O segundo dia do 18º Super Bock Super Rock levou 21 mil pessoas ao Meco. As vozes femininas mereceram destaque, Oh Land impressionou, Lana Del Rey desapontou, e M.I.A. fechou em grande. Pelo meio tivemos a onda indie muito bem apresentada pelos nova-iorquinos The Rapture e os britânicos Friendly Fires. Wraygunn e The Horrors não ficaram nada atrás, operando um excelente encerramento do palco EDP.

Supernada, regressados este ano aos palcos com o álbum Nada É Possível na bagagem, continuavam com a “mostra” de música portuguesa e inauguravam assim o segundo dia. Infelizmente, a música portuguesa ocupa sempre posições inferiores na maior parte dos cartazes, mas sempre temos Wraygunn bem destacado neste segundo dia do SBSR.

Manel Cruz em Supernada
Manel Cruz em Supernada

Há voos e voos. Frenéticos, sossegados ou os assim-assim. Depois do check-in feito pelos protegidos de Manel Cruz, a missão dos The Rapture era acalorar o público que chegava à Herdade do Cabeço da Flauta regido por ignições bem mais ambiciosas. Sail Away era “aquele” trunfo e foi lançado precocemente numa tentativa desenrascada de prender o público mais distraído. «Are you ready?» A resposta foi dada o som de berros com tom de afirmação. Sem histerismos: «Thank you for being ready».

As boas-vindas estavam dadas. Aos poucos e poucos o avião ia-se apressando para uma descolagem cheia de êxito e o percussionista, disfarçado de piloto, queria muito alcançar as rédeas da trip em Portugal. Numa viagem bem agradável, embora com problemas de som que assustaram com alguma turbulência, foi ao ritmo de How Deep Is Your Love que se ouviram as palmas de festejo de uma aterragem definitivamente bem feita. Well done.

Com o cair da noite, surge em palco a grande revelação do ano. Sucesso de youtube que vira fenómeno da pop é receita certa para uma boa dose de histerismo. Aquando a entrada de um quarteto de cordas inteiramente feminino, torna-se claro que Lana Del Rey é o motivo deste segundo dia estar mais preenchido. A multidão corre para o palco. Os primeiros acordes de Blue Jeans arrancam gritos de emoção à plateia, que dão as boas vindas à princesa. «You are amazing!», Lana não esconde a satisfação por ver um público tão composto e logo arrisca uma nova música. Born To Die em versão mais negra é o prato seguinte: «não sou de falar muito em concertos mas vocês são a melhor audiência de sempre»; o público estava em êxtase. Canta Without You abraçando e beijando fãs na primeira fila e nada consegue acalmar a audiência, mas o registo de Del Rey continua igual a ela própria: vagarosa ao desfilar pelo palco e uma voz cansada que se arrasta em torno de melodias orelhudas, entoadas pelo público de cor e salteado. Os corpos pouco se soltam, à medida que a cantora continua a apresentar o seu primeiro trabalho discográfico. Million Dollar Man e Carmen são as últimas que a equipa Espalha-Factos ouve antes de se dirigir ao Palco EDP: Oh Land estava prestes a começar.

Lana del Rey | Disco Digital
Lana del Rey | Disco Digital

Rapidamente percebemos que foi a escolha acertada. Nanna Øland Fabricius aparece no palco secundário deslumbrante num mar de folhos dourados pronta a aquecer os poucos festivaleiros que preferem a companhia da dinamarquesa. E os seus fãs oferecem-lhe as merecidas boas vindas, neste retorno a terras lusas desde a sua passagem pelo Mexefest em Setembro. Break the Chain é o primeiro grande momento da noite, com Nanna a demonstrar uma técnica vocal e presença de fazer inveja à popstar do palco vizinho. E Sun Of Gun electriza o público, magnetizado pelo instrumental envolvente e a figura de Nanna a balançar-se no palco. A sua beleza convence cada vez mais festivaleiros, multiplicando exponencialmente a audiência apenas com um par de músicas. De destacar Wolf and I, expoente máximo da sua actuação, que deixou o Super Bock Super Rock rendido. Nanna foi até à lua e levou toda a gente com ela. Terminando o concerto em grande festa, canta em plenos pulmões: «We turn it up, and we don’t care what you say!».

Tidos como uma das grandes atracções da noite, os Friendly Fires até que conseguiram compactar um já considerável tecido humano. Enveredaram pelo caminho do dance punk indie e não se perderam, nem se detiveram com meias medidas. Skeleton Boy serviu para colocar a malta mais à vontade, pronta a dançar até ao cair da noite. Kiss of Life colocou um ponto final na actuação, marcada por um Macfarlane visivelmente irrequieto.

Os Wraygunn eram a pitada de música portuguesa que as noites do SBSR já andavam a pedir. Começaram a abrir na via do rock n’ roll, para depois colocarem Soul City na segunda mudança. O grupo encabeçado por Paulo Furtado – com a indumentária do costume -, faz uma curva a «uma antiguinha», acolhida com muita dança frenética por parte do público; esta que veio a aumentar com Go-go Dancer. Com uma introdução que nos faz sentir que são os Sonic Youth do My Eternal em palco, os Wraygunn apostam em I Wanna Go. Com Drunk Or Stoned preenchem o Meco com uma sonoridade de fazer inveja a qualquer filme de motoqueiros, xerifes e muitos, muitos tiros. Loveletters From a Motherfucker mereceu um devotado coro por parte de toda a plateia. Antes de terminar, a apresentação da praxe, e, para surpresa de todos, Sean Riley entra em palco para contracenar com a banda e solar por breves momentos. Paulo Furtado acabou erguido como um rei pela populaça, fez crowdsurfing e deu as indicações, ofereceu amor a todos e rompeu de vez com os pudores. Um final de ritmo alucinante.

Paulo Furtado com os Wraygunn | Disco Digital
Paulo Furtado com os Wraygunn | Disco Digital

De volta ao palco principal, o volume já estava no máximo para receber a cabeça de cartaz deste dia: M.I.A. é introduzida com alguns minutos de electrónica eclética, com fusões multiculturais tão características da sonoridade da britânica de ascendência cingalesa. Já passava da uma da manhã quando entra em cena; os baixos faziam tremer o chão e o palco explodia de cor. M.I.A. ofereceu um concerto de grandes proporções, e até convidou alguns festivaleiros (só homens!) para irem festejar com ela para cima do palco. Paper Planes fez o pó do Meco subir uns bons metros, tal era a animação de uma audiência em grande festa. Missão cumprida.

Pela mesma hora, no palco EDP o público parece estar todo com os britânicos, especialmente a parte dianteira da plateia, que respondia sem medo às investidas umas vezes distorcidas que estes rapazes de Southend on Sea nos lançavam. Os The Horrors não são banda para agradar a todos, nem mesmo aos fãs incondicionais dos ritmos electrónicos indie ou de guitarradas filtradas e transformadas em sons mais industriais. Ainda assim, parece justo dizer que o concerto se revelou muito melhor do que aquele que havia sido o primeiro concerto dos The Horrors em Portugal, foi no Paredes de Coura, há três anos. Mudou a hora de actuação, a qualidade do som, e também chegou um novo álbum: o suficiente. Acompanhado pelo ritmo sincopado dos strobes, o concerto terminou com um instrumental longo e demorado; muito bem jogado por uma banda que tem bastante para mostrar por detrás de todos os instrumentistas.

Hoje, 7 de Julho, a Herdade do Cabeço da Flauta recebe o último dia desta edição do Super Bock Super Rock. O claro destaque vai para Peter Gabriel e a magnânima orquestra que colocará em palco – The New Blood Orchestra -, e, inevitavelmente, para Skrillex, que irá actuar às 2h30 no palco EDP. Aloe Blacc, The Shins e Regina Spektor são os outros nomes que mais enriquecem o cartaz neste último dia de SBSR.

Artigo redigido ao abrigo do Acordo Ortográfico de 1945, por André Abreu, Diogo Machado Ferreira e Francisco Morgado Gomes