Wes Anderson sempre elevou a fasquia bem alto desde o início. Moonrise Kingdom é o seu novo conto de fadas e, para o bem da humanidade, não desilude, antes pelo contrário.

Este mais recente trabalho de Wes Anderson foi a longa-metragem escolhida para inaugurar a passada edição do Festival de Cannes, o suficiente para deixar água na boca. Como se não bastasse, o trailer divulgado há alguns meses tornou-se instantaneamente num dos mais deliciosos de sempre, arrisco dizer.

Moonrise Kingdom transpira Wes Anderson por tudo quanto é frame desde o primeiro segundo. É uma visita guiada pela casa da família Bishop que dá início ao filme, bem ao estilo da emblemática cena em que ficamos a conhecer pormenorizadamente o submarino de Um Peixe Fora de Água. Vemos que a família Bishop é constituída pela mãe Laura (Frances McDormand), pelo pai Walt (Bill Murray – afinal isto não seria um filme de Wes Anderson sem ele) – e pelos seus filhos, entre os quais se insere a deslocada Suzy (magnificamente interpretada pela estreante Kara Hayward).

Suzy é a eterna amada de Sam (pelo também fantástico novato Jared Gilman), um rapaz que havia conhecido há alguns meses atrás e com o qual tem vindo a trocar clandestinamente cartas de amor. Percebemos que há muito comum entre ambos, pois também Sam se sente marginalizado de tudo o que o rodeia. É através desta troca de mensagens que planeiam fugir juntos. Assim, em pleno verão inglês de 1965, os dois apaixonados de 12 anos partem rumo a um local muito especial, só seu.

Acontece que o plano de Sam e Suzy vira a modesta ilha de Nova Inglaterra do avesso, quando a personagem de Edward Norton – que parece estar de volta aos bons filmes, de modo hilariante –, responsável pelos escuteiros do Campo Ivanhoe, alerta as autoridades. O Captain Sharp de Bruce Willis e companhia partem em busca dos apaixonados fugitivos. Entretanto, enquanto assistimos às peripécias do casal, vemos como Sam coloca em prática tudo o que aprendeu enquanto (ex-)escuteiro para que a sua amante se sinta confortável.

O argumento pode aparentar estar algo gasto, certo, mas é a forma apaixonante como Anderson – com a ajuda de Roman Coppola, filho do Coppola-mor – o molda e adapta à sua maneira que nos faz gostar de cada segundo vivenciado neste conto de fadas incrivelmente bem desenvolvido e pensado inteiramente ao pormenor.

O que distingue a forma como Anderson pratica cinema da restante indústria é não só a sensibilidade com que as personagens interagem entre si, mas também a atenção aos pormenores, onde tudo tem a sua razão de ser – em casa dos Bishop comunica-se via megafone e Murray corta árvores para drenar os nervos.

Os diálogos, por vezes arriscados, conseguem ser geniais e o resultado é de rir a bandeiras despregadas. Os planos e a edição que tão bem reconhecemos estão deliciosamente presentes. A animação stop-motion de que Anderson é fã pode passar despercebida, mas também está lá. Até Jason Schwartzman dá o ar de sua graça. O que há para não gostar?

Moonrise Kingdom é Wes Anderson destilado, a grande diferença é que se encontra num patamar um pouco acima dos antecessores. Moonrise Kingdom é um filme com crianças para adultos. Moonrise Kingdom é, sobretudo, a viagem que todos nós gostaríamos de ter feito e da qual nos esquecemos de que vamos sempre a tempo.

Há quem tome banhos de água fria para ter ideias, já Wes Anderson aparenta banhar-se em mel.

8.5/10

Ficha Técnica:

Título Original: Moonrise Kingdom

Realizador: Wes Anderson

Argumento: Wes AndersonRoman Coppola

Elenco: Jared GilmanKara Hayward, Bruce WillisBill Murray, Frances McDormandTilda Swinton, Jason Schwartzman

Género: Comédia, Drama, Romance

Duração: 94 minutos