das preferências e se, na verdade, essas preferências privilegiam a informação ou o entretenimento. Qual é a principal função da rádio? Será que quando ligamos o rádio na nossa sonolência matinal precisamos de ouvir desgraças ou de menos siso e mais riso? Provavelmente não podemos descurar nem uma coisa nem outra. Isto daria pano para mangas. Mas, se a Rádio Comercial pôs as mãos à obra e investiu na inovação, no experimentalismo e no contacto próximo com o público, o mérito tem que lhe ser reconhecido, ainda que dê maior destaque a uma ou outra área.

Motivos? Chegam e sobram. O método de apuramento de dados é que já é de suspeitar. Não é por se fazer uma entrevista telefónica completamente aleatória, onde se faz meia-dúzia de perguntas sobre o consumo de rádio, que se fica a saber qual é a rádio preferida dos portugueses. Nisso, a Marktest é infeliz. O senso comum também acerta umas de vez em quando. Para mim, esta foi uma delas. Parabéns à Comercial.