Bruno Nogueira, Luísa Cruz, Orquestra Metropolitana de Lisboa e os textos de Karl Valentin são os ingredientes indispensáveis à Bizarra Salada que se serve nas noites deste fim de semana no São Luíz. Haverá muitas receitas bombásticas e de sucesso, mas nenhuma ousou cruzar, nos últimos tempos, o nonsense com uma orquestra de música erudita. 

De início, os músicos estão atrasados. Chegam por fim e entre eles está Bruno Nogueira. O Maestro é o último a chegar e ele é Luísa Cruz: a mulher que faz de homem, sem grandes preocupações no atingir desse o outro género, até porque isso não é o essencial nem o que mais desvia a atenção do público. A interação entre os músicos conquista de início e à primeira troca de conversas sem destino, entre o músico que não quer trabalhar (Bruno Nogueira) e o Maestro, fomos apanhados na Bizarra Salada.

A peça congregou de forma inteligente diversos textos do clown Karl Valentin. Têm temas distintos como a explanação estéril que se pode fazer sobre um aquário, uma carta de amor que se escreve porque não foi escrita outra carta de amor, ou simplesmente os versos soltos sobre nada em especial, mas a comunhão de todos os textos está incrivelmente bem feita. Quando partimos de um quadro em que uma orquestra ensaia, não sabemos onde vamos parar. No final, não sabemos como fomos ali parar. O nonsense e o trocadilho, o jogo de palavras e o ridículo de que Valentin tanto gostava são provavelmente aglutinadores de cerca de uma hora de espetáculo que sabe a pouco.

Como elemento excecional fica o facto de se ter a acompanhar humor  uma orquestra da qualidade da Orquestra Metropolitana de Lisboa, que tocou nos sketches, que incorporaram sempre a sua música, e fora deles. Há momentos particularmente graciosos em que o desenho de luz e a música se conjugam num cenário quase onírico em que, porém, não se abandona o ridículo. A desenganar-nos aparece depois a sombra de Bruno Nogueira pendurado algures. Pequenos nadas da encenação que acrescentam ao texto e que fazem toda a diferença.

O trabalho adicional de atualização dos textos originais é visível. Como diz Luísa Cruz a dada altura, “Há sempre algo a acrescentar a uma velha partitura“. Não foi provavelmente Karl Valentin que escreveu a referência ao “outro que nos mandou emigrar“.

Do texto original ficaram o nonsense e os jogos de palavras que tão bem encaixaram em Bruno Nogueira, de um timing e humor físico exemplar, e em Luísa Cruz, ambos em cenas quase trava-línguas e ainda assim irrepreensiveis.  Bruno Nogueira mostrou mesmo as suas capacidades musicais, em evolução ao longo do espetáculo: primeiro, uma percussão desajeitada, depois, música com máquinas de contar notas e por último, uma pequena música ao piano, sozinho e mais tarde com toda a orquestra, que tocou de pé, dançando, numa apoteose musical diferente dos arrebatados sons formais das orquestras clássicas.

Para lá da conversa sem sentido e puramente hilariante ficam algumas notas satíricas: de Karl Valentin que, na cena final, confessa já não saber rir por causa da crise (a menos que lhe paguem para rir, claro), a uma receita elaborada preparada com tudo o que se tiver, a receita do magnata de charuto, maço de notas na mão e vontade de mostrar o que tem e o que não tem. A receita da Bizarra Salada, que hoje como há 80 anos, nos continua a ser servida.