Formados em 2011, os Memória de Peixe são um duo português de Indie Pop instrumental, composto pelo multi-instrumentalista Miguel Nicolau e pelo baterista Nuno Oliveira. Um dos mais interessantes projectos que a música nacional formou nos últimos tempos, a dupla lançou em Maio deste ano pela Lovers & Lollypops o seu disco de estreia, homónimo, e é sobre ele que nos vamos debruçar hoje.

Foi por um mero acaso que encontrei há uns meses, bem escondido no meu newsfeed, o link para o stream do disco na página da Lovers & Lollypops. O post deixava bem claro que, para fazer jus ao nome do grupo e do álbum, o Memória de Peixe só iria ficar disponível para audição apenas mais um par de horas; esse breve período de tempo chegou (e sobrou) para me enfeitiçar. Mas foi quando tive finalmente o álbum “em mãos” que me apercebi que o LP de estreia dos Memória de Peixe é das melhores coisas que ouvi em 2012.

O som do duo nasce de um conceito particularmente interessante: partindo da ideia de que a memória de um peixe é bastante curta, os Memória de Peixe decidiram criar uma sonoridade que assenta as suas bases em loops de guitarra igualmente curtos e fugazes, e que se vão sucedendo a um ritmo alucinante. Isto resulta numa música extremamente fluída e vívida, e que dá uma sensação de evolução constante ao longo de todo o álbum. Este toque de improvisação “controlada” (a que o grupo chama de “indieprovisation”) faz com que Memória de Peixe passe uma grande frescura e alegria ao ouvinte.

Aliada a isso está, também, uma musicalidade muito bem afinada por parte de Miguel Nicolau e Nuno Oliveira, e que se traduz em riffs fervilhantes e num groove bem viciante, e que dá ao disco um tom solarengo e quente com cheiro a praia e mar. É certo que, por vezes, ouvem-se “sombras” dos momentos mais efusivos dos britânicos Foals (mais propriamente do disco de 2010, Total Life Forever); no entanto, essa “inspiração” está bem misturada com doses massivas de experimentação e originalidade, o que confere aos Memória de Peixe uma aura de singularidade e inovação bem vincada.

Outra das características deste disco que salta logo ao ouvido nas primeiras audições é, sem dúvida, a maravilhosa produção de Nuno Monteiro, e que conferiu ao disco uma estética imaculada, perfeitamente límpida e cristalina. Para essa clareza de som contribuiu também a magnífica masterização, assinada pelo norte-americano Steve Fallone (que trabalhou com nomes como Sonic Youth, Yo La Tengo ou The Strokes, por exemplo), e que faz com que cada nota, cada som e cada instrumento se oiçam na perfeição, como se os artistas estivessem mesmo à nossa frente.

Há, porém, um “ingrediente” neste Memória de Peixe que, a meu ver, destoa um bocado do tom geral do disco e que lhe retira algum do brilho: as participações vocais de Catarina Salinas e de Da Chick. No primeiro caso, a contribuição da vocalista dos Best Youth mostra-se um bocado inócua e, na minha opinião, não contribui com nada de relevante para a sonoridade de Walkabout. Já no caso de Da Chick, o feel meio Funk que ela traz a Fish&Chick não me convenceu, de todo.

Na hora de destacar canções individuais, devo apontar a pungente Estrela Morena, a contagiante Indie Anna Jones, a doce DayJob (com uma bela participação do contrabaixista Carlos Bica) ou a entusiasmante FishTank como as peças que mais me agradaram. Pela negativa, registo as já referidas Walkabout e Fish&Chick como os pontos menos inspirados do disco, mas que mesmo assim não conseguem manchar a maravilha que é Memória de Peixe.

Concluindo, Memória de Peixe é um disco que, apesar de um ou outro ponto menos positivo, nos consegue agarrar desde o início, e cujo apelo não nos dá tréguas nem por um segundo e nos obriga a ouvir o álbum em repeat de forma incessante. Mostrando uma aposta clara na inovação e na frescura, a Indie Pop dos Memória de Peixe vem também dar um pouco de cor e novidade à música portuguesa, o que é sempre salutar e louvável. Em suma, este é um dos grandes LP’s deste ano. E agora desculpem-me, que vou ter de o ouvir mais uma vez.

Nota Final: 9,0/10 

*Por opção do autor, este artigo foi escrito segundo as normas do Acordo Ortográfico de 1945