É a aposta teatral do Cinema S. Jorge para este mês de julho, depois da estreia em Macau. O diálogo – porque monólogo não é a palavra correta – marca o regresso de Diogo Infante aos palcos, não numa, mas em sete diferentes personagens, cada uma genial à sua maneira, na forma como espelham realidades bem próximas de nós. Intimista e direta, sem tabus, assim é Preocupo-me, logo existo!.

Armando Silva é a primeira de uma série de outras personagens que conhecemos, todas elas relacionadas, de uma forma ou de outra, quanto mais não seja pela partilha de uma intemporalidade. Este Armando pode ser um político, um fala-barato, um psicólogo motivacional, o que quisermos – não é rotulado à partida, e ainda bem. Interpela diretamente o público, criticando a apatia e o negativismo, apelando ao egoísmo e à busca da felicidade individual, do “bebé interior”. É das personagens mais interessantes que temos oportunidade de conhecer, a primeira a promover uma mudança da visão das coisas.

Seguem-se o que poderíamos rotular de o ‘português típico’, uma espécie de “velho do Restelo” que acredita em Deus e critica tudo e todos enquanto buzina no seu carro; e um homem estiloso que apela a “viver a vida”, independentemente da religião, pois a depressão atinge os que se preocupam com a alma. Temos ainda um médico ganancioso que receita mais efeitos secundários do que melhorias aos pacientes; um jovem artista que quer subir na vida a todo o custo; e o rocker, personagem já presente em Sexo, Drogas & Rock and Roll, uma daquelas lendas da música dos anos 80 cujas letras eram escritas com muito pó à mistura. E sim, o rocker rocka, e mais não digo.

Falta-nos uma personagem, talvez a que mais sumo tem para espremer – e ao mesmo tempo a mais simples, próxima e consciente de todas, e por isso também a derradeira do espetáculo. É um homem que segue as regras, que trabalha e faz a sua vida como deve ser e que, por tudo isto, se acha feliz. “Vivi, amei e preocupei-me”, diz. É também a nossa consciência a falar e o título da peça a fazer sentido na nossa cabeça. É um rever todas as outras personagens ‘com olhos de ver’, com o distanciamento certo para nos podermos rir delas, sim, num primeiro momento, mas depois identificar-nos com as suas ações e tomar uma posição em relação a isso.

Esta visão brechtiana da realidade – e consequentemente do papel do teatro – está muito presente em Eric Bogosian, autor dos ‘monólogos’ que originaram Preocupo-me, logo existo!, mas também na encenação de Natália Luiza, com o óbvio toque especial de Diogo Infante. A forma brilhante como sequenciaram estes estereótipos e o culminar naquela personagem, que é também o próprio ator, despido de ‘outros’, bem como toda a adaptação da obra à realidade atual e à realidade portuguesa, são de louvar.

Diogo Infante está presente em tudo o que se passa em cena (e para além dela, diria mesmo). É o tradutor dos monólogos, é o seu intérprete e faz deste o seu espaço de crítica, o seu one man show, através dos textos de Bogosian. Num cenário simples, escurecido, intimista, o ator dialoga com o público – trata-se efetivamente de um diálogo com as pessoas, de uma interação -, tranforma-se em sete ‘eus’ diferentes e fá-lo sempre com uma coerência impressionante, mudando roupas, sotaques, maneiras de ser e falar. Só um artista experiente e versátil como Diogo Infante conseguiria agarrar com as duas mãos este desafio, que vai muito além do simples humor.

É, de certa forma, um humor elementarmente inteligente: um paradoxo entre a banalidade dos estereótipos, a sua presença no quotidiano e a fácil identificação; e a forma inteligente como são dados a conhecer e interpretar, com um olhar crítico subjacente, típico de Borgosian, muito satírico. A crítica atravessa todo o espetáculo, explícita ou implicitamente, como se todo ele fosse construído para nos dar algo sobre que pensar. E a verdade é que é.

A juntar à excelente interpretação e à encenação cuidada, temos ainda a música original de João Gil, que acompanha as aventuras das sete personagens de modo competente. Esperava-se talvez um pouco mais de Gil, composições mais arrojadas e marcantes, no entanto o balanço é positivo. Igualmente de realçar são os adereços do cenário e do próprio ator, desde as roupas ao guarda-fatos improvisado onde, entre cada personagem, Diogo Infante muda de roupa em palco. Uma opção cénica interessante e bem conseguida, a meu ver, despertando a curiosidade de quem assiste.

Gargalhadas e muita reflexão, é o que fica de pouco mais de uma hora de uma peça de teatro leve, mas crítica – simples, mas com tanto por baixo do que está à vista. O palco da Sala Montepio, no S. Jorge, acaba por ser perfeito para a relação intimista que se pretende estabelecer com o espectador, oferecendo-lhe uma proximidade que uma sala maior não daria. Vale pelo texto e, sobretudo, pela oportunidade de ver Diogo Infante de volta a um espaço tão seu – fazendo dele o que quer – que é o palco. Porque existir é também ir ao teatro, divertir e refletir!

Fotografias: Andreia Martins