Harakiri é o título do terceiro álbum a solo de Serj Tankian, atual vocalista do grupo System of a Down, bem como o primeiro a ser editado depois do regresso ao dito grupo. Talvez por isso mesmo já não tenha havido a necessidade de romper com as estéticas dos últimos álbuns de System of a Down, como Serj Tankian tinha feito na sua estreia a solo, Elect The Dead (2007), e ainda mais no segundo registo Imperfect Harmonies (20 10), em que viajava pelo rock progressivo e sinfónico. Curiosamente, e tal como todos os outros registos a solo, este álbum foi gravado e produzido pelo próprio Tankian, no seu estúdio caseiro.

Desta vez chegou mesmo a utilizar o iPad para compor e misturar algumas faixas, o que, segundo Tankian, serve para alargar os seus horizontes criativos. Antes da digestão deste Harakiri sugere-se a audição tanto dos seus dois antecessores, como dos últimos álbuns de System of a Down,  Mezmerize e Hypnotize (2005).

O disco começa a girar ao som de Cornucopia, cuja primeira impressão é a de uma sonoridade mais orientada para o rock, com influências do álbum Hypnotize, e que contrasta entre momentos bem dispostos e outros de maior angústia.

Segue-se a Figure it Out, que desta vez nos leva até ao Mezmerize, mais concretamente às faixas Question! e BYOB. Consegue soar a Thrash, e é ativista de uma forma mais agressiva.

A terceira faixa, Ching Chime é sublime. A introdução é dada pelo ud, um instrumento característico árabe, semelhante ao alaúde mas sem trastes. Há grandes influências do médio-oriente, e principalmente do folclore do Líbano e da Arménia. Há também uma grande mistura com ritmos, rimas, melismas, uma espécie de beatbox, e entretanto um refrão de rock mais habitual. O resultado é um diálogo entre a música urbana norte-americana e a do médio-oriente. Uma possível referência à world music.

A Butterfly surge em parte no estilo do Elect The Dead, e tem alguns pormenores interessantes para os ouvidos mais atentos. Pormenores sonoros que, de resto, aparecem um pouco por todo o álbum.

Entretanto temos a Harakiri, faixa homónima do álbum, e que demonstra o grande poder da voz de Serj Tankian. Podia bem ser uma cançoneta pop-rock, mas tem uns pequenos twists que conseguem afastá-la dos clichés, mas mantendo uma certa sonoridade agradável.

A faixa Occupied Tears continua agarrada ao estilo das anteriores mas muda na cor do ambiente e na poética. Transmite efetivamente uma mensagem, com muita variedade de instrumentos, camadas de som, e com muitas secções diferentes.

Aparece-nos um estilo diferente na Deafening Silence, com uma guitarra e sintetizadores. É muito original, e podia ser parte de um álbum muito mais post-rock, minimalista e alternativa. Sugere-se a audição de Serart (2003), um álbum de colaboração entre Serj Tankian e Arto Tunçboyacıyan (músico de folk arménio).

Consegue-se perceber a versatilidade da voz do próprio Tankian em Forget Me Knot – um passeio entre o minimalismo e um refrão mais rock – que, de facto, merece ser ouvida fora do contexto do álbum.

A antepenúltima faixa chama-se Reality TV. É fresca, criativa, e evidencia as 3 ou 4 vozes completamente diferentes que parecem viver dentro de Serj Tankian. Há também uma grande mensagem crítica, embrulhada num rock imponente. Entretanto cresce para uma Uneducated Democracy , em que o rock fica mais agressivo e se torna punk. Há alguma influência das músicas mais rápidas do álbum Hypnotize.

No começo da Weave On há influências das riffs de Tom Morello (Rage Against The Machine), com quem Serj Tankian já tinha colaborado. Mais à frente aparece um trompete que ajuda à festa. O último minuto é um crescendo com sobreposições sonoras completamente loucas até que se atinge o grande clímax – o fim do álbum, da mesma forma que a canção A Day in The Life fecha o Sgt. Pepper’s Lonely Hearts Club Band (1967). Rompe muito sabiamente a fórmula e o hábito pop-rock de uma canção-clímax a meio do álbum, e de outra réplica desse clímax a meio da última faixa. Não é nenhum clássico instantâneo que precise urgentemente de ser ouvido fora do álbum, mas neste contexto é a cereja no topo do bolo.

O álbum não é excelente, mas o último minuto é tão genial que engana qualquer ouvido e é capaz de o deixar a chorar por mais. Num ponto de vista geral, a produção é de qualidade e bastante criativa.

A Revolver e a Tyrant’s Gratitude (faixas bónus) não encaixam propriamente no contexto das outras, e provavelmente são bónus por isso mesmo, mas são de interesse e davam material de qualidade para um outro álbum mais pequeno, com um estilo diferente.

Nota final: 8,3/10

Rui Brandão