A No Karma assume-se como «a editora que é anti-editoras». Sem receios do amanhã, a sua existência compele-se na tentativa de estropiar inúmeros estereótipos que nos moldam enquanto humanos.

Se existem certas moralidades que nos impedem de fazer certas acções, deparamo-nos com uma espécie de auto-censura e agimos consoante a nossa consciência moral. Haja vontade, isto não mudará. A No Karma é tudo menos isto. Quando a vontade realmente existe, dificilmente é inibida.  No Karma é existir incondicionalmente.

Fundada no início de 2011 por Ricardo Almeida, a editora discográfica No Karma tem galopeado a um ritmo estoicamente inquebrável, contando com o lançamento, até à data, de sete registos. Exsurgindo-se cada vez mais na underground do hip-hop tuga, vai contando com a colaboração de vários artistas. Metamorfiko, John Miller Trio, Sarcasmo, Spasm e Haka são somente alguns dos nomes que fazem de No Karma uma família desinibida e homogénea e que promete fazer o ouvinte suciar por aqui e por acolá quando escutarem seu rap.

Não é nada basilar falar individualmente da riqueza do rap edificado em qualquer um dos registos, contudo arrisco-me a dizer que a qualidade está sempre presente.

Noites Calmas, Dias Felizes – Sarcasmo

Um dos pontos altos das produções de No Karma é indubitavelmente Noites Calmas, Dias Felizes, de Sarcasmo. O registo edifica um MC intrigante e habilidoso no arrumo das palavras. As batidas instrumentais criam uma fusão que funciona quase sempre bem com o elóquio sempre muito bem elaborado pela capacidade lírica deste rapper. Sarcasmo é um rapper que escreve com a cabeça, não se limitando a fazer simples rimas sem nexo ou coesão, como muitos o fazem (o hip-hop da treta, diga-se). Casa do Povo, musicada com a colaboração de Haka e Spasm, assinala o ponto alto do registo e surpreende pela sua poesia absolutamente irrepreensível e pela sua instrumentalidade bastante positiva, feita, aqui, por Zim. Mais que uma simples música, Sarcasmo oferece-nos aqui uma crítica social. Versos como «A colectividade da cidade ao pé da casa só serve p’ra classe alta, na casa ninguém lá passa. Pró povo só passa a passa, e o vinho rasco» servem de mote e aguçam-nos a apetite em descobrir mais acerca de Sarcasmo. O flow na musicalidade de Sarcasmo é uma constante; umas vezes mais belo e interessante que noutras ocasiões, mas facto é que a relação instrumental/letra funciona sempre de maneira positiva. Neste aspecto, creio que a faixa mais conseguida do registo seja a sedutora Cármen, a quarta faixa do registo. Contudo, creio que Noites Calmas, Dias Felizes nem sempre mantém a sua qualidade de nível assinalável. Inoxidável, a faixa que abre o registo, parece-me ser o ponto fraco mais assinalável. Instrumentalidade a querer soar demasiado nesta faixa e, também, onde a voz de Sarcasmo se parece um pouco forçada. Mas todos estes pequenos defeitos são completamente aniquilados com momentos briosos como Na Casa do Povo ou Sombra, uma excelente música.

Sem sarcasmos, Sarcasmo teria dias mais felizes se tivesse a atenção merecida, por isso, atentem nele, porque ele merece.

Bandcamp de Sarcasmo.

Nota: 7,6/10

Butter Files – Metamorfiko

Metamorfiko, MC e produtor algarvio, acaba por conseguir edificar, a meu ver, um registo muitíssimo bem conseguido e, talvez, o meu favorito das edições No Karma. Butter Files traz-nos catorze faixas edificadas de uma maneira bastante inteligente e com uns ideais radicados numa mistura muito interessante de géneros musicais e vai ao encontro do seu anterior EP, o grande Crushing Clouds. De facto, é quase impossível categorizar o género musical produzido por Metamorfiko. Contudo, diria que se trata de simbiose entre electro-smooth, electro-jazz/nu jazz e ambiente music, sendo que toda esta panóplia nos aparece apimentada pela ousadia desinibida de traços de hip-hop. Faixas de categoria inegável como, por exemplo, I.M back e MetRobot, onde imergem pormenores de categoria elevadíssima – como, por exemplo, o efeito vinyl que confere uma paisagem vintage às músicas produzidas pelo produtor algarvio – fazem-me crer que Metamorfiko é, obrigatoriamente, um nome a ter em conta na actualidade não só do hip-hop tuga, mas também da música nacional em geral.

Bandcamp de Metamorfiko.

Nota: 8,6/10

Mixtape SixteenHaka & DJ Profail

Mixtape Sixteen nasce da junção da sabedoria em lidar com os pratos de DJ Porfail e da sapiência em arrumar as palavras de Haka. Língua desinibida, sempre bem aguçada, a cuspir palavras, que fundindo-se com uma produção bastante interessante, se revelam desconcertantes e intrigantes. Flow admirável, batidas intensas, beats desmedidos e cheios de garra e pujança e ritmo a ser sempre uma constante, Mixtape Sixteen é um disco coeso, que não inova nada, mas que tem uma qualidade acima da média. DJ Porfail serve-se, ao longo deste registo, de instrumentais já produzidas, mas acaba por mesclar todos as batidas de uma maneira bastante eficiente e agradável. Sem querer correr riscos, Haka revela-se um talentoso MC, com um sentido rítmico bastante apurado e com uma grande aptidão para arrumar palavras. No fundo, Haka revela-se, ao longo deste EP, um rapper desconcertante, inteligente e com um sentido melódico afinado. Na hora de focar os pontos altos e baixos, devo frisar como pontos altos a bem aproveitada Black Dogs – música em que a sonoridade provém da mítica Black Dogs, dos lendários Led Zeppelin – e a bem elaborada Vaca Presa. Quanto aos pontos baixos, escolho a menos bem conseguida Manifesto, que é a faixa que marca o início desta Mixtape Sixteen.

Bandcamp de Haka.

Nota: 7,5/10

EmaSpasm

Ema retrata a mais recente produção das edições No Karma. Spasm retrata um caso peculiar: na minha opinião, ou se gosta ou não se gosta. Digo-o porque Spasm é, a meu ver, um MC diferente. Antes de mais nada, eu gosto. Spasm é um mc brilhante nas palavras – na minha modesta opinião, um dos melhores que por cá existe -, mas peca, e aquilo falo para os que não gostam, pelas suas vocais. A sua voz soa-nos forçada, isto é notório. Mas certo é que a sua fusão com a instrumentalidade funciona na perfeição. Talvez falte, neste aspecto, um pouco de maturidade a Spasm, mas não tenho dúvidas que este mc ilhavense está para as curvas e que irá, certamente, evoluir. O potencial, esse, é imenso. Faixas sublimes como 17 e Prova de Fogo (ft. Haka), levam-me a crer que aqui reside um dos rappers com maior potencial de Portugal, restando apenas maturar a vertente vocal. Tempo para que a evolução se dê, não falta, resta esperar. E eu, confesso, esperarei na 1ª fila.

Nota: 7,1/10

Bandcamp Spasm.

Além destes 4 discos que analisámos, a No Karma produziu ainda mais outros três discos: Walking On Blue Shoes, de John Miller Trio, Crushing Clouds, de Metamorfiko, e a compilação No Karma, edificada por toda a família No Karma.

Hip-hop tuga, e não só, de qualidade bastante assinalável, a nascer no seio de uma editora com uns ideias simultaneamente peculiares e admiráveis. A editora que se diz anti-editoras, e que, deste modo, sobrevive de modo independente tem cavalgado, como já disse anteriormente, a um ritmo estoicamente inquebrável e é certo que todos os fãs, não só de hip-hop, mas como também da música portuguesa, agradecem (e de que maneira!). No Karma é ser-se incondicionalmente e na razão de ser, não há medos.

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*Artigo escrito, por opção do autor,  com as normas do acordo ortográfico de 1945.