O segundo dia do Optimus Alive’12 tinha a fasquia bem elevada. Mesmo sem Florence, os cabeça de cartaz The Cure prometeram (e cumpriram!) três horas de concerto, para deleite dos fãs ansiosos e com tantas saudades. Bandas como Mumford & Sons ou os portugueses We Trust também actuavam no palco principal e tudo prenunciava um dia bem melhor do que o anterior.

Desta vez, chegar cedo estava no topo da to-do list. Não podia perder a irlandesa Lisa Hannigan por nada deste mundo. O seu estilo folk e a capacidade para compor doces canções, em simultâneo com uma interpretação com a força da natureza, deixaram o público que se juntava ao palco Heineken, por volta das 17 horas, boquiaberto. Tanto que começa a tocar para uma plateia meio-vazia e muita gente sentada no chão e termina para uma vasta quantidade de fãs e curiosos que se juntaram, levantaram-se do chão e aplaudiram-na de pé.

A jovem dos 7 instrumentos (porque tocou uns quantos tipos de guitarra, uma espécie de acordeão e um bandolim) esteve mesmo bem e mostrou-se emocionada por ter tanta gente ali a vê-la. Ela não estava à espera, confessa. Só perdeu quem não conhecia nem quis conhecer. E eu que já gostava dela e de temas como Passenger, Home, Lille e a belíssima I Don’t Know, vi-a terminar inteligentemente, com chave de ouro, com Knots, o seu single mais conhecido, que fez as delícias dos presentes, levados pela contagiante alegria de Lisa.

Ainda houve tempo de beber um cafézinho e ir espreitar a dupla Big Deal, que tive pena de se sobrepôr com o palco principal, de evidenciar o melódico tema Chair. Fiquei fã. Depois de ter o coração bem aquecido com as bandas anteriores, sabia que o próximo objectivo era (finalmente) ver em placo os portugueses We Trust, liderados por André Tentúgal, que tiveram o privilégio de actuar no palco Optimus, ainda que fossem os primeiros e em plena luz do dia (perto das 18h30).

Estava preocupada com a capacidade que teriam de ter em manter o público “ligado”. Isto porque, vamos ser sinceros, os temas que toda a gente conhece são Once At a Time e Time (Better Not Stop), que todos sabemos de cor e salteado, mas um concerto faz-se com muito, muito mais. Nesse aspecto os We Trust foram espectaculares e deram realmente mais: conseguiram fazer o público cantar outros refrões menos conhecidos e manter todos na sua órbita até ao final.

No palco principal seguiram-se Noah And The Whale, já perto das 19h30, muito bem recebidos e muito competentes. Deram um concerto que se pode dizer consensual e positivo para todos os que os escutavam, conhecessem mais ou menos. A generalidade ficou satisfeita e deixou-se embalar pelas sonoridades muito folk/pop dos ingleses que andam desde 2006 nestas lides, mas pela primeira vez em Portugal.

O vocalista Charlie Fink elogia o clima do nosso país à beira mar plantado, dizendo que é  “uma bênção de que poucos festivais no mundo gozam“. Passeia-se pelo palco e por canções como 5 years time, Give a Little Love, a dançável Rocks and Daggers e Blue Skies, esta bonita composição que, vim a saber mais tarde, reflecte o fim da relação de Fink com a inglesa Laura Marling, uma cantora que muito aprecio também deste estilo indie folk.

21h30. Chega o momento em que se ouviu dizer: “O melhor concerto até agora!” Concordo com esta afirmação da cabeça aos pés. São os Mumford & Sons, liderados por Marcus Mumford. Surpreendente é a palavra de ordem. Não porque achasse que iam desiludir, longe disso. Mas porque não imaginava que tanta gente conhecesse tanto desta banda folk londrina, já que logo numa das primeiras canções, Little Lion Man, se ouvem os coros de vozes que não falham uma, sobretudo no forte refrão: “But it was not your fault, but mine/ And it was your heart on the line/ I really fucked it up this time/ Didn’t I, my dear?/ Didn’t I, my dear?”.

Depois foram saltos, pulos, risos, palmas. Depois de Sign No More, de 2009, sabemos que vão editar o próximo disco em Setembro – de salientar que isto foi dito em português pelo teclista Ben Lovett, adorável no esforço que fez para se fazer compreender. Seguem-se canções como Winter WindsWhite Blank Page, Roll Away Your Stone The Cave, entre outras, juntando-se a promessa de que a banda voltará em breve para este público que se portou tão bem.

Antes dos Morcheeba houve tempo para enfrentar a multidão que saía do palco principal e outros que rumavam para ele, para ir comer um crepe de chocolate enquanto ouvia Sail dos Awolnation, badalados por causa de um anúncio de TV, mas com um restante repertório muito desconhecido da generalidade. Segue-se o concerto dos substitutos de Florence + The Machine. Não foi obviamente a mesma coisa para ninguém, mas foi melhor do que esperava. Não fosse a vocalista Skye Edwards, uma simpatia de pessoa (diga-se), a trautear a meio do concerto You’ve Got The Love, lamentando a doença súbita de Miss Welch e elogiando o seu trabalho. O gesto foi bonito e arrancou gritos e coros de vozes da plateia. Ouviram-se canções do novo álbum, menos conhecidas, mas também as mais badaladas Otherwise, logo de início, Never An Easy Way ou  Rome Wasn’t Built In A Day deixada para o fim, esperada por todos.

Meia noite certa. Finalmente chega envolto em teias de aranha (no bom sentido) aquele que era O momento da noite. Para Robert Smith o prometido é devido. Três horas a ver The Cure e na primeira fila não é para qualquer um, mas muito me orgulho porque estava rodeada de fãs acérrimos, de lágrima no canto do olho, que resistiram e dançaram o tempo todo.

Foram mais de 30 canções. É verdade. As músicas que toda a gente esperava e queria muito ouvir não falharam, a boa disposição e agradecimentos do costume estavam na ponta da língua de Smith, ao qual tiro o chapéu pela resistência que tem demonstrado nos últimos concertos. Isso sim, não é para qualquer artista.

Gostei muito, cantei muito e berrei muito, em canções como Lovesong, uma das primeiras, Just Like Heaven e, principalmente, Friday I’m In Love, que serviu de piada para um cartaz que se encontrava na plateia “It’s Saturday I’m In Love” – a verdade é que já era domingo, bem vistas as coisas. Seguiram-se, sem interrupção, A Forest, Primary, One Hundred YearsDisintegration, a qual deu lugar a uma pausa. Os Cure voltariam, afinal ainda não eram 3h.

O primeiro encore foi com The Same Deep Water as You. Depois disso houve mais dois: o segundo bem mais longo, no qual cantaram, entre outras, The LoveCats, The Caterpillar, Close to Me, Let’s Go to Bed, Why Can’t I Be You? e a aguardada Boys Don’t Cry, que fez voltar a histeria, não fosse este um dos hits da banda. No final, o homem do cabelo mais estranho de sempre, que continua a pintar os olhos de preto e os lábios de vermelho, mostra-se um doce ao despedir-se de nós com 10:15,  Saturday NightKilling an Arab. Estavamos todos satisfeitos, cansados mas felizes. “Aproveitem amanhã!” disse Robert.

Depois das merecidas horas de sono, vamos regressar ao Alive!. Os Radiohead voltam 10 passados e os fãs querem matar as saudades.

*Artigo escrito, por opção da autora,  com as normas do acordo ortográfico de 1945.

Fotografias: Débora Lino