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Os bons e velhos Keane

Quando lançaram, em 2010, o Night Train, os Keane foram muito badalados pela crítica internacional e não por motivos positivos. Diziam que a mística da banda inglesa tinha desaparecido, que as melodias tristes, sentidas e ao mesmo tempo tocantes que nos apresentaram, em 2004, com o álbum de estreia Hopes and Fears tinham desaparecido. Mas isso não é verdade. No concerto de ontem, no Cascais Music Fest, o quarteto mostrou ao público que sabe falar, ainda, “keanês” e que nunca deixou de parte os bons e velhos hábitos.

O recinto não estava cheio nem o concerto esgotado. Mas isso não foi determinante para o sucesso do espectáculo. Por volta das 21h30 os nervos e a ansiedade eram muitos e estavam espalhados por todo o espaço do Hipódromo Manuel Possolo, em Cascais. O palco, a meu ver, não estava muito bem decorado e não fazia jus às características de Keane. Mas, ao fundo, conseguia ler-se, num sol luminoso, Strangeland, o nome do último álbum da banda de Tom Chaplin.

Passava das nove e meia da noite e os gritos dos fãs não se silenciavam. E Tom conseguiu surpreender com a sua brilhante voz com a música You Are Young, do novo álbum. De repente todos os espectadores se aperceberam que os verdadeiros Keane estavam de volta e para ficar. E para quem estava com dúvidas, Bend and Break do primeiro álbum esclareceram-nas.

Day Will Come, foi a terceira música que os Keane tocaram. Foi nesta altura que os fãs da banda britânica se fizeram mais ouvir. Cartazes, declarações e gritos acompanharam a voz do vocalista que ficou surpreendido com o público. Seguiu-se Nothing in My Way, um clássico no vasto repertório do grupo que pôs todos os espectadores aos saltos e a cantar bem alto. Foi dos momentos mais bonitos de todo o concerto. Mais uma vez, os bons e velhos Keane estavam de volta. Afinal tinha sido para isso que todas aquelas pessoas lá estavam: para verem e ouvirem o que queriam, da banda que mais gostavam. E resultou, devo dizer.

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A interacção de Tom Chaplin ao longo de todo o concerto foi boa. Riu-se, conversou, impressionou-se com os fãs, falou de Portugal. Mas pecou num aspecto, na minha opinião: não pedia ao público para cantar as canções com eles. Parecendo que não, isso acaba por fazer diferença num concerto. Digo também que isso não foi extremamente necessário porque o público fazia questão de acompanhar o quarteto, mas isso daria mais dinâmica à noite.

Um dos momentos altos da noite foi com a música We Might As Well Be Strangers, do disco de estreia dos Keane e o mesmo aconteceu com Perfect Symmetry. A certo momento da noite, mal os acordes começavam a soar no recinto, as pessoas entoavam as músicas. Sabiam qual era, de cor e salteado, e não deixaram a banda ficar mal. E isso foi um motivo de orgulho para Tom e a sua banda que realçou o empenho dos portugueses dizendo que era um dos públicos que melhor tinha enfrentado.

Silenced by the night, Everybody’s Changing e This is The Last Time foram minutos simplesmente muito bem passados. Parecia que toda a gente estava envolvida numa grande e única bolha onde apenas se ouvia Keane, Keane e Keane. Parecia que não havia mais nada para além disso. Foi único e ao mesmo tempo muito íntimo.

Mas, e como seria de esperar, Somewhere Only We Know foi o melhor momento de todos. Todas as pessoas cantavam, todas as pessoas sentiam a música, todas as pessoas diziam que aquele tinha sido o melhor momento do concerto. E foi. Nunca vi nada tão único e tão sentido num concerto. Ultrapassou todas as minhas expectativas e acho que as das pessoas que lá estavam. Sabíamos que ia ser muito bom, mas acho que não esperávamos que fosse tão bom.

http://www.youtube.com/watch?v=e8PbsJF-ves

E, como se não bastasse, e sinceramente não bastava, ainda cantaram Bedshaped, Is It Any Wonder, Bad Dream e Disconnected. Desceram à plateia, cumprimentaram os fãs sempre de sorriso nos lábios, com muito carinho, simpatia e entusiasmo. Despediram-se do público e voltaram para o tradicional encore, com uma das melhores músicas do Strangeland, na minha opinião, Sea Fog, que proporcionou um momento solene, muito calmo e muito bonito. Pouca gente conhecia mas muita gente passou a adorar. Sovereign Light Café devolveu a energia ao público e o mesmo com Crystal Ball.

E, quando se pensava que mais nada podia acontecer, despediram-se do público e agradeceram a amabilidade de quem lá estava. Mas os pedidos para mais uma canção não pararam e, não sei se para satisfazer o desejo se porque já estava programado, voltaram e reuniram aqueles que já estavam a abandonar o Hipódromo. My Shadow foi a música de despedida de Keane, que culminou numa noite brilhante, bonita, serena, íntima e muito muito única. Os britânicos saíram do palco do Cascais Music Fest emocionados e com a promessa de que regressariam em Outubro, dia 20. E assim espero. Toda a gente devia ver e ouvir os bons e velhos Keane.

Fotografias: Andreia Martins

*Artigo escrito, por opção da autora,  com as normas do acordo ortográfico de 1945.

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