De um lado Cronos, do outro Céos. Na mitologia grega: o rei dos titãs versus o titã da inteligência, respetivamente. Na realidade da televisão portuguesa: a rainha das audiências, TVI, versus a concorrente SIC. Para me ilibar já de eventuais crucificações, dizer só que a correspondência estabelecida entre SIC e Céos é culpa da própria mitologia grega. Tivessem-se preocupado em inventar um titã do servilismo degradante e eu não estaria aqui a criar equivalências ingénuas. De qualquer das formas, este duelo de titãs parece não ter fim e vai já em setembro para o próximo round

Após o último assalto, em que A Tua Cara Não Me É Estranha mediu forças com o depauperado Ídolosaplicando-lhe um verdadeiro Knock Out – a SIC arregaça agora as mangas e faz peito à concorrência. Luis Marques procura, mais uma vez, estratégias para destronar a TVI, desta feita com um reality show, veja-se o quão surpreendente!

Trata-se de Dance Your Ass Off ou, em português, Toca a Mexer, um concurso que alia a dança à perda de peso, quase como que uma fusão entre Dança Comigo (exibido na RTP) e Peso Pesado (exibido na SIC). O local escolhido para a realização deste caricato, se não ridicularizante, desempenho artístico é Carnaxide. A bailar para a vitória/dieta vão estar 12 concorrentes.

Não é que me chateie muito a brandura do timbre da Júlia Pinheiro ou a discrição fisionómica da Bárbara Guimarães, as duas possíveis anfitriãs do formato. É como tudo: primeiro estranha-se, depois entranha-se; portanto, o primeiro obstáculo está ultrapassado.

Vamos ao próximo: balança comercial negativa. Contam-se pelos dedos os programas de formato original. Estes, colocados lado a lado com o volume alarmante de importações, sobretudo originárias dos EUA (das quais Dance Your Ass Off é só mais um exemplo), tornam-se profundamente insignificantes. Veja-se uma excepção à regra: o programa da RTP, 5 Para a Meia-noite, tem um formato inovador e caseiro e, vá-se lá saber porquê, ainda recentemente foi distinguido com o Prémio Nacional Multimédia. Já bem basta um cenário destes no panorama politico-económico. Temos argumentos válidos e suficientes para contrariar esta tendência. Suponha-se que temos ainda capacidade para superar este segundo obstáculo. A este ritmo, inauguramos já a balança e lá se vão as primeiras calorias.

Terceiro obstáculo: tourada humana. Quem teve a oportunidade de assistir ao Peso Pesado, facilmente recorda os episódios de afrontas à dignidade das pessoas que ali ficaram patenteados. Que a SIC já não olhe a meios para atingir os fins e se prontifique a renunciar à sua dignidade enquanto suporte mediático, praticamente prostituindo-se a qualquer custo para roubar protagonismo à TVI, já não me causa consternação alguma. E, desde já, dirijo a minha cordialidade para com os “gordos“, como lhes chamam recorrentemente: é completamente inteligível que pessoas com este tipo de embaraço manifestem ambição em atingir metas de peso que lhes pareçam mais razoáveis. É legítimo. O que não é compreensível é o aproveitamento que este tipo de programas fazem desta legitimidade tão inocente.

Acredito e contento-me em sabê-lo que haja pessoas a sair destes programas com uma vitória importante para as suas vidas e que isso as satisfaça profundamente. Não consigo fechar os olhos à exploração que é feita, pondo a nu todo o tipo de fragilidades e inseguranças que os que por lá passam naturalmente evidenciam, numa mera operação mercantilista em que se trocam uns segundos de atenção do espectador ávido por impiedosos testes aos limites físicos e psicológicos dos anónimos concorrentes.

Entre as estações privadas, a lógica é a do quanto pior, melhor. E se de um lado teremos a exposição artística de anafados cidadãos, do outro a abundância será de devassidão e ignorância. Impõe-se cada vez mais a necessidade de ser feita uma triagem qualitativa na preferência programática. Entre Cronos e Céos, resta saber quem irá triunfar na lamacenta arena audimétrica.