O terceiro e último dia do Optimus Alive era por muitos o mais aguardado. Radiohead no horizonte. Dez anos separavam o público português da banda inglesa. Para quem esperou desde cedo pela atuação dos Radiohead, o tempo de espera foi agradavelmente preenchido pelas presenças de bandas como PAUS e The KooksAlém de longa, a noite  de dia 15 foi intensa e fértil em surpresas. O Espalha Factos não deixou de marcar presença neste dia em que o infortúnio de Florence Welch parecia já digerido. E, se não o estava no início da tarde, certamente às 04h30 – hora a que terminou o derradeiro concerto do festival – já não havia lugar para se pensar no assunto.

A primeira coisa que ocorre dizer é que – entenda-se o desabafo – é frustrante haver mais do que um palco a oferecer qualidade musical e performativa em simultâneo. Naturalmente, impera muitas das vezes a necessidade de se fazer uma escolha com muita reflexão prévia, onde se pesem os prós e os contras de ir para um palco e não para outro. Noutros casos, a indecisão é tão inquietante que o melhor é mesmo lançar os dados e fazer figas para que a sorte nos leve ao melhor e nos livre do pior, pior esse que muitas das vezes nem existiu: não é fácil escolher entre o bom e o bom.

Para começar bem, nada melhor do que começar em português. Os PAUS mostraram maturidade: houve coordenação, entrosamento, comunicação e espectáculo. A banda portuguesa, na esmagadora maioria do tempo com Hélio Morais (também baterista dos Linda Martini) ao leme, deu seguimento aos bons momentos que já haviam sido proporcionados por outras das bandas nacionais que passaram pelo Optimus Alive, como foi o caso dos We Trust e dos Buraka Som Sistema.  Seria injusto catalogá-los como “uma preparação para o resto“. Deram um excelente mote sim mas, não foram apequenados por qualquer uma das bandas que se seguiram.

A música prosseguiu com The Kooks, eles que tinham estado no ano passado pelo Super Bock Super Rock. Seaside foi a primeira música interpretada, lembrando-nos o bonito Tejo sob o pôr-do-sol, mesmo ali à mão de semear. No entanto, Junk of the Heart, single do albúm homónimo que foi o último lançado pelos britânicos, em 2011, foi o tema que colheu mais entusiasmo da plateia que, múltiplas vezes foi abafada pelo histerismo das falanges femininas. Luke Pritchard procurou ao máximo envolver o público no espectáculo, ao ponto de encetar um crowd surfing.

Ainda foi a tempo que chegámos para ouvir The Maccabees, desta feita no Palco Heineken, enquanto Caribou ia passando no palco principal. Não foi a proximidade com a hora prevista para Radiohead que impediu uma plateia bem composta no palco secundário, num concerto agitado e bastante aplaudido. No final, começou a tornar-se notória a inclinação do recinto para oeste, onde começavam os preparativos para o concerto cabeça de cartaz. A multidão aglutinava-se. Aqueles que antes eram espaços de passagem tornaram-se espaços de paragem. O palco Optimus Clubbing ficou literalmente às moscas, porque pessoas não se viam. Houve ainda quem aproveitasse para consolar o estômago antes de se acomodar para ver Radiohead, sendo, claro, que comodidade não é palavra de ordem por estas bandas.

(c) Paulo Sampaio, IOL Música

Mas foi por essas bandas que a banda britânica levou ao rubro cerca de 45 000 pessoas. Ao contrário de outras bandas menos célebres, os Radiohead não tinham a difícil tarefa de conquistar o público. Como é óbvio, não posso falar por 45 000 alminhas, mas dei por mim a lamentar  que o repertório escolhido não tivesse sido outro. Faltaram temas talvez indispensáveis em mais de duas horas de concerto, como Creep e Karma Police, e o concerto pareceu ser mais experimental do que deveria. Contudo, a afluência ao festival neste dia 15 foi maioritariamente gerada pela presença dos Radiohead.

Uma vez encerrado o Palco Optimus, atenções viradas para os últimos dois grandes concertos desta edição, The Kills e Metronomy. E quão grandes foram!

O dueto formado por Alison “VV” Mosshart e Jamie “Hotel” Hince foi muito bem acompanhado por um quarteto de percussão e espalhou por completo a magia no Palco Heineken. O espaço para o corpo mexer era escasso. A sede cada vez maior. Só mesmo a excelência da banda para fazer esquecer estes reveses. Além de estonteante, o concerto de The Kills teve um quê bastante significativo de emoção e intimismo.

Alison não hesitou em interromper o tema Last Goodbye quando reparou que alguém na parte dianteira da plateia se estava a sentir mal. Ao que se conseguiu apurar, um jovem com problemas epiléticos teve uma crise repentina e foi imediatamente socorrido pela equipa de segurança no local. A atitude abnegada e compassiva da artista foi digna das sucessivas ovações que recebeu por não se ter ensimesmado e continuado a cantar como se nada se passasse. “We are not going to play more songs until this guy gets better”, afirmou peremptoriamente. Assim foi. Mais surpreendente ainda foi a retoma do espectáculo, na qual Alison Mosshart fez questão de dedicar o tema interrompido ao jovem, que felizmente acabou por se achar bem de saúde. A partir de então, o diálogo entre artistas e público foi cada vez mais assinalável. A jovem cantora não conseguiu esconder a emoção que sentiu por ver uma assistência tão viva e participante: “you are insane“, realçou.

(c) Paulo Sampaio, IOL Música

Eram 03h20 quando os Metronomy fizeram as honras à casa. A atuação da banda britânica – mais uma – foi o ápice da noite e foi o final ideal para estes três dias intensos de festival no Passeio Marítimo de Algés. A meio do concerto, o vocalista da banda, Joseph Mount, confessou que tanto ele como os restantes elementos estavam bastante receosos quanto ao sucesso da sua prestação em palco, uma vez que a hora já ia muito avançada. O público presente surpreendeu e ficou a promessa: “we will come back when you want us to“.  Os Metronomy foram “obrigados” a voltar ao palco, já depois de se terem despedido, graças à enorme algazarra originada pelos sobreviventes do festival, terminando assim em grande com um encore.

Oferece-se-me dizer que esta edição do Optimus Alive vingou pela grande diversidade e qualidade do cartaz, sendo que estes três dias foram uma escalada íngreme até ao cume atingido no último dia. De dia para dia, o espectáculo foi ganhando cada vez mais cor e vida.

Fotos: Optimus e IOL Música

Artigo em atualização.